A história do esporte profissional brasileiro é farta em narrativas de superação física, glórias efêmeras e caminhos que se encerram abruptamente quando as articulações já não respondem ao rigor do alto rendimento. Raros, contudo, são os relatos daqueles que conseguem operar uma transição completa de ecossistema, transmutando a energia explosiva do assoalho das quadras de vôlei para o silêncio reflexivo e perene das bibliotecas e arquivos históricos. Alexandre Müller Hill Maestrini pertence a esta estirpe restrita de indivíduos. Hoje, quem o assiste lecionar alemão e português no Instituto Autobahn ou autografar suas concorridas pesquisas literárias em Minas Gerais dificilmente vislumbra, sob o semblante sereno do pesquisador, o jovem atleta que saltava nos céus da Europa e da antiga Iugoslávia para enfrentar os maiores bloqueios do mundo na década de 1980.
A biografia de Maestrini é um microcosmo de um período de profundas transformações no voleibol mundial. Trata-se de uma era regulada pela extinta regra da vantagem, onde um único set poderia durar mais de uma hora e as partidas se estendiam por tardes inteiras, exigindo dos atletas não apenas um vigor atlético sobre-humano, mas uma resiliência psicológica quase ascética. Ao longo de sua carreira, Alexandre não apenas sobreviveu a essa engrenagem, mas utilizou-a como trampolim para uma jornada internacional de duas décadas na Europa que o transformou em jogador, treinador, gestor esportivo e, por fim, em um guardião da memória cultural e da imigração germânica em Juiz de Fora. Esta grande reportagem reconstrói os passos dessa trajetória singular, desde os primeiros saques no interior mineiro até o legado atual nas prateleiras das livrarias, que inclui obras como Cerveja, Alemães e Juiz de Fora: A história do Polo Cervejeiro de Juiz de Fora (2015), Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão (2018), Lindolfo Hill – um outro olhar para a esquerda (2021), Arte Sutil – Adeus Borboleta Azul (2022) e, mais recentemente, Nossas Riquezas Pretas – Biografias Afro-juizforanas (2025).
SUAS RAÍZES MINEIRAS E A BASE DO VOLEIBOL EM JUIZ DE FORA
A narrativa esportiva e intelectual de Alexandre Maestrini começa em Juiz de Fora, município encravado na Zona da Mata Mineira. Nascido em 24 de dezembro de 1963, em uma família com profundas raízes na história local — sendo descendente direto dos colonos germânicos que fundaram as primeiras colônias agrícolas da região no século XIX —, Alexandre cresceu em um ambiente onde a disciplina e o respeito à memória histórica caminhavam lado a lado. Seus antepassados, que chegaram ao Brasil em 1858, trouxeram consigo valores de trabalho árduo, organização e preservação de tradições, características que marcariam toda a sua vida e trajetória profissional.
Desde criança, Alexandre demonstrava dois traços marcantes: uma curiosidade intelectual incomum e uma aptidão física que o destacava entre os colegas. Na escola, sempre foi aluno aplicado, interessado em história, geografia e línguas; nos intervalos e finais de semana, era o primeiro a chegar às piscinas e campos esportivos. A combinação entre mente ágil e corpo forte, aliada a uma altura de 1,98 metro que já despontava na adolescência, logo chamou a atenção de treinadores e professores de educação física.
Os anos de formação em Juiz de Fora foram marcados por uma disciplina que unia o rigor dos estudos à dedicação esportiva. Durante 12 anos, Alexandre foi aluno do renomado Colégio dos Jesuítas, uma instituição centenária na cidade, tradicional por sua formação intelectual e moral. Foi lá que ele consolidou sua base educacional, desenvolvendo o gosto pela pesquisa e pela história que mais tarde floresceria em sua produção literária.
Sua afinidade com o esporte, no entanto, não se limitou ao voleibol. Nos anos de juventude, Alexandre foi atleta de natação no Clube Bom Pastor, onde desenvolveu sua capacidade respiratória, resistência e disciplina aquática e o levou a ser vinculado à Federação Aquática Mineira (F.A.M.), mas naquela época o atleta era incentivado a desenvolver múltiplas valências físicas.
No CBP e depois no tradicional Sport Club de Juiz de Fora, um dos mais antigos e respeitados da cidade, Alexandre aperfeiçoou os primeiros fundamentos do voleibol que o levariam às quadras profissionais. Seu talento precoce logo ficou evidente: ainda como juvenil, foi campeão do interior e destaque da competição, o que lhe rendeu a imediata promoção à equipe adulta do clube. Foi nesse período que ele começou a ser observado por treinadores de maior projeção, combinando a rotina de treinos com a preparação para o vestibular.
No início dos anos 1980, a cidade fervilhava com o surgimento de talentos em diversas modalidades, e as quadras de vôlei locais funcionavam como o principal polo de atração para jovens de grande estatura e coordenação motora refinada. O esporte vivia um momento de expansão no Brasil, impulsionado por resultados expressivos da seleção brasileira e pela crescente cobertura televisiva. Em Juiz de Fora, o Sport mantinha categorias de base estruturadas, formando atletas que depois seguiam para grandes centros.
