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Sabado, 15 de Junho de 2024
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Geral

Sandra Silva – Unindo Mulheres contra o Racismo

Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora #029

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
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Sandra Silva – Unindo Mulheres contra o Racismo
Sandra Maria Silva
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A honestidade intelectual e a empatia são alguns dos primeiros passos para dar visibilidade para aqueles que a sociedade sempre tentou tornar invisíveis. Assim nasceu a série Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora. Você já sentou com uma pessoa negra para ouvir a história que ela ou ele têm para contar? Este é o #NossasRiquezasPretasJF, um projeto antirracista do Instituto Autobahn que tem como objetivo destacar os expoentes negros do município de Juiz de Fora e legar exemplos positivos de sucesso de pessoas pretas para as futuras gerações. Iniciado em 2023 com o formato de coluna na RCWTV, a reportagem #001 foi sobre Carina Dantas, a #002 Antônio Carlos, a #003 Geraldeli Rofino, a #004 Sérgio Félix, a #005 Fernando Eliotério, a #006 Maurício Oliveira, a #007 Ademir Fernandes, a #008 Gilmara Mariosa, a #009 Batista Coqueiral, a #010 Cátia Rosa, a #011 Eliane Moreira, a #012 Antônio Hora, a #013 Ana Torquato, a #014 Alessandra Benony, a #015 Sil Andrade, a #016 Joubertt Telles, a #017 Edinho Negresco, a #018 Denilson Bento, a #019 Digo Alves, a #020 Suely Gervásio, a #021 Tânia Black, a #022 Jucelio Maria, a #023 Robson Marques, a #024 Lucimar Brasil, a #025 Dagna Costa, a #026 Gilmara Santos, a #027 Jorge Silva, a #028 Jorge Júnior e agora é a vez de Sandra Silva.

Por Alexandre Müller Hill Maestrini

Sandra Maria Silva nasceu no Bairro Alto dos Passos em Juiz de Fora – MG no dia 17.12.1944. Ela veio ao mundo num ano conturbado do final da Segunda Guerra Mundial, que só acabou em 1945. A simpática Sandra começou a entrevista afirmando que seria impossível falar dela mesma antes de falar de sua ancestralidade, e que: “eu considero minha mãe a base de tudo que eu tenho hoje na vida. Esta vai ser uma reportagem com poucas fotos, pois: “minha família nunca teve dinheiro para fotografias”. Para ela falar de ancestrais foi muito difícil, mas na sua memória está a tradição oral que os antepassados dela pertenciam a uma tribo africana e que a avó materna Maria Eulália Custódia era filha de estupro do fazendeiro: “minha mãe contava que minha bisavó materna era escravizada”, assim chegou até Sandra que a avó materna dela: “era uma mulata clarinha descendente de portugueses, alta com uns 1,70 de altura, cabelos lisos e muito bonita”. Sandra contou que é filha de pai analfabeto Eygino Maria de Oliveira e mãe semianalfabeta Regina Silva de Oliveira, e que ela cresceu em uma família muito simplória e humildade. Abaixo as únicas fotos de família dos pais Regina e Eygino que sobreviveram ao apagamento, mas guardadas com muito carinho por Sandra.

Seus pais viveram em uma Juiz de Fora extremamente racista, conservadora e preconceituosa: “mas eu via que na pobreza de meus pais existia uma incrível riqueza de valores”. Quando Sandra tinha 5 anos, em 1949 a família se mudou para a comunidade do Bairro Ipiranga, onde mora até hoje: “vivíamos com muitas dificuldades, num casebre com luz, mas sem banheiro. O bairro era, na verdade, um arraial”, contou. Ela se lembra que: “meus pais eram pessoas além do tempo, compreensivos, bem-vistos na comunidade, e se destacavam no meio do povo onde eles conviviam”. Perto da maioria dos negros subalternos, o pai de Sandra era uma exceção: “meu pai não bebia, não fumava e como condutor de bonde trabalhava com carteira assinada pelo Governo do Estado de Minas Gerais”. Como o pai Eygino ficava o dia inteiro fora trabalhando e só voltava de noite: “fomos criados e influenciados pela minha mãe”. Assim que aposentou, o pai voltou para a lavoura: “ele era um homem de roça e gostava mesmo era de mexer na terra, cultivar as plantações e lidar com as criações”, foi assim que os pais criaram 5 filhos com honestidade. O pai de Sandra: “estava feliz na terra e fez isso até o fim de sua vida, com muito amor”, lembrou. Mas um fato curioso que Sandra contou foi: "na certidão de óbito de meu pai estranhamente não constam os nomes dos meus avós paternos", mas eles estão no coração dos familiares, o avô José Timotheu de Oliveira e Maria Honorata de Oliveira. Os nomes de seu bisavô paterno e esposa, Sandra só foi conseguir com uma prima: Quirino Marques de Oliveira e Maria Philomena Mendes.
