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Terça-feira, 18 de Junho de 2024
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Geral

Régis da Vila – O Samba como Espaço Social, Cultural e Político

Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora #043

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
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Régis da Vila – O Samba como Espaço Social, Cultural e Político
Régis da Vila
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O objetivo dessa série é dar visibilidade para aqueles que a sociedade sempre tentou tornar invisíveis. Assim nasceu a série Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora sem quaisquer interesses comerciais. Este aqui é o #NossasRiquezasPretasJF, um projeto antirracista do Instituto Autobahn que visa destacar os expoentes negros do município de Juiz de Fora e legar exemplos positivos de sucesso para as futuras gerações. Iniciado em 2023 com o formato de coluna na RCWTV, a reportagem #001 foi sobre Carina Dantas, #002 Antônio Carlos, #003 Geraldeli Rofino, #004 Sérgio Félix, #005 Fernando Eliotério, #006 Maurício Oliveira, #007 Ademir Fernandes, #008 Gilmara Mariosa, #009 Batista Coqueiral, #010 Cátia Rosa, #011 Eliane Moreira, #012 Antônio Hora, #013 Ana Torquato, #014 Alessandra Benony, #015 Sil Andrade, #016 Joubertt Telles, #017 Edinho Negresco, #018 Denilson Bento, #019 Digo Alves, #020 Suely Gervásio, #021 Tânia Black, #022 Jucelio Maria, #023 Robson Marques, #024 Lucimar Brasil, #025 Dagna Costa, #026 Gilmara Santos, #027 Jorge Silva, #028 Jorge Júnior, #029 Sandra Silva, #030 Vanda Ferreira, #031 Lidianne Pereira, #032 Gerson Martins, #033 Adenilde Petrina, #034 Hudson Nascimento, #035 Olívia Rosa, #036 Wilker Moroni, #037 Willian Cruz, #038 Sandra Portella, #039 Dandara Felícia, #040 Vitor Lima, #041 Elias Arruda, #042 Bruno Narciso e agora é a vez de Régis da Vila.

Por Alexandre Müller Hill Maestrini

Régis José de Oliveira, conhecido no meio do samba como Régis da Vila e por seu Eketé colorido, nasceu em 01.06.1959, na rua Cruzador Bahia, na Serrinha, hoje bairro Dom Bosco, em Juiz de Fora – MG. Ele sempre se mostrou como um ser humano diferenciado, um ser social engajado no samba, na cultura e, por fim, um ser político com suas ideias e ações. Mas aquele bebê já nasceu inserido na região do bairro Dom Bosco, ex-Quilombo e berço da comunidade negra na cidade. O nome da rua onde morava era em homenagem ao “Cruzador Bahia”, um navio da Marinha Brasileira que ficou famoso em novembro de 1910, no Rio de Janeiro, ao ser palco da “Revolta da Chibata”, contra os castigos físicos como punição aos marinheiros rasos. João Cândido Felisberto, um negro gaúcho, foi o líder da revolta, e ficou conhecido como “Almirante Negro”.
Mesmo antes de Régis nascer, a música já guiaria sua vida: “meus pais se encontraram num baile do Clube Elite, na rua Halfeld, parte baixa, onde os tios já eram dançarinos. Minha mãe Maria Quita, 17.06.1942 que era natural de Patrocínio, Região do Alto Paranaíba – MG, e trabalhava na época de cozinheira e tomava conta das crianças na casa de um juiz de paz Gustavo”. Quita só tinha o terceiro ano primário: “mas ela tinha uma letra fantástica e exigia muito da gente na parte da leitura e da escrita”, contou Régis.
Quando o  patrão e juiz de paz foi transferido para Mar de Espanha - MG, sua mãe passou a frequentar os bailes negros em Juiz de Fora: "depois que conheceu meu pai ela decidiu se mudar para a cidade para se casar no final dos anos 50 na Igreja São Mateus (foto abaixo na esquerda), e depois trouxe toda a minha família materna”.
O pai de Régis, Geraldino José de Oliveira tinha nascido em 1918 na região da Fazenda São Mateus, Monte Verde e Torreões – MG. Ele trabalhava como ensacador numa plantação de café e era conhecido como ‘Coluna’, pois pegava muito peso: “minhas tias contam que ele era contemporâneo e conterrâneo do cantor e compositor Geraldo Pereira”.