Foi nesse cenário que Alexandre iniciou sua jornada no voleibol competitivo. Sob a tutela de treinadores locais que compensavam a escassez de infraestrutura de ponta com um rigor técnico disciplinar invejável, o atleta rapidamente se destacou nos campeonatos regionais e estaduais de categorias de base. Os treinadores perceberam logo que ele não era apenas forte e alto: tinha inteligência de jogo, capacidade de ler a partida e liderança natural.
Os primeiros títulos nacionais não tardaram a aparecer. Representando seu estado de origem, Alexandre conquistou o título de campeão brasileiro juvenil por Minas Gerais nos Jogos Escolares Brasileiros (JEBs) , uma das mais importantes vitrines do esporte de base nacional naquela época. Os JEBs funcionavam como um celeiro de talentos, e ser campeão por Minas Gerais era um atestado de que o jovem ponteiro estava pronto para voos mais altos.
Essas vitórias precoces abriram portas e confirmaram que seu talento merecia espaço em níveis mais elevados. A Juiz de Fora daquela época respirava o vôlei em uma escala comunitária. Os clássicos locais atraíam torcidas entusiasmadas, e os atletas da base eram vistos como promessas de projeção nacional. Maestrini, com sua disciplina férrea e visão de jogo aguçada, logo percebeu que as fronteiras da Zona da Mata começavam a ficar estreitas para suas ambições esportivas. O jovem jogador de meio sabia que, para testar seus limites e ingressar no primeiro escalão do esporte nacional, precisaria migrar para um dos grandes centros urbanos do país, onde o voleibol passava por um processo acelerado de profissionalização.
Foi no Rio de Janeiro, para onde se mudou para cursar a faculdade, que a carreira de Alexandre ganhou novos contornos. Aprovado no vestibular carioca — uma prova que exigiu dele o mesmo afinco e preparo que os treinos de alto rendimento, ingressou no curso de Educação Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das mais respeitadas do país. A decisão de cursar uma graduação enquanto jogava profissionalmente foi um diferencial que o acompanharia por toda a vida, unindo a prática de alto rendimento ao conhecimento acadêmico sobre o corpo humano e a gestão esportiva. Seus feitos em Minas Gerais o credenciaram para defender a Seleção do Rio de Janeiro em competições interestaduais — e foi vestindo a camisa da seleção carioca juvenil que Alexandre alcançou outra conquista memorável: o título de campeão brasileiro juvenil, no âmbito do Campeonato Brasileiro de Seleções, que naquele período era a principal competição para se projetar um atleta no cenário nacional.
A FORMAÇÃO ACADÊMICA NO RIO DE JANEIRO
O destino escolhido foi o Rio de Janeiro, pois no início da década de 1980 despontava como o coração pulsante do vôlei brasileiro, rivalizando diretamente com o forte circuito paulista. Clubes como o Fluminense, o Botafogo e o Flamengo mantinham equipes de alto nível, com estruturas profissionais e investimentos crescentes.
No entanto, ao contrário de muitos de seus contemporâneos que abandonavam os estudos formais para se dedicarem exclusivamente às rotinas de treinos das equipes de ponta, Maestrini tomou uma decisão que moldaria toda a sua existência posterior: a busca pelo diploma universitário. Ele acreditava que o esporte tinha prazo de validade, mas o conhecimento duraria para sempre.
A rotina na capital fluminense era espartana. Maestrini dividia suas horas entre as salas de aula e os laboratórios do campus da universidade (UERJ), onde estudava fisiologia do exercício, biomecânica, anatomia, pedagogia do esporte, psicologia esportiva e gestão, e as quadras de treino de alto rendimento. Acordava cedo e seguia direto para as aulas no bairro Maracanã, nos finais de tarde lecionava nas escolinhas do Botafogo e Fluminense e à noite era de treinos intensos. Dormia pouco, mas mantinha o desempenho excelente tanto nos estudos quanto nas competições.
Essa dualidade entre a teoria científica acadêmica e a prática empírica do esporte de alto rendimento deu a Alexandre uma vantagem competitiva intelectual rara entre os jogadores da época. Ele não apenas executava os movimentos ordenados pela comissão técnica; ele compreendia a física e a biologia por trás de cada salto, da importância dos períodos de recuperação e de cada estratégia tática.
A experiência na UERJ também o inseriu de cabeça no ecossistema do desporto universitário, uma estrutura que possuía um nível de competitividade altíssimo naqueles anos. Os campeonatos universitários funcionavam como verdadeiros celeiros de atletas, onde as federações garimpavam os nomes que integrariam as seleções de novos e as delegações de intercâmbio internacional. Paralelamente, Maestrini atuava como professor de Educação Física em escolas privadas, academias e clubes, iniciando sua carreira docente ainda em solo brasileiro, equilibrando o apito de professor com as joelheiras de atleta. Essa experiência lhe deu contato com diferentes realidades e ensinou-lhe a transmitir conhecimento de forma clara e motivadora, habilidade que usaria por toda a vida.