A mãe de Sandra, Regina nasceu em Natividade de Carangola – RJ: “ela ficou órfã de mãe aos 7 anos de idade e naquela época não existia isso de adoção, os homens que ficavam viúvos, no caso meu avô materno João Ventura da Silva, distribuíam os filhos”, assim a pequena Regina foi para a casa uma família branca e rica, onde ficou por 32 anos. Sandra contou que: “porém a minha mãe era uma pessoa muito avançada para a época”, lembrou-se da mãe contando que um belo dia a pequena Regina, estava em casa e a “madame branca” recebeu uma visita e Regina foi servir uma água para os visitantes. No que ela ouviu a madame falar que: “a Regina é da família”, a menina retrucou: “eu sou da família uma merda, eu só vou na sala pra servir e varrer, e não posso comer maça”.
Sandra até hoje se inspira nessa fala espetacular da mãe e comentou que: “esta pequena fala de minha mãe direcionou toda a minha vida”. Até hoje Sandra se admira da coragem de sua mãe: “uma criança de apenas 7 anos que já tinha consciência de que ali não era a casa dela, não era a família dela e que ela uma negra estava ali naquela família branca para servir”. Sua mãe sempre reconheceu o lugar dela e passou isso para os filhos: “uma atitude de tirar o chapéu”, lembrou Sandra, “um raciocínio muito rápido”. Com oito anos a madame colocou a “negrinha” na escola e Regina pode estudar até a segunda série: “a madame tirou minha mãe só para as próprias filhas dela estudarem e a negrinha Regina tinha que servir e fazer os serviços da casa”. Mesmo depois de sair dessa família a mãe se Sandra ainda manteve relações de amizade com os familiares e um dos filhos tinha uma esposa que se tornou nossa "fada madrinha".
Regina viveu 32 anos servindo a essa família e com os seus 39 anos de idade, saiu da família quando eles se mudaram para Juiz de Fora: “minha mãe era amante da música, entendia de ópera, gostava de escutar o rádio, adorava ir ao cinema”, lembrou Sandra. Regina adorava passar essa cultura para os filhos e netos sobre o cinema mudo, histórias de Charlie Chaplin, das guerras, de Marlene Dietrich, e muito mais prosas. Hoje Sandra sente muitas saudades desse tempo de contação de histórias: “eu aprendi e gosto de conversar é olho no olho, eu sonhava junto com ela, o cérebro funcionava a todo vapor, a gente imaginava as coisas, aprendia a navegar nas ondas do rádio e nas ideias da minha mãe”. Sandra se lembra de ter ido para a escola pelas mãos da mãe, de terem sido vacinados pela insistência da mãe, etc: “foi minha mãe quem nos ofereceu tudo que tínhamos por direito e por lei”, contou Sandra com admiração. Até hoje Sandra não sabe como foi possível uma negrinha sem estudos – como era a mãe dela – ter tido tanta consciência e ter captado tudo aquilo para passar o melhor para as filhas.
Sandra acredita que: “esse saber minha mãe só pode ter trazido consigo mesmo através da consciência de sua ancestralidade e de outras vidas passadas”. Foi a mãe quem proporcionou que os filhos fossem crescendo através da vida dela: “podemos nos considerar uma família abençoada”, declarou Sandra. Os filhos sempre admiraram os valores vividos dentro de casa: “minha mãe era muito rígida de acordo com a época e meus pais nunca usaram de violência, era sempre na base da conversa”, lembrou. Em casa não era permitido falar com voz alta e aprenderam que um tinha que esperar o outro acabar de falar e escutar o outro até o fim: “para minha mãe todo mundo falando ao mesmo tempo era considerado falta de educação”.
