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Sabado, 15 de Junho de 2024
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Digo Alves – Modelo Profissional

Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora #019

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
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Digo Alves – Modelo Profissional
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Você já sentou com uma pessoa negra para ouvir a história que ela/ele têm para contar? Este projeto tem como objetivo destacar os expoentes negros do município de Juiz de Fora e legar exemplos positivos de sucesso de pessoas pretas para as futuras gerações. A reportagem #001 foi sobre Carina Dantas, a #002 foi com Antônio Carlos, a #003 com Geraldeli Rofino, a #004 com Sérgio Félix, a #005 com Fernando Eliotério, a #006 com Maurício Oliveira, a #007 com Ademir Fernandes, a #008 com Gilmara Mariosa, a #009 com Batista Coqueiral, a #010 com Cátia Rosa, a #011 com Eliane Moreira, a #012 com Antônio Carlos da Hora, a #013 com Ana Paula Torquato, a #014 com Alessandra Benony, a #015 com Sil Andrade, a #016 com Joubertt Telles, a #017 com Edinho Negresco, a #018 com Denilson Bento, agora é a vez de #019 Digo Alves.

Por Alexandre Müller Hill Maestrini

Para ser uma das riquezas pretas de Juiz de Fora é preciso ter caráter e ser um modelo e exemplo para futuras gerações. Mesmo com sua pouca idade o caçula da família Damasceno, atualmente com 21 anos, foi batizado de Diego Alves Teixeira Damasceno, nasceu na zona norte de Juiz de Fora – MG, no dia 03.12.2001 numa família com a irmã Dara e o irmão Diógenes Júnior (foto abaixo centro com a mãe e pai). A mãe Luciana Marilia Damasceno estudou somente até a quarta série primária, não completando o ensino fundamental e o pai Diógenes Alves Teixeira Damasceno, um militar do exército, pai presente e que não media esforços para ajudar os filhos quando o assunto era estudos e qualificá-los para a vida. O fato de sua mãe não ter o estudo completo não era justificativa: “ela era presente, uma verdadeira leoa”, trabalhou como salgadeira, faxineira, costureira, em empresas sem se descuidar dos cuidados em casa e zelando pela educação dos filhos.
Diego ao ser entrevistado se mostrou surpreso com minha pergunta sobre seus ancestrais negros, pois nunca se preocupou em conhecer seus antepassados, mas logo foi buscar contato com familiares e descobriu que um bisavô tinha origem italiana, mas dentro da família nunca se conversou sobre esse assunto: “estou ligando para meus parentes, para minha avó e buscando saber mais”. Suas influências, ou melhor referências, foram figuras representativas de força, persistência, amor, senso social e coragem como seu pai e sua mãe, além da avó paterna Cleusa Teixeira e da avó materna Maria do Carmo (foto abaixo direita). Mas confessou que a sua influência primordial em todos os seus passos foi sua fé: “na minha família vamos do axé ao amém”. O fato de Diego não saber quase nada de seus antepassados negros é bem característico do apagamento proposital secular, uma tática dos brancos para desunir os negros e tentar impedir a formação de uma identidade através da genealogia: "nem por isso os negros deixaram de se unir através de sua ancestralidade, uma ligação até maior que a genealogia cartorial".

Em sua infância (foto acima esquerda), Diego se lembra de seus irmãos sempre rindo dele: “por eu ser uma criança muito alegre e é, claro, afeminada”. Essas características ele traz consigo, mas isso nunca foi problema, pois os irmãos sempre tiveram uma ótima relação: “a gente ria muito um dos outros, discutíamos, brigávamos e fazíamos as pazes” e a família se mantinha unida. Para ele o preconceito começa quando as pessoas o perguntam: “por que você se considera bissexual?”. Ele gostaria que as pessoas olhassem para ele como ele é e não ficassem especulando como ele se declara: “tudo isso não passa de uma imagem pré-conceituosa que me reduz apenas à sexualidade. Sou muito mais que isso”, afirmou. Eu me lembrei da entrevista com o sambista Batista Coqueiral criou a marchinha de carnaval "Xô preconceito",  que diz que as pessoas são diferentes e isso é normal. Sai pra lá, xô preconceito (áudio abaixo).