Foi defendendo as cores de clubes tradicionais do Rio de Janeiro, pelo Botafogo (1982/83), Fluminense (1983/84 e 1984/85) e Flamengo (1985/86) — que Maestrini consolidou sua reputação. Pelo Fluminense, sua equipe alcançou a 17ª colocação na Superliga Brasileira na temporada 1984/85; no ano anterior, o time terminou na 20ª posição. Pelo Flamengo, em 1985/86, a campanha foi mais expressiva, com um 10º lugar na competição nacional. Ainda no final da década, vestiu as camisas dos times de voleibol da CRISTALINO/SANEPAR em Curitiba, do Frigorífico Chapecó em SC e da Associação Atlética Frangosul no RS. Seu desempenho consistente, sua inteligência tática e sua versatilidade em quadra atuando como central, chamaram a atenção dos selecionadores da Confederação Brasileira de Voleibol para o maior desafio internacional de sua juventude.
A EPOPEIA NA UNIVERSÍADA DE ZAGREB 1987
O ano de 1987 ficou gravado como um divisor de águas na história do esporte universitário mundial e, de forma muito particular, na memória de Alexandre Maestrini. Em julho daquele ano, a cidade de Zagreb, então uma das joias da República Socialista Federativa da Iugoslávia (hoje a vibrante capital da Croácia), sediou a 14ª edição da Universíada de Verão. O evento alcançou proporções gigantescas, reunindo milhares de atletas vindos de mais de uma centena de nações, transformando a Península Balcânica no epicentro da juventude e do esporte global.
Como integrante da Seleção Brasileira Universitária de Voleibol Masculino, dirigida pelo icônico treinador Bebeto de Freitas, Maestrini desembarcou em Zagreb com a camisa 9 e ciente da sua responsabilidade diante da CBDU (Confederação Brasileira do Desporto Universitário). No vôlei brasileiro daquela era, a seleção universitária funcionava como uma extensão direta das ligas nacionais de ponta. O nível técnico exigido era colossal, pois as principais potências do bloco comunista — como a União Soviética, a própria Iugoslávia e a China — enviavam para a Universíada equipes altamente preparadas, compostas por atletas que já figuravam nas seleções principais ou em clubes de elite do Estado.
O torneio de voleibol masculino em Zagreb foi uma verdadeira guerra de desgaste. Sob a regra clássica da vantagem (side-out scoring system), as partidas operavam sob uma lógica cruel: um time só pontuava quando tinha a posse do saque. Se o adversário recuperasse a bola, ocorria apenas a virada de saque, sem alteração no placar. Esse formato estendia os sets indefinidamente. Os ralis exigiam centenas de trocas de bola extenuantes, com defesas acrobáticas e bloqueios repetitivos. Um único jogo podia durar mais de três horas, exigindo resistência física e mental fora do comum.
A Seleção Brasileira universitária, formada por jovens talentos, mas com pouca experiência internacional, bateu de frente com gigantes como a seleção do Canadá e ganhava a cada jogo mais experiência. A torcida local iugoslava criava caldeirões ruidosos nos ginásios, empurrando seus atletas rumo à medalha de ouro. A equipe da Iugoslávia, então uma das melhores do mundo, tinha jogadores que depois se tornariam ídolos globais. A China exibia uma velocidade de combinação de ataque impressionante, faturando a prata, enquanto a Itália, que começava sua ascensão ao topo, garantiu o bronze.
O Brasil, com Alexandre Maestrini em quadra demonstrando a precisão tática herdada de seus estudos na UERJ, lutou bravamente em cada ponto. Apesar de não chegar ao pódio, a campanha foi considerada excelente: o time mostrou organização, técnica e garra, solidificando a reputação internacional do Brasil no voleibol e abrindo portas para que vários de seus integrantes fossem contratados por clubes europeus.
A vivência em Zagreb expandiu os horizontes de Alexandre de tal maneira que a carreira internacional tornou-se o caminho natural a seguir. Ele conheceu novas culturas, viu como o esporte era estruturado em países desenvolvidos e percebeu que tinha capacidade para competir no mais alto nível do voleibol mundial. Na volta ao Brasil, já tinha propostas de clubes da Europa, onde o vôlei passava por um ciclo de crescimento e investimento sem precedentes.
JOGADOR PROFISSIONAL NA EUROPA
A carreira de Alexandre Maestrini como jogador profissional de vôlei estendeu-se por sete anos na Europa, de 1988 a 1995, cruzando oceanos e fincando bandeiras em três mercados distintos: Itália, Liechtenstein e Suíça. A vitrine proporcionada pela Universíada de 1987 acelerou sua ida definitiva para o Velho Continente, onde o voleibol passava por uma fase de grande investimento econômico e estrutural, com ligas fortes, patrocínios robustos e grande público.