Na época de criança de Sandra não existiam escolas municipais. Aos sete anos, em 1951, ela foi com os irmãos para a Escola Estadual Grupos Centrais no centro da cidade, no famoso palacete Santa Mafalda e levou uma autoestima de berço: “em casa minha mãe sempre com muito carinho sempre falava pra gente que éramos bonitinhos, nos elogiava como filhos maravilhosos e muito amados”. Sua mãe nunca falava a palavra racismo: “ela somente dizia o povo preto e pobre”. De sua mãe Regina, Sandra recebeu a tradição de que: “a educação primaria acontece dentro do útero da mãe, é quando umbilicalmente ela passa toda a educação e legado para o bebe”. A mãe dela ensinou como é importante emanar pensamentos positivos e carinhos para a criança ainda na barriga: “quem é mãe sabe que quando nasce o filho absorveu já toda a energia da mãe”. Regina ensinou e deixou de herança para as filhas que: “assim que nasce começa a educação secundária, aprender a falar, se comunicar, etc”, só depois vem a educação formal como conhecemos hoje nas escolas. Sandra relatou que: “na verdade quando cheguei na escola eu já vinha estudando há anos”.
Como eram muitos alunos, durante um tempo Sandra passou a estudar no casarão da Casa D’Italia, onde funcionou por algum tempo a Escola Estadual Duque de Caxias, que depois passou para o prédio definitivo em frente a Santa Casa de Misericórdia: “eu fui um das primeiras estudantes da escola e sentíamos, mas não sabíamos que era segregação”.
Sandra se lembra que na hora do recreio as crianças brancas brincavam de um lado e as negras de outro do pátio central. Ela se lembra que: “todos os negros eram da caixa escolar e ganhávamos a merenda, café com leite e pão com manteiga”. Ela contou que os brancos e ricos gostavam de fazer invejas nos pretos: “as meninas brancas gostavam de trazer os guardanapos limpinhos e sentavam-se no chão demonstrativamente para mostrar o lanche chique com pães de forma para nós, que éramos chamados de negrinhos e negrinhas”. Sandra se lembra dos gestos que as crianças brancas faziam para eles no recreio: “dentro de sala de aula o silêncio e o respeito aos professores era sagrado, não podiam nem conversar”. Fora da sala de aula o racismo como hoje é conhecido corria solto: “éramos chamados de macacos, negrinhas, descascavam bananas olhando para os pretos e isso nos indignava”, mas ela contou que eles tinham suas estratégias também. Eles desenvolveram uma conversa em códigos de olhos, significando que eles iriam depois, fora da escola, pegar os racistas: “passei cinco anos na escola batendo nos brancos junto com meus primos”, é claro que no outro dia lá estavam eles na secretaria da escola sendo punidos, mas a vice diretora era uma mulher fantástica. Sandra contou que eles nunca levaram desaforos para casa e que a vice diretora nunca perguntava por que eles bateram nos meninos brancos: “ela nos dizia para não fazer mais isso não e na outra vez falar com ela antes”.
Mas a menina Sandra sobreviveu ao primeiro grau e em 1956 quando se formou, sua madrinha muito carinhosa perguntou: “Sandra você quer ir estudar no Colégio Santos Anjos ou no Stella Matutina? Mas como eu tinha 12 anos e era muito acanhada, é claro que recusei”. A mãe de Sandra estava por perto e escutou o que a menina disse sobre não querer estudar: “lembro que minha mãe me perguntou o porquê. Eu simplesmente disse que não queria”. E a resposta da menina foi clara: “mãe, não se esqueça que preto não estuda nessas escolas. Minha mãe se calou”. Sandra sabia que só existia uma negra no Colégio Stella Matutina e “ela sofria como o palhaço da vez”, mesmo sendo adotiva de um casal branco já de idade, destoava na cor da pele. Sandra já entendia que para os pretos em Juiz de Fora só sobravam os trabalhos como empregadas domésticas e pedreiro: “eu sentia muita revolta de não poder andar na parte alta da Rua Halfeld”. Os negros não entravam nessa área do centro com medo de até serem linchados: “a segregação era muito forte na cidade”. Para eles de nada adiantava uma avenida Rio Branco lindíssima com casarões maravilhosos se eles não se sentiam parte da sociedade: “a maioria dos negros podiam até trabalhar em fábricas, mas no comércio eram boicotados”, isso Sandra traz até hoje no o seu coração, uma cidade preconceituosa com um povo muito conservador. Passado o choque, a mãe perguntou a Sandra o que ela queria fazer: “eu respondi que queria aprender a bordar e assim me tornei bordadeira profissional”, contou com orgulho nos olhos.