A família dele tem quase nenhuma memória fotográfica: "não era uma de nossas preocupações, e dinheiro a gente gastava para sobreviver. Só consegui uma do casamento dos meus pais e duas de criança", comentou (fotos acima). Em 1961, Régis com dois anos tocando um cavaquinho. Em 1970 Régis fez sua primeira comunhão na capela da Santa Casa de Misericórdia: "me lembro muito bem, pois foi nesse ano uma tristeza geral por causa da despedida do bonde no município de Juiz de fora". A foto tirada por um desconhecido no seu querido e inesquecível Grupo Escolar Duque de Caxias: "essa foto me marcou muito, uma pessoa bateu, revelou e depois me entregou na escola, até hoje não sei o seu nome e porque fui o privilegiado. De qualquer forma é única recordação que tenho da infância".
Régis é o mais velho entre três irmãos: “meu irmão se chamava Carlos André e minha irmã Maria Aparecida. Ambos já falecidos”. Ele explicou que tem poucas lembranças dos avós: “sei de tradição oral que meu avô materno Lázaro Malaquias trabalhava em charqueadas e que todos eles eram negros”. Régis só conheceu sua avó materna Maria Rita Malaquias, de Patrocínio: “eu tinha cinco anos, mas ela teve um derrame e faleceu dentro de quatro anos”. 
Com um ano de idade Régis se mudou com a família para a Rua Onofre Mendes no bairro Mundo Novo, onde viveu, brincou, jogou bola, jogou pique bandeira, etc: “morávamos em uma das casas do Sr. Afonso Gomes onde só morava negros, mas o bairro já estava bem urbanizado com calçamento e estrutura”, lembrou-se que tinha racismo sim, mas eles não se deixavam abater. Seu primário foi na Escola Estadual Duque de Caxias até 1970, na Avenida Rio Branco 3310, em frente à Santa Casa de Misericórdia. Ao completar 10 anos, a família se mudou para o bairro Santa Luzia: “lá nós morávamos em uma das casas do Sr. Ozório Miséria, que trabalhava com calçamento de ruas. Hoje é a área da UPA de Santa Luzia”, comentou.
O pai de Régis não sabia ler nem escrever, porém cantava ao lado de calangueiros: “me lembro que ele sempre me levava quando ia cantar calango. O Calango são versos e meu pai participava de batalhas de desafio de calango”. Seu pai sempre o levava no Bar do Tião Culuca, no bairro São Benedito. Hoje Régis sabe muito bem improvisar por causa dessa companhia que fazia para o pai: “daquela região de Monte Verde e Torreões, a maioria da população era analfabeta como meu pai, mas muito boa de improviso”, lembrou. Régis não se lembra do pai contar sobre seus antepassados: “mas acredito que meu avô paterno deve ter sido escravizado”. Seu pai nessa época trabalhava como catador de café na fábrica de Café Vilela em Juiz de Fora.
Em 1971, o pai tinha que levar a família para onde consegui pagar o aluguel e com apenas 12 anos, Régis se mudou com a família para o bairro Vila Alpina, e como eles não tinham muitos atrativos no bairro, ainda menino subia para o bairro São Benedito, onde os tambores e tamborins agitavam a quadra da Grêmio Recreativo Escola de Samba Castelo de Ouro: “a quadra era muito divertida e o sábio presidente Sr. Euclides Manoel animava a garotada”. Régis se lembra que quem cantasse na quadra ganhava uma Coca-Cola ou um cachorro-quente ou um pastel: “a gente ia aprendendo de ouvido até o Zezé do Pandeiro chegar”.
Para Régis a Escola de Samba absorvia toda a violência do bairro São Benedito: “para entrar na quadra e jogar futebol e participar os meninos tinham que estar na escola e o Sr. Euclídes, que também era negro, exigia e ajudava os meninos a estarem com emprego”. Régis se lembra que como o presidente tinha uma fábrica de barbantes, ele dava serviço para os meninos: “aprendi com ele que a escola de samba é uma oportunidade social e política”.
Para Régis, Zezé do Pandeiro é uma das grandes referências do samba em Juiz de Fora e deixava a garotada pegar o microfone e cantar acompanhando a bateria: “mas ficavam de olho quem iria para a bateria e quem sabia cantar”. Ele se lembra que o Sr. Euclides Manoel fez um concurso do samba da Escola para os meninos: “subi no palco e cantei o sambaFestas Folclóricas do Brasil’, de Zezé do Pandeiro e Bené” (vídeo abaixo). O menino Régis já desceu com um monte de garotos em volta dele dizendo que cantou igual ao Zezé: “fiquei todo prosa e entrei para essa linha e dessa brincadeira já estou no samba há mais de 50 anos”, sorriu. Régis contou que a partir daí começou a atuar como animador de quadra nomeado pelo presidente: “eu ficava cantando desde o início da abertura da quadra até o puxador oficial chegar no palco”.