ITÁLIA: A ESCOLA DE ALTO RENDIMENTO
Em 1988, Maestrini iniciou sua incursão pelo voleibol da Itália, o polo mais competitivo e técnico do vôlei mundial naquela década. O campeonato italiano era conhecido pelo rigor tático extremo, onde os sistemas defensivos eram milimetricamente estudados e os treinamentos físicos exigiam o máximo desempenho do corpo. Clubes como o Modena, o Parma, o Belluno e o Milão dominavam o cenário, atraindo os melhores atletas de todo o planeta.
Alexandre também disputou torneios de vôlei de praia durante sua passagem pela Itália. O vôlei de praia vivia naquele país um momento de grande efervescência, com circuitos nacionais e regionais que atraíam atletas de todo o mundo. A experiência nas areias italianas — que exigia adaptação a condições climáticas adversas, deslocamentos constantes e um estilo de jogo mais dinâmico — contribuiu para ampliar seu repertório técnico e sua capacidade de adaptação, qualidades que mais tarde seriam decisivas em sua atuação como gestor e treinador multifuncional na Europa Central.
Depois de passar o verão jogando o campeonato italiano de vôlei de praia, Maestrini assinou contrato com o Pallavolo Belluno para a temporada 1989/90, equipe da Série A2, e atuou como central (posição de bloqueio). Na Itália, o vôlei era tratado como ciência: cada movimento, cada jogada, cada posição era analisada, estudada e treinada exaustivamente. Para Maestrini, a temporada em solo italiano funcionou como uma verdadeira escola de especialização. Ele assimilou a disciplina tática coletiva europeia, o posicionamento defensivo obstinado, a variação técnica de saques e ataques, e a importância da preparação física e da recuperação.
Sua versatilidade foi um dos maiores trunfos: defendia bem, atacava com força e precisão e tinha excelente visão de jogo. Os treinadores italianos admiravam sua inteligência e capacidade de aprender rapidamente. No Campeonato Italiano Série A2 de 1989/90, sua equipe terminou na 14ª colocação. Na Copa da Itália de 1989/90, alcançou a 23ª posição.
PIONEIRISMO EM LIECHTENSTEIN
Entre os anos de 1991 e 1994, a carreira de Alexandre Maestrini tomou um rumo marcado pelo pioneirismo e pela multifuncionalidade no esporte europeu. Ele foi contratado para jogar no Principado de Liechtenstein, um pequeno país entre a Áustria e a Suíça, estabelecendo-se em Vaduz para assumir uma complexa e inédita função no Clube VBC Galina na cidade de Schaan.
Devido às dimensões reduzidas de Liechtenstein e ao número limitado de atletas, suas equipes de elite competem integradas ao sistema de ligas da vizinha Suíça. No Volleyball Clube Galina, Maestrini assumiu o cargo de jogador do clube, além de gerente e co-treinador da equipe na Liga Nacional Suíça. Durante esses três anos, ele acumulou as funções de planejar os treinamentos táticos, comandar a equipe à beira da quadra nos jogos da Liga Nacional, gerenciar a estrutura administrativa do clube, cuidar de contratações, orçamentos, patrocínios e ainda jogar regularmente como atleta titular.
Em 1991, Andorra recebeu pela primeira vez os Jogos dos Pequenos Estados da Europa, a 4ª edição da competição, realizada de 21 a 25 de maio em Andorra-a-Velha. Contou com 8 países participantes — Andorra, Chipre, Islândia, Liechtenstein, Luxemburgo, Malta, Mónaco e San Marino — reunindo quase 700 atletas em 8 modalidades, entre elas o voleibol. Foi um marco histórico, consolidando o evento como principal vitrine esportiva dessas nações. Alexandre Maestrini atuou como auxiliar técnico da seleção masculina de Liechtenstein, levando todo seu conhecimento e experiência para desenvolver o esporte em um país de estrutura reduzida, mas com grande dedicação e evolução. Novamente, em 1993, Malta recebeu a 5ª edição, realizada de 25 a 29 de maio em Valeta, e lá estava Maestrini novamente como auxiliar técnico da seleção masculina de Liechtenstein.
Simultaneamente ao profissionalismo no voleibol, continuou lecionando Educação Física no país, em escolas e centros esportivos, além de trabalhar com formação de jovens atletas de voleibol e natação de Liechtenstein. Essa experiência prática em gestão esportiva na Europa Central provou que sua capacidade de liderança ia muito além das quatro linhas da quadra, consolidando seu nome como um profissional completo e altamente estratégico.
SUÍÇA: CONSOLIDAÇÃO E TRANSIÇÃO
Em 1994, Maestrini transferiu-se para a Suíça, país onde estabeleceu residência por vinte anos, na região de Berna, a capital federal da confederação. Foi jogador do time masculino e treinador do time feminino do Volleyball Club Berna, da Universidade de Berna, também na Liga Nacional, e continuou a desempenhar funções técnicas e administrativas. A Suíça ofereceu-lhe estabilidade, qualidade de vida e uma visão ainda mais ampla sobre gestão esportiva, legislação e organização de eventos.
Nesse período, ele começou a perceber que sua carreira como jogador estava chegando ao fim, mas que havia muito mais a contribuir. O conhecimento acumulado — como atleta, professor, treinador e gestor — era um patrimônio que poderia ser aplicado em outras áreas. Em 1995, aos 32 anos, decidiu encerrar oficialmente a carreira de jogador, mas permaneceu na Suíça, assumindo novos desafios na gestão do esporte.