A mãe Regina sempre lamentou não ter tido uma educação formal e passou para os filhos a vontade de estudar: “minha referência sempre foi e sempre será minha mãe”, declarou Sandra com amor. Na casa deles era o constante diálogo a base da convivência: “foi a partir da minha mãe que eu sei hoje quem eu sou, onde estou, de onde eu vim e entendi a vida”. Na época sua mãe falava que na comunidade do Ipiranga eles viviam no Comunismo de Jesus: “até hoje não entendo de onde minha mãe tirava essas ideias tendo tão pouca escolaridade”, confessou admirada. No Bairro Ipiranga era um ajudando o outro e Sandra se admirava com aquilo tudo: “meu pai criava porco e ao matar o porco era para dividir com os vizinhos”, lembrou do exemplo e atitude do pai. Aos 15 anos Sandra retornou aos estudos e foi fazer a escola normal: "mas este nunca foi o meu sonho". Na foto abaixo Sandra no lado direito com a irmã mais velha Zilda Maria da Silva ao meio e a cunhada Efigenia Ângelo Barreto das Silva no lado esquerdo.


Sem trabalho para os negros na cidade, não poderia ser diferente, em 1969 com 25 anos Sandra foi tentar a vida no Rio de Janeiro: “existia um mantra na nossa família que ninguém nunca mais trabalharia em casa de outra família para servir”. A mãe Regina não admitia que as filhas passassem pelas humilhações que ela tinha passado, já o pai apoiava a esposa e dizia que: “mias fiias não vai trabaiá pra branco ninhum”. Um irmão Reginaldo Maria da Silva foi trabalhar nos Correios, outro irmão Jairo Maria da Silva foi contínuo do escritório, a irmã mais velha Zilda Maria da Silva trabalhou em fábrica e a irmã mais nova Ana Maria da Silva. Mas como era o auge da ditadura militar, Sandra no Rio precisou se virar e acabou trabalhando como doméstica: “foi minha primeira experiência como empregada doméstica e eu senti na pele o preconceito, o racismo e o horror de ser escrava sem chibata”. Não poderia aguentar mais que três anos nessa condição de humilhação e foi trabalhar em uma indústria, onde permaneceu: “no Rio tive minha filha em 1980”, assim ela foi se virando por doze anos como podia até 1981.

Ela se lembrou que em 1970, com 26 anos de idade, veio passear em Juiz de Fora e pintou o quadro acima: “pintei meu pai com seu primeiro neto Mestre Neném no colo”. Hoje ele está com 53 anos, mas neste dia do batizado meu Pai profetizou com sua humildade e sabedoria: “meu neto vai ser um Dotori”, e de fato Neném se formou em direito e filosofia. Incrível evolução confessou Sandra: “meu pai um analfabeto e só duas gerações depois o neto se tornou um Doutor”. Nesse dia ele estava sentado no nosso quintal como sempre estava, comentou Sandra: “com aquela calça rasgada e com remendos como era normal na época”. Ela sentiu saudades e orgulho ao lembrar de um pai que nem sabia conversar direito, chamava as pessoas com formação de “Dotori” em sua linguagem particular, um homem simples e sempre que podia estava descalço.
Um caso curioso, contou Sandra: “o local onde é hoje o Parque da Lajinha abrigava uma antiga favela, dentro do que antes foi a antiga Fazenda da Lajinha. Quando o prefeito Francisco Antônio de Melo Reis deixou o governo em 1982 resolveu desapropriar o pessoal da favelinha e levou o pessoal para a Vila da Prata. O objetivo do prefeito era passar por ali uma avenida que interligasse o centro da cidade de Juiz de Fora até a atual rodovia BR-040. Não satisfeitos, em dezembro, um grupo de jovens da Paróquia de Santa Luzia e Ipiranga ocuparam o local, junto com movimentos comunitários: “eles ficaram junto com aquelas famílias que iriam ser despejadas para a construção de uma grande área de lazer para a elite econômica da cidade”, o pessoal veio todo para o morro da favela. Ironia do destino a avenida Melo Reis passa hoje na frente do Parque da Lajinha criado por decreto em 1982.