Em 1972 o menino Régis fez sua estreia na avenida na ala das crianças da Escola de Samba Castelo de Ouro: “eu já era animador de quadra, o intérprete era Zezé do Pandeiro e o pai saiu vestido de palhaço de folia de reis”. Lembrou também que a escola de samba funcionava o ano inteiro com atividades, não só durante o carnaval, e que ele ficava no pé do Zezé do Pandeiro pra aprender a cantar cada vez melhor: “na nossa época o Sr. Euclides Manoel colocava todos os segmentos pra funcionar, era encontro pra comer canjiquinha, tinha o encontro das baianas, o encontro de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e muito mais”.
Régis estudou até o primeiro ano do ensino médio no Colégio Euclides da Cunha, no bairro Alto dos Passos: “saí da escola, mas não fiquei sem os meus livros, fiz muitos cursos e participei de muitas palestras”. Desde os 15 anos Régis escreve sambas: “uma vez um famoso cavaquinista me deu um dicionário de presente e o Iraci dos Reis me ensinou algumas métricas do Samba Enredo e venho me aprimorando até hoje”. Em 1974 compôs seu primeiro samba de quadra para animar a quadra da Castelo de Ouro Me tira a mão Zé” (Vídeo abaixo).

Régis se lembra que era o pai que apertava os filhos para trabalharem muito: “para meu pai samba era coisa de malandragem e não queria que eu ficasse ligado na escola de samba de segunda a segunda-feira”, sorriu. Para ajudar as finanças em casa infelizmente com 16 anos ele teve que parar com a escola para se dedicar ao trabalho: “comecei muito cedo a trabalhar na fábrica de calçados Jacometti, lá eu fazia de tudo, da colagem da sola à limpeza dos sapatos de couro”.
Com 17 anos, apaixonado pelo samba e pelo Botafogo Futebol Clube, já tinha ganho seu nome artístico ‘Régis da Vila’, em referência ao bairro Vila Alpina, onde ele vivia quando o samba entrou definitivamente em sua vida. Era 1978, Régis estava no Exército como soldado, quando conheceu Marcelo Barra e se inscreveu e ganhou o concurso de samba com “Doméstica na Gafieira” para o Bloco Domésticas de Luxo: “vi na avenida todo mundo cantando meu samba e essa vitória abriu as portas para mim no samba de Juiz de Fora”, lembrou. (Vídeo abaixo)

Durante o carnaval de 1979 Régis conheceu Lucimar Luiza Rosa de Oliveira, de 20.10.1963, filha de pai e mãe sambistas, e juizforana do bairro Benfica. E é claro que ele acabou contando o encontro inicial em divertida forma de samba ‘Surgimento do Amor’ (vídeo abaixo). Em 1984 se casaram e foram morar no bairro Dom Bosco, depois em 1994 se mudaram para o bairro Jóquei Clube I: “onde nasceram nossos três filhos Régis Júnior, Jerry Adrianne e Jessica Celeste”.

Régis não se lembra muito de atos de racismo: “mesmo porque a gente veio a saber que era racismo só muito tempo depois”. Porém a esposa Luiza se lembrou do tempo de escola que: “a professora me colocou ao lado de um menino branco e ele se recusou a sentar comigo, pois minha cor poderia pegar nele e passar pra ele”, imagine. Para a noiva Lucimar, com apenas 18 anos de idade, Régis compôs o samba ‘Preta Ciumenta’: “ela não gostava nem que as mulheres falassem o meu nome”, sorriu. Música que ele canta para a esposa até hoje e os dois levam tudo com muito humor. (Vídeo abaixo)