UNIVERSIDADE DE BERNA E A FORMAÇÃO OLÍMPICA
Ainda em 1995, consolidado como um dos profissionais mais versáteis da região alpina, Maestrini assumiu o cargo de Diretor e Treinador de Vôlei da Liga Nacional na Universidade de Berna, uma das instituições mais prestigiadas da Suíça. Comandar a estrutura de voleibol de uma universidade que competia na principal divisão nacional exigia um profundo conhecimento metodológico, capacidade de organização e visão de longo prazo.
Maestrini aplicou as bases científicas de sua formação na UERJ e sua vasta experiência internacional para reestruturar o departamento de vôlei da universidade. Aplicou novos programas de treinamento, aproveitou as instalações, implementou sistemas de avaliação de desempenho e integrou ciência e esporte de forma pioneira. Sob seu comando técnico, a equipe competiu em alto nível nas divisões de elite do país.
Além do desempenho esportivo, ele priorizava a formação integral dos estudantes-atletas, incentivando-os a manter o rendimento acadêmico e a desenvolver valores como disciplina, trabalho em equipe e respeito. Era visto como um mentor, não apenas um treinador.
Paralelamente ao cargo na Universidade de Berna, Alexandre atuou como Personal Trainer e Administrador no Centro Esportivo TST, em Berna, entre 1995 e 1998, gerenciando programas de condicionamento físico, atendimento a clientes e rotinas administrativas da instituição. Trabalhou também com preparação física de atletas de outras modalidades e consultoria para clubes e federações.
Para chancelar academicamente sua vasta experiência prática construída em décadas de quadras e escritórios europeus, Alexandre buscou a mais alta qualificação em gerenciamento esportivo na Suíça. Ele concluiu a pós-graduação em Gestão Esportiva pela Swiss Olympic Association (Comitê Olímpico Suíço) , instituição referência mundial na formação de gestores.
Essa formação pós-graduada especializou Maestrini nos modernos conceitos de governança esportiva, planejamento estratégico de confederações, marketing de grandes eventos, captação de recursos, desenvolvimento de programas de esporte de base e rendimento, legislação esportiva e gestão de instalações. O curso foi desenvolvido com base nas melhores práticas internacionais, e ele teve contato com especialistas e líderes do esporte mundial.
Antes mesmo de concluir essa pós-graduação na Europa, ainda durante sua carreira como atleta profissional, Alexandre deu um passo fundamental para alinhar sua trajetória com a gestão olímpica de alto nível. Ele foi um dos selecionados para o Curso de Preparação para Dirigentes, oferecido pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) com o apoio do Panathlon Club de Juiz de Fora. A iniciativa, que contou com o respaldo do Comitê Olímpico Internacional (COI), foi um marco na capacitação de quadros técnicos e administrativos visando a uma futura candidatura do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos — um sonho que se concretizaria anos depois com a nomeação do Rio de Janeiro para 2016. Essa experiência, ainda em solo brasileiro e conectada às suas raízes juiz-foranas, complementou sua visão internacional e despertou nele o interesse pela articulação entre políticas públicas esportivas e grandes eventos, área na qual atuaria com destaque após seu retorno definitivo ao país.
A titulação pelo Comitê Olímpico Suíço, somada a essa capacitação promovida pelo COB, coroou seus vinte anos de vivência na Suíça alemã, preparando-o para exercer cargos de alta relevância técnica e administrativa ao retornar ao Brasil. Ele agora unia experiência prática internacional, formação acadêmica sólida e conhecimento aprofundado sobre gestão e políticas públicas esportivas — um perfil raro e valioso no mercado brasileiro.
A TRANSIÇÃO PARA O MERCADO CORPORATIVO E DE TECNOLOGIA
O encerramento de sua carreira no voleibol em 1999 não significou o afastamento de Berna, ele já vinha se preparando para o futuro com mais qualificação enquanto finalizava sua atuação principal no esporte. Alexandre Maestrini demonstrou uma notável capacidade de reinvenção profissional ao ingressar no mercado de tecnologia, gestão de projetos e serviços na Suíça alemã, um dos ambientes mais competitivos e desenvolvidos do mundo.
Visando fazer a transição entre esporte de alto rendimento e uma carreira para seu futuro, entre os anos de 1998 e 2000, Maestrini buscou diversificar e atuou como Gerente de Projeto e Assistente de Intranet para grandes corporações e instituições baseadas em Berna, incluindo a Openwireless, a gigante de saúde Visana, a multinacional de tecnologia Oracle e os correios suíços (Swiss Post) . Essa imersão no ambiente corporativo de tecnologia de ponta exigiu o domínio de ferramentas de comunicação interna, gestão de fluxos de informação, segurança de dados e liderança de equipes multidisciplinares.