Em 1981 Sandra voltou para Juiz de Fora para se re-unir à sua única filha que já estava morando na cidade com os avós: “este foi o ano que marcou o iniciou de minha carreira de militante social”. Sandra foi contratada para trabalhar no novo posto médico do bairro contratada como servente e foi efetivada: “com a inauguração do posto médico e com aquele povo lá, todo mundo usufruía. No ano seguinte, em 1982, Sandra entrou para a Prefeitura de Juiz de Fora no cargo de serviços gerais na área de saude. Sandra contribuiu para a formação do sindicato das serventes de enfermagem no hospital universitário: “esse foi meu primeiro momento da luta coletiva”. Ela lutou para que as 90% das mulheres que naquela ocasião eram negras e sofriam um grave desvio de função, não ficassem sobrecarregadas. Sandra contou que quando elas foram reclamar com o prefeito Melo Reis em 1983, obtiveram a resposta: “servente de pedreiro, servente de obra, servente de enfermagem é tudo igual”, desconsiderando suas reivindicações. Sandra tinha um nobre objetivo: “queria melhorar minha categoria nas lutas trabalhistas, formação do nosso sindicato SINSERPRO”, o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde de Juiz de Fora. Em 1984 entrou para o curso de Auxiliar de Enfermagem da Santa Casa em dezembro de 1989 Sandra conseguiu com muito suor o seu diploma de Auxiliar de Enfermagem na Escola de Auxiliar de Enfermagem da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora. (Foto abaixo)

Em 1989 Sandra trabalhava na recepção do Pronto Socorro e viu sua comunidade estava passando por uma fase de muita violência: “eram muitos jovens homens negros que eu vi nascer e crescer”, e ela decidiu não cruzar os braços. Como a Polícia Militar fazia plantão dentro do Pronto Socorro, Sandra em conversas com o Cabo PM Rubino: “relarei a ele a situação do bairro, onde tudo estava terminando em brigas, drogas, violência e morte, mas sem o olhar carinhoso do poder público”. Sandra se entristecia e bolou um projeto para trabalhar os meninos e os jovens negros: “mas eu sabia que o povo preto e periférico é um campo minado, é preciso saber chegar em cada um e prestar atenção onde andamos”. Conversou com o cabo que os meninos estavam sem instrução formal, vivendo em famílias desestruturadas: “expliquei que a gente precisaria chegar no ponto fraco deles, que eram as Folias de Reis, o Carnaval, música, festas, ela imaginava que através do esporte de defesa pessoal. Seu plano foi criar o “Projeto Lugar ao Sol” e oferecer aulas na quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Rosas de Ouro, mas dando a eles a responsabilidade de cuidar do bairro e ficariam responsáveis para impedir a violência. Com o apoio do cabo e agora com o sinal verde do Comandante da PM, Sandra foi aos jovens e propôs a ideia. Como Sandra já estava no Movimento Negro Unificado de Juiz de Fora, Sandra participou de um Seminário em Salvador e lá recebeu apoio de um grupo de São Paulo e se propôs a promover um show dos Racionais MC’s, que tinham surgido em 1988: “eram os negros Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay que estavam apoiando projetos como esse”. Mas infelizmente uma pessoa do próprio grupo de Juiz de Fora roubou a ideia e decepcionou todo os participantes do projeto: “traída pela própria comunidade o meu projeto já nasceu morto”, confessou com tristeza.
Em 2000 Sandra ainda trabalhava no posto médico como auxiliar de enfermagem: “eu me lembro que era a terceira gestão do Prefeito Tarcisio Delgado e o povo periférico ganhou nessa época mais visibilidade e apoio”. Sandra se aposentou por invalidez em 2000, com apenas 56 anos, mas na prática, intensificou ainda mais sua vida voltada para o social, como sua mãe tinha lhe passado o exemplo. Agora com disponibilidade de tempo, nesse ano Sandra fundou o Grupo de Mulheres da Periferia: “inspirei-me nos ensinamentos de meus pais”. Ela liderou trabalhos de alavancar a autoestima, a cidadania e a política da boa vizinhança: “na verdade um projeto baseado em tudo que eu aprendi com minha mãe e na comunidade quando criança”. Sandra transportou suas experiências para o ano de 2001 e apresentou ao grupo inicial de doze mulheres periféricas: “ensinávamos a elas a trabalharem com retalhos, bordar, etc. Ensinávamos a fazerem pinturas em panos de prato e colcha de retalhos fuxico, que chegaram até a serem exportadas, impulsionando a geração de renda”. Ela trouxe para o século XXI o comunismo de Jesus desenvolvido por sua mãe, e confessa que finalmente entendeu: “infelizmente a palavra comunismo ficou como sinônimo de coisa ruim, mas o que vivemos foi uma união e compartilhamento”. Iniciou esse trabalho já adulta, depois de uma experiência no Rio de Janeiro.