Diego e os irmão sempre tiveram acesso às escolas particulares, municipais e públicas, no maternal estava inscrito no Centro Educativo Mundo Encantado no Bairro Nova Era, onde teve o primeiro contato com os estudos, a recreação, a arte, a cultura, a capoeira e a dança. Mas a família logo transferiu o menino Diego para a Escola Municipal Carlos Drummond de Andrade, que era próximo de casa: “foi uma impactante troca de realidade para mim como criança”. Na escola pública ele ficou por cinco anos: “fiz amizades e pude construir uma visão de senso social”, já nessa época uma de suas atividades favoritas era dançar, diferente da maioria absoluta dos meninos.
Em 2013 sua realidade mudaria de cabeça para baixo, pois já era previsto que como filho de militar Diego iria mesmo para o Colégio Militar de Juiz de Fora, onde estudou até completar o ensino secundário: “por sete anos tive contato com o militarismo, hierarquias, austeridade e rigidez”. O CMJF tinha uma ótima estrutura e Diego pode ter contato com o voleibol e outros esportes, e é claro: “já queria ser integrante do Clube de Dança”. Mas por um tempo com medo de represália não pode participar do grupo de dança: “na estrutura militar dança era visto como coisa de viado”, lamentou. Mas em pouco tempo superou o medo e os grupos de teatro e danças foram muitas das vezes um refúgio para ele. Em 2017 Diego perdeu o pai e pelo fato de ser militar o colégio ofereceu para ele um apoio reforçado, mas sua válvula de escape de um sistema altamente hierárquico era mesmo o esporte e a dança. Olhando para seu período no CMJF, Diego lembra que foi um tempo bom, com uma infraestrutura excelente, mas que deixou traumas em sua personalidade: “a competitividade, a concorrência para ser melhor em tudo, a pressão dos camaradas, o ensino impositivo e com muita cobrança”. Ele sofreu muito também pelo fato de ter vindo de escolas públicas e com uma discrepância de ensino em relação aos cursos preparatórios e às escolas particulares, onde muitos outros alunos estudaram. Apesar de todas as pressões, Diego venceu esta fase da vida e em 2019 formou-se no ensino médio.
Saindo do ensino médio militarizado do CMJF, o qual ele considerou uma bolha de pressão, Diego ingressou na Universidade Federal de Juiz de fora, pelo Processo de Ingresso Seletivo Misto (PISM), para o primeiro semestre no curso de medicina veterinária 2020.1. A paixão dele pela medicina veterinária começou com os desenhos e canais que ele assistia quando criança: “eu amava assistir Animal Planet”. Ele transitava pelo novo ambiente da UFJF admirado pela mudança: “parecia que eu tinha entrado em outro mundo, mais livre e plural”, comentou. Livre da bolha e da hierarquia, Diego finalmente pode começar a ser realmente quem ele era de verdade: “deixei o cabelo e a barba crescer, coloquei brinco, poderia pintar a unha se eu quisesse, etc”.
Ele se lembra da hora da autodeclaração que marcou a opção “Cota D”, que inclui pretos, pardos indígenas e amarelos. Mas foi diante da banca examinadora que ficou pensando e filosofando quanto ao racismo estrutural: “até quando nós pretos vamos precisar nos expor em frente a um examinador? E como definir neste país altamente miscigenado um preto, um pardo, etc?”. Foi a partir deste momento que ele despertou, se auto reconheceu e tomou real consciência da enorme barreira social por ser preto e bissexual: “mas sempre falo que não precisa estender muito o assunto, cada um faz o que quer”. O estudante, modelo, criador de conteúdo e influenciador digital passou por um longo processo de se reconhecer e de conhecer o seu lugar na sociedade. O cabelo representou o crescimento pessoal e foi aos poucos ganhando volume: “com a transição capilar sofri muito racismo estrutural”, mas para ele era mais importante se afirmar como personalidade.

O Diego na vida privada é uma personalidade querida, muito divertida, carinhosa, brincalhona e ser modelo era um sonho, que muitas vezes, foi limitado e desacreditado por muitos e até por ele mesmo: “sempre teve uma chama dentro de mim, mas eu demorei a perceber que se tratava do meu desejo”. Com o início lento da transformação, demorou a perceber que: “bastava eu acreditar em mim mesmo para que as coisas começassem a caminhar na direção certa”. Aos poucos as oportunidades começaram a aparecer e Diego abraçou muitas delas: “fiz um curso profissionalizante de modelo”. Ele começou a pesquisar e trabalhar na área, onde já ganhava uma renda que fez muita diferença: “foi o começo da minha independência e buscava uma identidade nova”.