Ele aplicou exatamente os mesmos princípios que usava no esporte: planejamento rigoroso, organização, trabalho em equipe, definição de metas claras e avaliação constante de resultados. Aprendeu rapidamente sobre sistemas informatizados, processos administrativos e gestão de pessoas, tornando-se um profissional respeitado também no setor corporativo. Para ele, não havia diferença fundamental entre organizar uma equipe de vôlei e organizar um projeto de tecnologia: em ambos, o sucesso depende de pessoas bem preparadas, processos bem definidos e visão estratégica.
GESTOR ESPORTIVO NA AQUAFORTISSIMA
Paralelamente à sua atuação no mundo da tecnologia e por um período de aproximadamente 12 anos (1998–2010), Alexandre construiu uma sólida carreira como Gerente da empresa esportiva Aquafortissima, sediada em Berna. A empresa tinha sido fundada em 1992 por um amigo suíço Roland Bartsch e especializada na realização de cursos na área preventiva e de bem-estar, com destaque para atividades como ginástica aquática, Aqua-Fit, Indoor Cycling e o método Feldenkrais de educação somática. Sua experiência como atleta profissional de alto rendimento, somada à sua formação acadêmica em Educação Física pela UERJ, foi a base para gerenciar as operações da empresa, coordenar equipes de instrutores, desenvolver programas de treinamento e garantir a qualidade dos serviços oferecidos. Essa longa passagem consolidou ainda mais sua reputação no setor de bem-estar, saúde e esporte na Suíça, mostrando sua versatilidade para transitar entre diferentes áreas — do espetáculo das quadras à gestão de negócios no segmento de atividades físicas.
EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO CULTURAL
Versátil, Alexandre diversificou ainda mais sua atuação ao trabalhar na Escola ECAP Formazione, em Berna, exercendo as funções de Professor e Tradutor (1998–2010). A ECAP é uma das instituições mais importantes da Suíça voltadas para a formação contínua, educação de adultos e integração de migrantes, e o trabalho de Maestrini ali antecipava sua futura dedicação ao ensino de idiomas e à mediação cultural. Ele ensinava português para suíços, além de atuar como tradutor em projetos comunitários. Essa experiência aprofundou seu conhecimento sobre como a língua e a cultura são fundamentais para a integração e a convivência, temas que seriam centrais em suas pesquisas futuras. Trabalhar com pessoas de diferentes origens reforçou sua convicção de que preservar a história e a memória é essencial para construir sociedades mais justas e unidas.
O RETORNO AO BRASIL E A ATUAÇÃO NA GESTÃO PÚBLICA
Em 2010, após duas décadas de residência na Suíça, Alexandre Maestrini retornou em definitivo para o Brasil, escolhendo sua cidade natal Juiz de Fora como sua residência permanente, mas mantendo forte atuação em Belo Horizonte e outras regiões de Minas Gerais. Sua bagagem internacional e sua especialização em Gestão Esportiva pelo Comitê Olímpico Suíço, aliadas ao curso de preparação para dirigentes do COB, rapidamente o credenciaram para atuar na administração pública e na coordenação de grandes projetos estatais.
Alexandre deu seus primeiros passos no mercado de trabalho brasileiro na iniciativa privada e, no ano de 2011, assumiu o cargo de Gerente Comercial na Faculdade Estácio de Sá de Juiz de Fora, onde foi responsável pelo desenvolvimento de novos negócios, pela expansão da marca na região e pela gestão de equipes comerciais. Essa experiência no setor educacional privado foi fundamental para que ele compreendesse as especificidades do mercado brasileiro, aplicasse suas habilidades de liderança e gestão adquiridas na Europa e reconstruísse sua rede de contatos no país, após duas décadas vivendo no exterior.
Bem preparado durante anos, foi contratado como Assessor Especial do gabinete do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, para ,entre 2011 e 2014, ser o Coordenador de Articulação Internacional e Coordenador do Plano de Operações e Mobilidade do Comitê Organizador da Copa do Mundo FIFA 2014 em Belo Horizonte. Sua capacidade de organização, logística e gestão de equipes foi fundamental para o sucesso da Copa das Confederações em 2013 e Copa do Mundo em 2014.
Ele também desempenhou um papel central na implementação e operação do Centro Integrado de Comando e Controle (COP) na capital mineira, aplicando sua expertise logística e de gestão de processos adquirida na Europa. O COP é uma estrutura que reúne diferentes órgãos para coordenar ações em situações de emergência, grandes eventos e segurança pública, e sua atuação foi decisiva para estruturar o funcionamento eficiente do sistema. Sem perder o contato com a universidade, no campo acadêmico, entre 2013 e 2014, foi Professor da Pós-Graduação em Gestão Esportiva na PUC Minas, em Belo Horizonte.
A DOCÊNCIA E O PROFESSOR DE ALEMÃO NO INSTITUTO AUTOBAHN
Paralelamente ao seu retorno a Juiz de Fora, sua vida pessoal e familiar trouxe novos desdobramentos profissionais. Casado com a alemã Christine Müller Hill Maestrini, natural de Munique e com mestrado em matemática pela Universidade TU-Berlin, Alexandre uniu sua vivência de vinte anos na Europa de língua alemã à sua paixão pela educação e à sua própria herança familiar.