Percebendo que o povo negro e periférico estava cada vez mais encurralado nas favelas, Sandra sentia que as criaturas de Deus precisavam de muito apoio assim como ela: “vi que a minha necessidade era igual à de todos os filhos de Jesus empobrecidos e eu tinha a obrigação de trabalhar”. Na verdade, contou Sandra, o início de tudo foi quando um jovem negro e periférico foi assassinado na vizinhança: “fiquei arrasada e fui lá na casa da mãe dele, Dona Francisca, dar um abraço nela”. Nos relatos da comunidade o jovem, que já tinha sido encarcerado diversas vezes, já estava contido pela polícia, mas o policial deu um tiro e disse: “menos um negro para perturbar”, contou Sandra indignada. Mas na verdade para ela era uma humilhação indireta: “sofri naquele momento o apagamento de um irmão de cor e um irmão em Cristo”, comentou triste. Disposta a arregaçar as mangas e fazer algo, Sandra chegou lá sentindo uma dor inacreditável como se fosse sua própria filha morrendo. Ela viu que a mãe ainda estava aquela vida miserável, fogãozinho com quatro tijolos no chão: “eu cheguei e entrei, ela ficou meio espantadinha pois era analfabeta”, mas com seu jeitinho Sandra falou que veio só dar um abraço nela e fazer uma proposta para ela. Dona Francisca encolhida de cabisbaixa, agora sem o filho, ficava só escutando Sandra: “eu disse que nós temos que fazer alguma coisa e que nós podemos ajudar essas mulheres”. Ao sair Sandra na verdade agradeceu a Deus, porque o que ele lhe tinha mandado fazer eu nem sabia se teria dado resultado”.
O objetivo de Sandra tinha sido fazer o que sua mãe lhe ensinara, isto é, trabalhar a autoestima daquela mulher: “percebi naquela expressão de Dona Francisca que ela tinha dado uma levantada”. Era o sinal positivo que Sandra precisava para tirar do plano das ideias seu projeto do Grupo do Mulheres da Periferia do Bairro de Santa Efigênia e Ipiranga: “passei pelas casas intimando várias mulheres para se juntarem ao projeto e formarem um grupo para trocas de experiências e conversas. No dia marcado, Dona Francisca levou 4 colheres de café que a Sandra tinha pedido: “esse pequeno gesto foi suficiente para alavancar a autoestima dela, que confessou à Sandra que se ela podia levar 4 colheres de café ela não era tão pobre assim”. Naquele momento o pequeno gesto transformou a feição da mãe em sofrimento para uma felicidade e confirmou para Sandra que: “guiada por Jesus, eu realmente estava trabalhando a autoestima de uma mulher”. Inauguraram com uma primeira reunião no dia 8 de março, dia internacional da mulher: “na primeira foram 50 mulheres, na segunda 120 mulheres, e foi só aumentando”. Naquele dia Sandra conseguiu reunir várias mulheres periféricas no espaço cedido pela igreja: “foi uma delegada de polícia e outras mulheres de diversos grupos da cidade e conselhos tutelares”. O grupo funcionou com sucesso durante 9 anos ininterruptos sob a liderança de Sandra até 2010: “eu sempre fui apaixonada, desde criança com o viver em comum, um ajudando o outro e ver todas as pessoas mesmo muito pobres todos vivendo em pé de igualdade”.
Sandra mostrou que o “povo preto vai sim vencer o racismo”, mas assim que os negros trabalharem sua autoestima: “precisamos passar para o pretos a importância de ter uma postura moral, não andar curvado e não achar que existam lugarem em que eles não podem ir”. Sandra com seu Comunismo de Jesus explica que os negros não precisam ser capachos de brancos, e devem aprender a não abaixar a cabeça: “sempre falo assim, pense que você pode e tem direito a tudo que você quiser”. Com sabedoria de quem vai completar 80 anos Sandra mostrou que a cor da pele não é a identidade da pessoa e relatou que quando os brancos percebem a postura dos negros: “eles contam até dez para ter alguma atitude racista”. Sandra aconselha que o povo preto estude e aprenda a ter consciência o que é o racismo e o preconceito: “o povo preto tem a obrigação de aprender a diferenciar os dois”. Ela contou que infelizmente já passou por várias situações dessas, como, por exemplo, em um natal ela estava passeando e fazendo compras com as duas irmas na loja da Havan em Juiz de Fora: “percebemos que um segurança estava nos seguindo e eu simplesmente parei e ficamos encarando o segurança; que despistou e saiu”. Com isso ela mostrou que não é preciso fazer alarde, brigar, xingar ou gritar: “os negros precisam aprender a distinguir entre racismo e preconceito, pois as vezes o funcionário está só cumprindo ordens e não tem a consciência”.