Em 2020 veio a Pandemia de COVID-19 e com ela a correria, mais trabalhos e novos projetos. Ele viu sua foto estampada nos imensos banners na UFJF: "fiquei muito feliz, pois estava representando a diversidade e a cultura". Inicialmente foram algumas aulas presenciais, mas logo foram obrigados a participar das aulas remotas. Impossibilitado de presença física, surgiu a ideia de trabalhar como criador de conteúdo na internet: “percebi que era hora de cuidar mais da minha imagem”. Com o avanço das tecnologias e inovações Diego se arriscou: “decidi me expor nas redes sociais como um meio de trabalho e escolhi um nome artístico”. Nascido como Geração Z, cresceu com as mídias digitais, sempre conectado e acostumado a ter um smartphone o tempo todo em sua companhia: “busco aliar trabalho e lazer em uma atividade só”, se tornou um influenciador digital. Para se apresentar bem nesse nicho de mercado foi importante a questão capilar dos negros, não só pela identidade de sua origem, mas também pelo cuidado com o cabelo para se apresentar bem: “os comentários negativos sobre o meu cabelo são com certeza racismos velados”, lamentou.

Com um trabalho sério, estudos, foco e fé Diego se rebatizou com a personagem Digo Alves, uma "Persona", como ele mesmo define, com o objetivo de trabalhar com sua imagem, diferente do cidadão: “o maior aliado da Persona Digo Alves é sua autoconfiança”. Foi assim que Diego Alves Teixeira Damasceno surgiu com sua nova identidade visual “Digo Alves” no Instagram, TikTok e Facebook e passou a criar conteúdos e ganhar seguidores. Para ele as redes sociais são a vitrine do seu lado profissional no setor da moda e influenciador virtual e “@digoalves” incorporou essa figura e explicou que: “as pessoas precisam entender da necessidade de não acreditarem em tudo que elas veem na internet”. Muitos jovens da Geração Z sabem muito bem que as redes sociais não são a vida real, mas Digo alerta que: “ainda existem muitos jovens que confundem essas realidades e ficam em apuros quando usam incorretamente as redes sociais”. Quem convive com Diego Damasceno as vezes estranha as coisas de Digo Alves: “nas redes estou preocupado com o profissional e não preciso mostrar tudo da minha vida pessoal”, essa é a arte da influência que para ele é muito fascinante por possibilitar uma vida virtual.
O extrovertido Diego da vida pessoal sabe muito bem que no setor profissional ele tem que acionar uma chave automática e precisa pensar antes de falar: “ensino que é preciso saber lidar com a questão da exposição na internet”. Já o modelo Digo começou a ganhar notoriedade e credibilidade dentro do setor da moda no mercado de trabalho que atua: “me tornei modelo de uma das maiores marcas mineiras Chico Rei”. Ele já fez campanhas e fotos para a marca Lolja Coleção Capricho e trabalhou de modelo e de criador de conteúdo para a empresa juizforana ThernoJF. O risonho Diego não perde a seriedade profissional e confessa que: “para os negros rir é um ato de resistência”, e isso ele mostra em suas fotos cativantes.

O cidadão Diego sempre teve referências dentro da própria família para fazer o bem e tem como moral própria que: “apesar das dificuldades não acho que estou em uma das piores situações e que sempre posso fazer algo para o próximo e fazer a diferença no mundo”. Como um bom representante da Geração Z, ele é engajado em projetos sociais e é um dos idealizadores e integrante do Projeto Ancestralidade de Juiz de Fora – Trançando saberes, resgatando memórias (foto abaixo). O projeto tem como objetivo levar o conhecimento histórico, socioeconômico, político e cultural através das tranças: “sabemos que os recursos não chegam até as periferias”. As lideranças do projeto estão sempre atentas aos editais que a Prefeitura de Juiz de Fora, que através da Funalfa, disponibiliza para o financiamento de projetos sociais dentro da lei de incentivo à cultura. Este projeto foi contemplado pela Lei Murilo Mendes e será entregue em novembro de 2023. Este primeiro projeto teve o patrocínio do Edital Quilombagens, do Programa Cultural Murilo Mendes e a proponente e trancista Tamires Cristina trabalha com cabelo negro há 16 anos e pretende abordar aspectos históricos e culturais da cultura de matriz africana através das tranças. Diego contou que: “o resultado é imenso, pois a transição capilar mexe com os negros em vários aspectos, aumenta a autoaceitação e estimula o amor-próprio”. Serão realizadas cinco aulas no salão da Comunidade Jesus Misericordioso, na Rua Oscar Teodoro de Oliveira 163 – Vila Sr. Neném – no Bairro Santa Rita. O curso é totalmente gratuito, incluindo os materiais necessários.
Diego atua também como educador ambiental no Jardim Botânico de Juiz de Fora desde meados de 2023. Quando entrou na matéria Biologia da Conservação e na matéria Conservação e Manejo da Fauna Silvestre na UFJF Diego teve aulas práticas no Jardim Botânico. Foi seu primeiro contato com o local e foi orientado sobre a oportunidade de ser um extensionista e educador no Jardim Botânico: “o contato com o público e as escolas visitantes é altamente gratificante”. Diego lidera visitas guiadas, bate-papos e trocas de experiências e conhecimentos junto com outros monitores e educadores ambientais do Jardim Botânico de Juiz de Fora.
Quanto ao seu futuro ele se apresenta de forma descontraída, mas confessa que o sonho é ser valorizado e receber o devido reconhecimento dentro das suas escolhas: “como modelo luto diariamente sempre tentando mostrar qualidade, pois ainda existem os tabus que trabalhar como modelo é um hobby’’. Muito pelo contrário, Digo precisou de estudos e treinamento para poder fotografar bem. No vídeo abaixo ele apresenta um pouco do seu trabalho para quem acha que a vida de modelo é fácil: “a luta é diária e o trabalho exaustivo, mas mantenho-me sempre sonhando e acreditando”, completou.