Ele também é fundador do grupo de sambistas ‘Pagode de Canja’, que se reuniam no Bar do Valtinho, na esquina das ruas Floriano Peixoto e Avenida Rio Branco. Eles se encontravam todas as segundas-feiras com compositores, cantores e sambistas: “era para revelar garotos novos e exportar sambistas. Lembro-me que ia até polícia ROTAM e tinha que acabar 22 horas pra parar o samba. E foi assim até 1995”, contou. O sucesso de Régis crescia e em 1985 foi convidado para compor com Valtinho de Paula, Sérgio, Edson Gonçalves e ganharam com o Samba-Enredo ‘Memórias de Paz para um amor maior’ no Grêmio Recreativo e Escola de Samba Real Grandeza. Neste mesmo ano junto com Sérgio, Edson Gonçalves e a esposa Lucimar, Régis compôs o samba enredo Passeando pelo Mundo da imaginação’ para o Bloco Domésticas de Luxo. Em 1990 Régis ganhou o Samba-Enredo ‘A Origem da Borracha’ para o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Rivais da Primavera compondo com Aurélio, Santinho, Joel, Tininho, Banha e Toninho. (Áudio abaixo)

Em 1992 o então presidente do Brasil Fernando Collor de Mello foi acusado de corrupção e sofreu um processo de impeachment pelo Congresso Nacional. O juizforano Itamar Franco era o vice e assumiu em dezembro de 1992. Como de costume, Régis pegou a ‘palavra da moda’ e compôs em 1993 com Giovani Russo um samba para o carnaval do Bloco do Beco em homenagem ao Presidente da República Itamar Franco com o título ‘Brasil de Cabelo em pé’, lembrando do famoso topete de Itamar e brincando com a forma comum na língua portuguesa de dizer que ficamos espantados com alguma coisa.
Régis foi também um cidadão atento ao seu tempo. Ele percebeu a crescente preocupação ambiental com a preservação dos rios e no Dia da Água expressou tudo isso em forma de uma ação popular e ecológica. Em 1997 lançou a campanha “Rio Paraibuna. Te quero vivo”, com o propósito de educação e conscientização ambiental, alertando para o acúmulo de lixo e dejetos depositados pela população às margens do Paraibuna. Régis fez camisas, panfletos e conseguiu reuniu aproximadamente cerca de 3 mil pessoas nas margens do Paraibuna, por meio de um abraço simbólico em parte de seu leito, mostrando o descontentamento com as ações predatórias contra a natureza e o descaso com a preservação de suas águas.
Como ponto alto, Régis conseguiu organizar uma marcha da Rodoviária até o Jóquei I, bairro onde mora: “me lembro que até o time do Tupi, que era patrocinado pela CESAMA, usou em 1988 a logomarca em uma de suas camisas” (foto abaixo). A CESAMA lançou também sua campanha institucional de preservação do meio ambiente. Além da divulgação, fizeram botons, camisas, cartazes, out-doors, placas. A campanha conseguiu o apoio das escolas, que promoveram várias manifestações pela preservação do rio da cidade: “aconteceram também atividades como corridas à margem do rio para resgatar a necessidade de conscientização da qualidade ambiental”, contou.

Junto com o sambista K-Boclinho, Régis compôs ‘A sorte do Ricardão’. Com Joaquim dos Boêmios saiu o famoso samba ‘Terreiro da vovó’. Já com Tavico surgiu ‘Senhor doutor’. Quanto ao samba ‘Vovó Sorridente’, em parceria com Batista Coqueiral e Bebeto di São João: “a gente fazia samba de tudo. Na época que surgiu o viagra em 1998 a gente pegou o tema e desenvolveu um sambinha. O Viagra destinado a tratar a impotência tinha começado a ser vendido e gerando filas de idosos nas farmácias”, sorriu com ironia. (Vídeo abaixo)

Em 1999, com 40 anos de idade, Régis passou no concurso e em 2000 entrou como efetivo na Prefeitura Municipal de Juiz de Fora no cargo de Auxiliar de Serviços Gerais e sempre trabalhou como atendente na Secretaria de Transporte e Trânsito SETTRA/PJF. Nesse ano de 1999 a Câmara Municipal de Juiz de Fora concedeu com a Lei nº 9603 o título de Cidadão Benemérito de Juiz de Fora para Régis. Neste mesmo ano começou a pesquisar a história do cantor e compositor juizforano Geraldo Pereira. Régis confessou que sua paixão e missão é mostrar que o Samba é um espaço social, cultural e político.
Ele tinha uma ideia de como fazer seu sonho se tornar realidade e desde 2000 vinha gestando uma ideia. Nesse ano Regis, levado por Zezé do Pandeiro, conheceu no Rio de Janeiro, o Manoel Dionisio (foto abaixo da esquerda de Nicolas Renato), que já era fomentador de um projeto de Mestre-Salas e Porta-Bandeiras na capital carioca: “em 1990 o Mestre Manoel Dionísio resolveu criar a Escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte. O projeto já formou inúmeros dançarinos do samba”.