Na foto acima Sandra à esquerda com diversas mulheres do movimento negro, entre elas Giane Elisa Sales de Almeida com a mãe e na frente Cirene Candanda. Em 2006 morreu a amiga Cirene Izidorio Candanda, natural de Torreões não se calou durante o período de opressão, ela foi militante em defesa da saúde com qualidade para todos e no respeito às diferenças. Combateu o racismo, a discriminação de gênero, raça e classe: “ela apostou nos adolescentes, contribuindo decisivamente para a criação do CERNE e do Curso Pré-Vestibular para Negros e Carentes, que recebeu o seu nome”.
Em 2005 Sandra participou da fundação da Associação de Mulheres Chica da Silva, uma entidade sem fins lucrativos com os objetivos de lutar contra o racismo em todas as suas formas de manifestação, se empenhar na preservação e desenvolvimento da cultura negra, defender os direitos culturais da população negra, apoiar os povos negros e oprimidos de todo mundo, estimular a participação política da mulher negra na definição do destino do país, lutar pelo exercício da cidadania negra em todos os setores da vida social do país e defender uma sociedade justa, fraterna, sem exploração de classe e de raça baseada nas desigualdades entre mulheres e homens. Sandra foi escolhida a primeira vice-presidente e Zelia Lucia Lima como presidente. Com um belo trabalho na Associação de Mulheres Chica da Silva e reconhecimento, ainda em 2006 Sandra foi uma das cinco mulheres pretas escolhidas para participar do Seminário de Economia Solidária e Emancipação das Mulheres em Brasília promovido pelo Governo Federal no Projeto de Promoção do Desenvolvimento Local e Economia Solidária: “a Lei 10.683 foi fruto da proposição da sociedade civil e da decisão do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, mas chegando em Juiz de Fora meu grupo foi frustrado pela burocracia da UFJF e eu fui exonerada por puro racismo das estruturas locais”.
Em 2007, durante o governo do prefeito Alberto Bejani, Sandra Silva participou ativamente da 1ª Conferência Municipal de Políticas para as Mulheres com o objetivo de analisar e repactuar os princípios e diretrizes aprovados na 1ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Os temas fora I – análise da realidade brasileira: social, econômica, política, cultural e os desafios para a construção da igualdade na perspectiva da implementação do Plano Nacional de Políticas paras a Mulheres; II – avaliação das ações e políticas propostas no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, sua execução e impacto; e III – participação das mulheres nos espaços de poder. Na coordenação geral estava Regina da Conceição Pereira, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM); na vice coordenação a esposa do prefeito Vanessa Loçasso Bejani e na subcomissão temática estavam Sandra Silva, Alexandra Rossi de Oliveira, Maria Adelina Braz e Nadir Helena Rocha Goula.
Em 2010 a filha de Sandra que cursava física na UFJF, decidiu tentar concurso para polícia militar: “fui pega de surpresa mas era o desejo dela”. Como a filha passou no concurso, foi fazer o curso em Belo Horizonte: “tempos depois tive a feliz notícia que seria avó e fui para a capital mineira ajudar a filha com bebê”. Nove meses depois com a família estabilizada Sandra voltou para Juiz de Fora e em seguida a filha e o marido conseguiram transferência para Juiz de Fora e trouxeram a neta para pertinho da vovó.
Em 2013 Sandra recebeu a Medalha Nelson Silva como uma líder comunitária na essência, na foto acima Sandra veste um belo vestido estampado. Sua trajetória premiada incluiu forte liderança à frente da Sociedade Pró Melhoramentos do Bairro Santa Efigênia, a criação do projeto Ensinar e Aprender, voltado para o artesanato. Sandra estava envolvida no Núcleo da Idosa Amor a Vida, que se propõe a incentivar a terceira idade a se movimentar fisicamente e a fortalecer laços afetivos. Na ocasião Sandra contou de sua experiência que: “Juiz de Fora precisa ser melhor analisada por conta da sua formação e uma população que atingiu em determinado período da história a composição de 73% de escravizados”. Ela lembrou também que a formação de movimentos sociais negros surge no município em conjunto com movimentos comunitários, de trabalhadores e de trabalhos pastorais na luta por direitos. Veja no vídeo abaixo a cerimônia da Medalha Nelson Silva edição 2013.