Em 2014, sua esposa tinha fundado o Instituto Autobahn – Cultura Alemã de Juiz de Fora, com o objetivo de difundir a língua, a cultura e as tradições germânicas na região. Christine foi a idealizadora do instituto, sendo hoje a responsável educacional. Alexandre atua como professor de alemão na instituição. Nas salas de aula do Instituto Autobahn, “Alex” (com acento no A, como ficou conhecido por seus alunos) tornou-se uma figura célebre por sua metodologia dinâmica e envolvente de ensino. Utilizando técnicas expressivas, mímicas corporais, jogos e atividades práticas — habilidades desenvolvidas em seus tempos de treinador e educador físico — Maestrini consagrou-se pela capacidade de ensinar as estruturas complexas do idioma alemão para alunos iniciantes sem que eles se sentissem sobrecarregados, sendo famoso pelas mímicas para ensinar alemão aos iniciantes sem ter que falar português. Ele sempre ligava o aprendizado da língua à história, à cultura e à vida cotidiana, mostrando como o idioma reflete a forma de pensar e viver de um povo.
A CANDIDATURA A VEREADOR E O ENGAJAMENTO POLÍTICO
Em 2016, Alexandre Hill Maestrini lançou-se candidato a vereador em Juiz de Fora pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), mas obteve somente 584 votos e conquistou a terceira suplência. Depois disso o Instituto Autobahn tornou-se, o espaço onde ele investiu toda sua energia e pode unir todas as suas paixões: ensinar, pesquisar, preservar memórias e compartilhar conhecimento.
A OBRA LITERÁRIA E A PESQUISA HISTÓRICA
A nova fase da vida de Alexandre Maestrini, depois das quadras e da gestão, é marcada por uma produção intelectual rica, rigorosa e profundamente ligada à sua terra e às suas raízes. Suas obras não são apenas livros: são verdadeiros trabalhos de pesquisa científica, que envolvem arquivos, documentos, entrevistas, viagens e dedicação de anos.
Em 2015, lançou o livro Cerveja, Alemães e Juiz de Fora: A história do Polo Cervejeiro de Juiz de Fora, considerado referência na história econômica e cultural da cidade. A ideia surgiu de uma curiosidade pessoal: ao pesquisar sobre seus antepassados, ele descobriu que muitos imigrantes alemães que vieram para a região trabalharam ou fundaram cervejarias. A partir daí, começou a investigar a fundo a relação entre a imigração alemã e o desenvolvimento da indústria cervejeira local.
O livro detalha a história de todas as cervejarias que existiram em Juiz de Fora desde o século XIX — mais de oito marcas diferentes —, suas fundações, donos, produtos, importância econômica e cultural, além de registrar o renascimento atual das cervejarias artesanais. Ele entrevistou dezenas de cervejeiros, pesquisou arquivos públicos e privados, jornais antigos e documentos familiares, e mapeou como essa atividade ajudou a construir a identidade da cidade. Mais do que falar de cerveja, a obra conta a história de como os imigrantes trouxeram técnicas, conhecimentos e cultura, e como se integraram, transformando e sendo transformados pela terra que escolheram para viver.
Em 2018, lançou sua obra mais pessoal e emocional: Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, um diário imaginário de seu tetravô Franz Hill, que chegou ao Brasil em 1858, vindo de Wendelsheim, região da Renânia Palatinada, na Alemanha. Publicado em homenagem aos 160 anos da chegada dos colonos alemães em 12 de junho de 1858 na então Santo Antônio do Parahybuna (atual Juiz de Fora), o livro assume a forma de um “diário imaginário escrito em 1858 por seu tetravô alemão Franz Hill e entregue a ele em 2016 através do canal atemporal da consciência coletiva”.
Alexandre passou mais de três anos pesquisando, traduzindo, anotando e contextualizando cada página. O livro traz o relato detalhado da viagem, das dificuldades, das expectativas, dos primeiros anos na colônia, das relações com outros imigrantes e com a população local, e da construção de uma nova vida em terras brasileiras. A obra é um documento histórico de valor inestimável, que permite entender não apenas a história de uma família, mas a história de milhares de pessoas que ajudaram a construir o Brasil.
Lançado em 3 de setembro de 2021, o livro Lindolfo Hill - um outro olhar para a esquerda, é uma obra biográfica e histórica resgata a trajetória de seu tio-avô Lindolfo Hill (1917-1977) , uma das figuras mais importantes e, por muito tempo, esquecidas da política de Juiz de Fora e de Minas Gerais. Lindolfo foi pedreiro de profissão, líder sindical dos trabalhadores da construção civil, membro do Comitê Central do PCB e delegado ao primeiro congresso da Federação Mundial dos Sindicatos em Paris em 1945. Foi o primeiro vereador eleito pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) na cidade de Juiz de Fora, para a legislatura de 1947-1950. Seu mandato, no entanto, foi cassado arbitrariamente após o Governo Eurico Gaspar Dutra decretar a ilegalidade do PCB e encerrar suas atividades.