Vendo que Juiz de Fora não tinha nada parecido na área de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Régis trouxe a ideia e apresentou aos amigos Batista Coqueiral, Nilton Braga e outros. Logo em 2003 se tornou um dos fundadores e depois presidente do Instituto Cultura do Samba em Juiz de Fora e que em 2024 completa 21 anos de existência: “o Instituto mantém um trabalho consistente e continuado, que tem como objetivos promover, divulgar e engrandecer o samba”, comentou. Mas no início, contou Régis: “a gente ia no sábado buscar as latinhas de bebida que sobravam do show do Roger no bairro Ladeira e vendíamos como reciclagem para podermos pagar as aulas dos instrutores cariocas de Mestre-Sala e Porta-Bandeira”.
Os ensaios eram nas Escolas de Samba do ladeiram, no Partido Alto, mais recentemente passamos os ensaios para o Teatro Pascoal Carlos Magno em parceria com a Prefeitura Municipal de Juiz de Fora. Em 2023 foi lançado oficialmente pela Funalfa o processo de Registro do Instituto Cultura do Samba como bem cultural imaterial do Município de Juiz de Fora: “será o reconhecimento da luta pela preservação da cultura da dança do Mestre-Sala e Porta-Bandeira, e demais segmentos das escolas de samba. Além das aulas de dança gratuitas e abertas a pessoas de todas as idades, o grupo promove viagens didáticas e apresentações em eventos culturais”, explicou Régis (vídeo abaixo).

Para os interessados: “hoje as aulas são realizadas todas as quartas-feiras, às 19 horas, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas”, lembrou. Ainda segundo Régis: “o instituto foi fundado com o objetivo nobre de promover e divulgar a dança de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, bem como os demais segmentos onde o samba se fizer presente. O trabalho social realizado visa usar os mecanismos da arte do samba para inclusão social de jovens e adultos”. Para Régis: “a dança disciplina e educa a garotada, aproximando-a dos meios culturais”, afirmou. (Foto abaixo)

Em 2005, quando o presidente Lula entrou no poder e implantou projetos de valorização da cultura, Régis representou o Instituto do Samba como voluntário Conselheiro da Conferência Municipal e foi para a capital federal na Nacional de Cultura: “o objetivo era discutir a cultura”. Logo em 2006 ele foi escolhido como Conselheiro para a Conferência de Cultura Popular municipal e nacional: “o objetivo era a valorização da cultura em geral”. Em 2009 Regis ganhou o prêmio Cidadão do Samba de Juiz de Fora da Liga das Escolas de Samba, projeto criado em 2006: “as medalhas e troféus eu perdi, pois deixava meus filhos e netos brincarem com eles”, sorriu.
Sempre muito voltado para o social, Regis participou do movimento Pró-Bairro buscando melhorias (fotos abaixo). Na época, vinte e seis entidades reuniram-se para debater ações desenvolvidas em suas comunidades. O encontro tornou-se um seminário, intitulado ‘Pensando as Boas Práticas do Novo Movimento Comunitário de JF’. Além de lideranças, o evento contou com a participação de intelectuais e técnicos. Um ano e meio depois, realizou-se a segunda edição, mas diversas boas práticas apresentadas haviam desaparecido. O motivo mais frequente: falta de recursos. Assim nasceu a primeira lei de iniciativa popular da cidade: o Pró-Bairros. Seu propósito: criar um fundo para apoiar, mediante seleção pública, projetos elaborados por associações de moradores. A Lei Pró-Bairros é o primeiro dispositivo legal municipal de iniciativa popular. Após recolher mais de dez mil assinaturas, a lei foi apresentada pela União Juizforana de Associações Comunitárias de Bairros e Distritos – UNIJUF à Câmara Municipal e aprovada por unanimidade em 2011. Lançado depois em 2013, o fundo, já beneficiou dezenas de bairros da cidade, em três edições.