Em 2014 Sandra participou do projeto JF em Pacto Pela Paz, uma série de palestras que buscou aliar estratégias e metas que tivessem efeitos multiplicadores da cultura da paz. O evento foi promovido pela Secretaria de Governo (SG) da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), através da Casa dos Conselhos e com a participação de diversas entidades como o Centro de Prevenção à Criminalidade (Ceapa), a Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica de Juiz de Fora (Revid), o Movimento Gay de Minas (MGM), o Movimento Negro Unificado (MNU), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), as Sociedades Pró-melhoramentos dos Bairros Floresta e Jardim do Sol e a Associação Mulheres Negras Chica da Silva, representada por Sandra com a palestra na Casa dos Conselhos com o tema “Somos todos Iguais”, lembrou.

Na foto acima Sandra participando do Movimento Mulheres em Luta (MML/JF), que organiza mulheres trabalhadoras, de todas as idades e profissões, e acredita que só a mobilização poderá transformar de fato nossa sociedade: “desde que surgimos em 2008 somos independentes dos governos e patrões. Optamos pelo feminismo classista para nós a luta das trabalhadoras é parte da luta de todos os explorados e oprimidos, uma alternativa para aquelas mulheres que não querem amarras para lutar”, lembrou dos propósitos de apoiar o MML. Em 2015 Sandra teve o privilégio de participar da criação do Dia Municipal da Mulher Negra Cirene Candanda fruto de um projeto de lei que instituiu a data a ser comemorada anualmente em 25 de julho, mesmo dia em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A homenagem a Cirene Izidorio Candanda, líder comunitária do Bairro Ipiranga e do Movimento Negro com trabalho reconhecido em Juiz de Fora, foi sugerida pela Associação de Mulheres Negras Chica da Silva, liderada por Sandra. Vídeo abaixo imperdível sobre Cirene Candanda.

Em 2017 Sandra participou representando a Associação Chica da Silva de Juiz de Fora em Cataguases – MG do 11° Fórum pela Promoção da Igualdade Racial – FOPPIR, organizado pelo Fórum Mineiro de Entidades Negras – FOMENE. O evento de articulação voltado para a inserção social das etnias, sobretudo, a etnia negra, buscando formar pessoas para o exercício da cidadania em sua plenitude. A partir do despertar da consciência crítica e da luta organizada, propõe formulação e implementação de políticas públicas, voltadas, principalmente para a promoção da igualdade racial. O tema escolhido foi “Educação e Saberes Populares”. Na foto abaixo segurando a bandeira do MNU na ponta da direita, a participativa Sandra durante o 20. Feijão de Ogum edição 2023 no Parque Halfeld.
No ano de 2024 Sandra completará 80 anos de vida e tenho certeza que não sairá da luta pelas mulheres e pelos negros. Sandra não acredita em racismo estrutural, para ela tudo é racismo em qualquer lugar do planeta. Ela sempre escutou e sentiu na pele como o povo preto vem sendo humilhado há séculos e afirma com autoridade que os negros não são culpados de terem sido tratados como animais cativos sem almas. Na sua experiência os negros sofreram na verdade um sequestro e uma lavagem cerebral que até hoje infiltrou na corrente sanguínea de muitos negros que ainda hoje aceitam: “me entristece ver ainda hoje em 2023 alguns irmão de cor em estado primitivo com carência de conversa e dialogo”.
Na foto acima, Sandra em novembro de 2023 em seu ateliê no Bairro Ipiranga, onde ela se exercita na arte do artesanato, ensino dessa atividade para as mulheres negras do bairro e: “adoro receber os amigos para um bate-papo com um delicioso cafezinho ao meio de minhas roupas recicladas de jeans antigos, bolsas, jaquetas, toalhas e outras preciosidades”, e continuou que: “é aqui que me sinto em casa e minha paixão e missão depois de aposentada”, e tudo isso ainda importantíssimo para a preservação do meio ambiente. Sandra finalizou dando a receita para as futuras gerações de negros e brancos: “para mudar precisaremos nos unir, nos darmos as mãos em uma corrente e puxarmos para frente os irmão de Cristo que ficaram para trás”. Sandra, está na hora de escrever aquele tão sonhado livro!
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FONTE/CRÉDITOS: Sandra Maria Silva
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Alexandre Müller Hill Maestrini

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Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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