Para ele tem sido muito difícil ser um “new face” no mercado da moda, ou seja, uma carinha nova, preta e ter começado do zero sem apoios ou referências: “sempre escuto a frase que posso ainda melhorar”. Mas com objetivos de voos mais altos no cenário nacional, Digo sempre vai buscar suas referências no mundo todo e no meio que atua, para poder inspirá-lo e seguir os passos positivos. Recentemente, com sua consolidação e conhecimento no mercado local, ele foi convidado a ser jurado do concurso Miss Juiz de Fora Pluz Size 2023: “é bom crescer profissionalmente, ocupar e conquistar meus espaços”. As dificuldades que Digo sentiu como criador de conteúdo e modelo não se comparam com as lutas de Diego como estudante de veterinária, mas também é a função mais desafiadora.
Para o cidadão Diego Alves Teixeira Damasceno o racismo estrutural está enraizado e se apresenta camuflado na nossa cultura brasileira e no idioma: “é difícil escutar frases e ditados populares criados com objetivo racista e inferiorização do povo preto”. Para ele a luta contra o racismo estrutural é longa e diária, tanto no meio acadêmico, profissional ou social: “consiste em resistir constantemente e acreditar que um dia isso possa mudar”. Ele não acha que o racismo vai acabar tão cedo: “canso de sempre tentar explicar o óbvio em pleno século XXI”. Estamos na era das tecnologias e informações, mas ainda precisamos mostrar que: “com uma simples mudança de vocabulário ou comportamento já poderíamos nos tornar anti-racistas”.
Como modelo profissional, é doloroso para Digo ainda hoje sentir na pele o peso do racismo estrutural: “não credibilizam e não querem pagar pelo meu trabalho, sinto o peso e carrego o fardo de ser um modelo preto”. Como cidadão, Diego Damasceno se lembra de quando saiu pela primeira vez com o cabelo solto e crescendo: “parecia que o cabelo chegava antes de mim, fiquei com muito medo de ser julgado, estranhei os olhares e comentários”, fato que ele luta para naturalizar o empoderamento dos negros e suas características próprias. Hoje Digo Alves se sente já uma referência para muitos na questão da política afirmativa deles na transição capilar.
Trabalho de preto vem sendo desde a descoberta do Brasil um trabalho sem pagamento, explicou e lamentou que infelizmente isso fica na cabeça dos negros, que constantemente percebem uma auto-sabotagem: “também me percebo com pensamentos limitadores de que não posso chegar em tal lugar”. Diego explica uma obviedade, mas que vem da falta de referências pretas em muitos setores: “luto para mudar isso com uma vontade de resistir e ocupar espaços, os quais os brancos acham que não me pertencem”. Em 2023 participou do Mister Juiz de Fora CNB 2023 como um dos poucos negros num mercado dominado pelos modelos brancos. Tanto Diego quanto Digo tem a certeza que chegando lá abrirão as portas para mais pessoas e juntos ajudarão a construir um mundo sem racismos.

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FONTE/CRÉDITOS: Diego Damasceno
Comentários:
Alexandre Müller Hill Maestrini

Publicado por:

Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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