Régis sonhava em ir viver do samba no Rio de Janeiro e compor sambas de meio de ano: “é o samba canção caracterizado por músicas românticas e ritmos mais lentos”, explicou. Em 2009 ele compôs junto com Batista Coqueiral e Edson Gaguinho Souza, um Samba Concorrente 3 para a G.R.E.S Unidos do Cabral RJ. O enredo daquele ano foi ‘É o fim da picada, uma questão nacional’ e quem interpretou foi Fabiano Barbosa: “o Enredo poderia descrever diversas das mazelas de nosso país e, em especial, de nossa cidade. Os frequentes escândalos na área politica, as constantes tragédias na área da segurança pública, ou mesmo os diversos descasos na área da saude se encaixariam perfeitamente no título do Enredo”. (Áudio abaixo)

Em 2011 a Escola de Samba União das Cores, Grupo B, do bairro Milho Branco homenageou Regis como tema do enredo ‘Do ouro de um castelo, se fez a prata da casa’, dos compositores Ailton Damião, Amilton Damião, Luca do Cavaco, Gilmar Dutra. Além disso, durante sua carreira Régis recebeu várias homenagens. Entre elas estão o Troféu Tim Lopes – Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, no Rio de Janeiro. O Troféu Bailarina Mercedes Baptista – Escola de Mestre-sala e Porta-Bandeira, Rio de Janeiro. O Troféu Site O Estandarte – Personalidade do carnaval. O Troféu Pimpinela – Personalidade do carnaval de Juiz de Fora. O Troféu UNIJUF (União Juizforana de Associações Comunitárias de Bairros e Distrito) - Defesa do samba e responsabilidade social.
Ainda em 2011, como presidente do Instituto do Samba de Juiz de Fora, Régis da Vila esteve no programa da TVE para divulgar os trabalhos da entidade e contou que: "ensinamos aos casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira a dançarem na avenida”.
Em 2012, liderado por Régis, o Instituto Cultura do Samba junto com a Prefeitura de Juiz de Fora/Funalfa, promoveram o filme “O Rei do Samba” para comemorar os 94 anos de nascimento do compositor juizforano Geraldo Theodoro Pereira (23.4.1918 – 8.5.1955) e entregaram o Troféu Geraldo Pereira em homenagem às pessoas que contribuem com o crescimento e a divulgação da cultura do samba na cidade: neste ano receberam o troféu o professor César do Violão, o compositor Edson Gaguinho, o site “O Estandarte”, o presidente da Associação dos Aposentados Geraldo Lima, e as sambistas Lúcia Silva e Doutora Joannyria Teixeira. Estudioso de Geraldo Pereira, Régis enumerou os sambas mais famosos do compositor: “Falsa Baiana”, “Acertei no milhar”, “Escurinha”, “Sem compromisso”, “Pisei num despacho” e “Bolinha de Papel”.
De 2012 a 2016 Régis foi ‘Diretor Social, de Raça e Gênero’ do Sindicato dos funcionários e servidores municipais da prefeitura municipal de Juiz de Fora (SINSERPU-JF). Em 2014 a prefeitura de Juiz de Fora, na gestão do prefeito Bruno Siqueira, lamentavelmente decidiu acabar com o espaço social e esportivo da Curva do Lacet, hoje uma simples rotatória entre o bairro Cascatinha e o Shopping Independência. E o saudoso Régis, que tinha nascido neste bairro Dom Bosco, lamentou em forma de samba o absurdo da proibição de jogar futebol no Campo do Lacet.
Régis contou que historicamente, esse local tinha sido apropriado pelas populações de baixa renda dos bairros Dom Bosco e Teixeiras como espaço representativo de encontro e de lazer: “a partir de 2006, com o início do processo de implantação de um shopping center, um edifício comercial e um hotel para a classe rica da cidade, a Curva do Lacet foi alvo de ações de ‘requalificação’, que acarretaram a eliminação do campo de futebol e do playground utilizados por moradores locais”. Infelizmente a Curva do Lacet, que tinha uma função social, passou a constituir um imenso vazio urbano, uma área gramada e sem qualquer utilização, o que impediu que frequentadores históricos estabeleçam ali vínculo de pertencimento. A implantação de um shopping center acabou contribuindo para o processo de segregação socioespacial e para essa infelicidade Régis compôs o samba ‘Minha Serrinha Querida’, valorizando a história e tradição do antigo Quilombo da Serrinha, onde os negros chegaram após a abolição. (Vídeo abaixo)

