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Sexta-feira, 01 de Marco de 2024
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Geral

Raízes do Racismo Estrutural

Despertar anti-racista para um Brasil melhor

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
Raízes do Racismo Estrutural
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Por que não sou mais racista?

Porque eu escolhi! Mas é preciso reconhecer que eu cresci em uma sociedade juizforana racista de normas segregadoras  e mantenedoras dos status existentes com poucas opções de mobilidade social. Apesar de ter ascendência miscigenada, vivia em universos paralelos com os descendentes dos ex-escravizados de nossa região, representativa para os diversos "Brasis". Conheci em Juiz de Fora ambientes privilegiados e locais segregados, recebi educação jesuíta onde absorvi a visão elitista da sociedade de herança eurocentrista. Pude frequentar cursos particulares, clubes esportivos de elite branca e vários outros privilégios educacionais até a universidade.

Então; vamos falar de racismo? Este texto é resultado de um diálogo interno que diz muito de mim, pois não queria mais ficar preso no passado. Percebi que é tolice fazer as coisas sempre do mesmo jeito e esperar resultados diferentes. Foi importante trocar a pele como uma cobra e sair para nova visão de humanidade. Somente seremos uma nação quando todos os grupos brasileiros se derem as mãos. Não basta dizer que não se é racista, é preciso viver isso e se tornar realmente um anti-racista. Precisamos dar sentido nessa vida, ter motivação para evitar o sofrimento ou tirar os costumes do piloto automático, pois as transformações estão fora da zona de conforto.

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O lar é o ambiente perpetuador, pois as heranças culturais vem sendo passadas por gerações, os contatos e o respeito familiar são transmitidos no convívio. Quem nasceu em família considerada branca, cresce sem incógnitas na vida, desconhecendo situações de menosprezo, falta-lhes a experiência de medo da cor e falta-lhes o contato com a segregação, que se configura na ausência de interação interracial. Quem não tem a pele negra, como eu, mas olhos de cor clara, as experiências fora de casa foram de nunca ter sido controlado, tive o passe livre pela aparência, não conheci olhares desconfiados e experiências negativas de inferioridade. Quem não tem o cabelo crespo, aprendeu a usar os códigos, sem falar nos códigos das vestimentas de classe e os códigos de conduta apreendidos por osmose de seus pares nas convivências sociais que se encarregam de criar a nova geração. 

Eu cresci em Juiz de Fora num governo militar de pensamento positivista, tive professores e treinadores saídos das academias militares. Na minha época de escola eu achava que a maioria das escolas era como a minha, não conheci a realidade das escolas públicas que sempre abrigou a classe economicamente menos privilegiada. Nossos livros e a literatura perpetuavam a visão de raças para justificar e acalmar a alma daquele que questiona, como eu. Vivi numa bolha, com feudos de eurocentrismos, migrando entre ambientes privilegiados. A academia juizforana produzia títulos como a cidade "Paris dos Trópicos" e a idealizada "Manchester Mineira". Paramos no tempo elogiando "os Barões do Café" e os imigrantes europeus. A verdade de um município construído pelas mãos negras escravizadas era apagada dos textos históricos, em contrapartida contava-se que os barões colheram toneladas de café, mas na verdade jamais colocaram "suas mãos nunca calejadas" nos pés de café.

Nos meus contatos esportivos era raro ver um esportista negro. Na natação justificava-se a ausência com o deboche que eles não flutuavam bem, tinham ossos pesados ou não tinham talento esportivo, etc. No time de voleibol tive o prazer de conhecer o Wagão, um negro forte e jogador exemplar. Claro que fiz amizade com ele. Já na Faculdade de Educação Física fui conhecer um único colega negro, um excelente estudante que se tornaria um Doutor em sua área, mas que sofrera o que hoje se chama de bullying, colocando-o de lado nas aulas. É claro que estudamos muito juntos. Ao chegar no clube de vôlei do Botafogo conheci um único jogador negro, africano, angolano, simpático, destemido. Era assim que eu o via, mas Miguel era criticado e colocado pra baixo com chacotas de "pelo menos deixamos ele jogar de vez em quando". Essa minha tendência de me solidarizar com os injustiçados me levou a fazer amizade com eles que já estavam com a autoestima construída, isto é, destruída.

Quando saí para minha carreira internacional me senti um privilegiado, mas ainda não tão consciente do racismo recebido subconscientemente. Assim, ver o país de fora foi um privilégio, pois muitos nunca saíram dos limites municipais. Eu tive a possibilidade de conhecer minhas origens e locais dos antepassados na Itália, Alemanha, etc. Minha vida está bem documentada em cartórios, tudo foi registrado, nada apagado, minha genealogia pode facilmente ser reconstruída. Já no exterior o primeiro choque de realidade foi sentir que eu não era considerado branco, eu era o latino miscigenado. Logo que viajei para a África a experiência foi mais clara: feudos brancos em Moçambique e África do Sul defendidos com unhas e dentes, uma Africa Central completamente negra que me catapultou para situações antes desconhecidas por mim. Agora era "EU" o ponto branco na multidão em Nairobi, não tinha como não ser controlado e perguntado "o que você está fazendo aqui? Sofri na pele!

Com as novas perspectivas na Europa pude viver em idiomas dos meus antepassados, conhecer seus erros e acertos, seus medos e motivações. Depois de 20 anos no velho continente estava pronto para a volta, porém foi um retorno idealizado. O meu Brasil "aos meus olhos" já não era o mesmo, na verdade era, mas eu tinha percebido as necessidades de mudança de consciência racial. Voltei com vontade de contribuição, mas sem perceber iniciei minhas ações ainda com uma atitude paternalista e reproduzindo a visão da elite. Não fui humilde para tentar primeiro entender e aprender que a mudança só acontecerá de dentro pra fora. Senti na pele a impotência para mudança e tive atitudes como um "sonhador patinho feio na família", tentei fazer a sociedade voar mais alto como o visionário "Fernão Capelo gaivota" e me tornei um privilegiado que "cuspiu no prato que comeu". Por várias atitudes anti-racistas recebia olhares como se fosse "um traidor da classe original", mas na verdade só estava numa tentativa de apoio para uma equidade social. Meu caminho como anti-racista estava traçado e minha motivação e missão se tornou ajudar no processo de despertar. Precisaremos de mais anti-racistas para um Brasil melhor e menos desnivelado.

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Alexandre Müller Hill Maestrini

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Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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