Integrando as atividades da Semana da Consciência Negra, em 2015, Régis e outras 24 servidores e cidadãos negros foram homenageados pelos esforços de combate às desigualdades sociais. Eles receberam a ‘Comenda Jonicy de Barros Ramos’, 20 eram servidores e cinco membros da sociedade civil (Régis na foto abaixo com seu Eketé colorido). Como servidor municipal na Secretaria de Transportes, Régis defende e traz consigo a cultura negra, o samba, a religião e mostra diariamente que todos somos iguais. Como Régis, Jonicy era um lutador da igualdade social e direito à diversidade, foi professor e expoente da raça negra, foi engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), urbanista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com especialização em pavimentação rodoviária pelo Instituto de Pesquisas Rodoviárias do DNER.

Em 2016 como servidor da Secretaria de Transporte e Trânsito SETTRA/PJF, Régis teve a ideia de levar a história de afrodescendentes já homenageados com seus nomes para as placas de ruas para melhor identificação histórica. Ele deu a ideia para o chefe Jonicy de Barros Ramos e surgiu oProjeto Memórias Vivas na Rua’, com início em fevereiro e ao longo de vários meses foram homenageados Cruzador Bahia, Cruz e Souza, Nelson Silva, João Cândido, Rosa Cabinda e Teóphilo: “esse projeto dá aos cidadãos negros a visibilidade que merecem, mostrando a contribuição da população preta para a sociedade”, comentou. Nesse ano recebeu o Mérito Comendador Henrique Guilherme Fernando Halfeld (foto abaixo da esquerda).

Em janeiro de 2018 o repórter da FM Itatiaia Joubertt Telles, recebeu o ‘Troféu Marcelo Barra de Amor ao Samba’ pelas mãos de Marcelo Guedes Barra (a direita na foto acima) e de Régis da Vila (foto acima na direita), presidente do Instituto Cultura do Samba. Marcelo é uma referência do carnaval local e sempre esteve junto com o Zé Kodak e se tornou o presidente da Banda Daki e do Bloco Domésticas de Luxo. Na cerimônia do ‘Troféu Marcelo Barra de Amor ao Samba’, Joubertt Telles foi homenageado por seu destaque do jornalismo local e por falar nas mídias bastante sobre o tema Samba e Carnaval em suas transmissões. Neste mesmo ano, o divertido pagodeiro, calangueiro e compositor gis da Vila e Bruno Bis no cavaquinho cantam a música ‘Nos braços do outro’ composição própria de Regis. (Vídeo abaixo)

Em 2019 foi criado em Juiz de Fora Troféu Nancy de Carvalho para homenagear personalidades do samba: “Nancy foi a primeira Porta-Estandarte e Porta-Bandeira da cidade, que faleceu em 2017”, explicou o presidente do Instituto Régis. Ele comentou na reportagem da Globo que: “ela era querida nas escolas e nos blocos levando a tradição da Porta-Bandeira e uma forma de manter vivo este legado no nosso município", destacou. Nancy de Carvalho (foto abaixo com a bandeira) era um dos grandes símbolos da força da mulher no samba e foi uma das fundadoras do tradicional Bloco do Beco: “a família dela fundou também a escola de samba Feliz Lembrança, por isso desde criança esteve envolvida com o carnaval na cidade”, explicou Régis. (Foto abaixo na direita por Gustavo Santos/G1)

Em 2019 fez uma homenagem ao ilustre Campeão de Comida di Boteco Abílio, que está comemorando seu meio século comercial de muito sucesso! Com samba de Regis  e melodia de Brunno Bys. (Vídeo abaixo) 

Ainda em 2019 Régis se uniu aos ‘bambas do samba’ Wilson Silva, José Cristovam Batista Medeiros e Paulo Cezar Calichio
e compôs uma de suas emblemáticas marchinhas para o carnaval de 2019. Eles participaram também do ‘VIII Concurso de Marchinhas Mestre Jonas’ com a criação ‘Coisas-de-Minas-Gerais’, na qual os sambistas convidam com muita malícia e mineirice: “Vem prô buteco meu bem, chegou a hora da gente comer um trem...”. Alegria de sobra, união inesquecível de mineiros com cariocas! (Áudio abaixo)

Em 2020 era uma época que no Brasil se falava muito de preconceito e Régis, Batista Coqueiral, Mestre Joãozinho BH e Maurício Terra criaram a marchinha ‘Xô preconceito’: “a gente queria deixar um recado que as pessoas são mesmo diferentes, e isso é normal. Sai pra lá, xô preconceito”. Régis contou que em sua infância: “os pobres vem matando um leão a cada dia para sobreviverem”. Pretos e periféricos lutam contra as injustiças e os preconceitos, pois: “ser negro é muito difícil”. Esse racismo e preconceito virou um refrão bem claro ‘Por que você me olha e me trata desse jeito?’. Eles convidam a todos para ir para as ruas e brincar o carnaval sem medo. (Áudio abaixo)

Em novembro de 2020 Régis foi entrevistado para o documentário ‘Vai Manter a Tradição: O Samba em Juiz de Fora’, produzido pelo Ponto do Samba Juiz de Fora, projeto de extensão da Universidade Federal de Juiz de Fora: “o filme reúne artistas, cantores e compositores e demonstra através de seus depoimentos e canções a força do samba de Juiz de Fora e da Zona da Mata Mineira”, comentou. (Entrevista abaixo)

Muito atualizado sobre o racismo, Régis sempre esteve com o protesto na ponta da língua e nas palmas das mãos. Régis deu um depoimento fantástico ainda em 2020. (Vídeo abaixo)

Para a entrevista ele vestiu seu famoso Eketé colorido e uma camisa com a inscrição ‘Samba não dá voto, mas derruba gigante’. Mesmo sem saber tocar um instrumento, ele entoou o samba abaixo e o acompanhou na palma da mão sua composição própria ‘Seu Doutor’: “no texto falo que na blitz só crioulo é que leva geral e é humilhado e jogado no camburão. Na delegacia o negro entra na borracha e é jogado no xadrez. No Brasil estão querendo implantar a pena de morte, onde só criolo e pobre vai sentar”, ironizou a triste realidade do racismo nacional:
Seu doutor, eu não acho isso legal,
porque numa blitz só crioulo é que leva geral.
Se não estiver em dia com a documentação,
o coitado é humilhado e jogado no camburão.
Na delegacia ele nunca tem vez,
depois de entrar na borracha, é jogado no xadrez.
Olha aí seu doutor! Seu doutor, eu não acho isso legal,
porque numa blitz só criolo que leva geral.
O pobre do negro vai ter que rezar forte,
estão querendo implantar no Brasil a pena de morte.
Meu Deus do céu, aí o bicho vai pegar,
porque na cadeira da morte, só criolo e pobre vai sentar”.
Ainda durante a pandemia Régis fez um vídeo pedindo para o pessoal ficar em casa e se protegerem da COVID-19. (Vídeo abaixo)

Em 2023 Régis ganhou a merecida Medalha Geraldo Pereira no Plenário da Casa Legislativa de Juiz de Fora. A medalha da Câmara Municipal de Juiz de Fora (CMJF) homenageia pessoas físicas e jurídicas que se destacaram na produção, difusão e engrandecimento das manifestações artístico-culturais e sociais na cidade e região: “eu estava entre um dos 20 homenageados de 2023”, sorriu. (Vídeo abaixo)

Em 2024 Regis participou como entrevistado do ‘Matrizes do Samba de Juiz de Fora’, um projeto de ação cultural e pesquisa que visa preservar e difundir a memória do samba e do carnaval de Juiz de Fora por meio das fontes orais. Uma equipe formada por Carlos Fernando Cunha, Luís Roberto Cruz, Natália Ferreira e Luiz Carlos Bossan, numa primeira fase receberam recursos do Programa Murilo Mendes, Edital Quilombagens 2022, da FUNALFA / Prefeitura Municipal de Juiz de Fora. (Vídeo abaixo)

Em 2024 Régis conseguiu também o apoio financeiro da Funalfa pela Lei Paulo Gustavo para mais um de seus projetosO Carnaval e as Escolas de Samba de Juiz de Fora: Patrimônio Cultural, Memória e oralidade’. Ele explicou que:a gente estava preocupado que a história das escolas de samba na cidade não tem documentação. No projeto, com o professor da UFJF e músico Carlos Fernando Cunha, vamos sair para entrevistar os segmentos para deixar isso para as futuras gerações”.
O incrível legado de Régis José de Oliveira é de um cidadão criativo, muito ligado à família, que através de seus sambas expressa toda sua vocação musical, sua sensibilidade social, cultural e política.
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FONTE/CRÉDITOS: Régis da Vila
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Alexandre Müller Hill Maestrini

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Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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