Alexandre Maestrini passou quatro anos pesquisando arquivos, jornais, documentos partidários e depoimentos de familiares e contemporâneos para reconstruir essa história. O livro não conta apenas a vida de Lindolfo, ele analisa a organização do partido na região, o contexto nacional e internacional, as perseguições sofridas e a importância das ideias de esquerda para o desenvolvimento social e econômico de Juiz de Fora. A obra defende, inclusive, a reparação simbólica do mandato de Lindolfo Hill pela Câmara Municipal, como forma de reconhecimento histórico. Para sucesso de Maestrini, em 2022/2023, a Câmara Municipal de Juiz de Fora aprovou e oficializou a reparação simbólica, reconhecendo seu mandato como válido e legítimo, inserindo seu nome na galeria de vereadores da cidade e incluindo sua biografia nos registros históricos da Casa.
Em 2022, Maestrini surpreendeu público e crítica ao lançar seu quarto livro Arte Sutil – Adeus Borboleta Azul, uma obra totalmente diferente das anteriores: uma coletânea de lembranças e reflexões, escrita em homenagem à mãe Marilda Helena Hill Maestrini, falecida em 2021. Diferente das obras de pesquisa histórica, este livro é mais íntimo, mais pessoal e mais lírico. Alexandre absorveu a disciplina que a mãe lhe ensinou e essa memória afetiva é a raiz deu impulso ao seu desejo investigativo. Aqui, ele fala de suas experiências com a mãe, mas também da saudade, das perdas, das mudanças e da beleza dos momentos simples. A “borboleta azul” é uma metáfora recorrente: representa sonhos, juventude, esperanças e tudo aquilo que é belo, mas que um dia se vai ou se transforma.
Sua obra mais recente, Nossas Riquezas Pretas – Biografias Afro-juizforanas, lançada em outubro de 2025, representa um desdobramento natural de seu trabalho de preservação da memória, mas com um olhar voltado para uma parte da história que sempre foi pouco contada: a contribuição da população negra para o desenvolvimento de Juiz de Fora. O projeto surgiu da constatação de que, embora a cidade tenha uma forte herança africana, poucos nomes e histórias eram conhecidos ou lembrados.
Durante cinco anos, Alexandre pesquisou sozinho em arquivos, cemitérios, jornais, registros civis, documentos de igrejas e fez 54 entrevistas com personalidades negras de sua cidade natal. O resultado é um livro com 54 biografias completas que marcaram a história da cidade nos dias de hoje, atuando em áreas como educação, saúde, política, arte, religião, esporte, comércio e serviços. Cada perfil conta a trajetória, as dificuldades enfrentadas, as conquistas, o legado deixado, a luta por direitos e a formação da comunidade negra juizforana.
Alexandre Maestrini é um idealista e autor da contextualização do projeto antirracista em sua cidade natal. A obra foi lançada com grande evento no anfiteatro do Mercado Municipal de Juiz de Fora, com lotação máxima, e o autor agradeceu publicamente às 54 personalidades “que abriram seus corações e compartilharam suas histórias, lutas e conquistas”. O objetivo principal é combater o racismo estrutural, dar visibilidade e mostrar que a riqueza cultural, econômica e social da cidade também foi construída com a força, o talento e a sabedoria do povo negro.
O LEGADO MULTIFACETADO DE UM INTELECTUAL DO ESPORTE
Ao analisar a vasta gama de serviços prestados por Alexandre Müller Hill Maestrini, fica evidente que o fio condutor de toda a sua trajetória é a capacidade de aplicar metodologias rigorosas de organização, estudo e dedicação a diferentes áreas do conhecimento e da sociedade.
Nas quadras de vôlei como jogador profissional, ele aplicou disciplina, estudo e trabalho árduo para chegar ao topo, conquistando títulos nacionais de base — campeão brasileiro juvenil por Minas Gerais nos JEBs e campeão brasileiro pela Seleção do Rio de Janeiro — que foram os alicerces de sua carreira internacional. Ainda como juvenil, foi campeão do interior pelo Sport Club de Juiz de Fora, sendo destaque da competição e promovido à equipe adulta, o que lhe deu a confiança e a visibilidade necessárias para os voos mais altos que viriam. Na Itália, além de atuar como central no Pallavolo Belluno, também disputou torneios de vôlei de praia, ampliando seu repertório técnico e sua capacidade de adaptação a diferentes formatos de competição. Na efervescência acadêmica da UERJ, uniu teoria e prática para compreender profundamente o esporte. Sob a pressão internacional da Universíada de Zagreb, mostrou coragem, inteligência e espírito de equipe. No comando técnico de equipes da Liga Nacional da Suíça e do Liechtenstein, provou ser líder, estrategista e gestor completo.
No mercado corporativo e de tecnologia, adaptou-se rapidamente, usou suas habilidades de organização e gestão para alcançar resultados, sem deixar de lado sua paixão pelo esporte, que o manteve atuante por 12 anos como gerente da Aquafortissima, uma empresa de bem-estar e atividades físicas sediada em Berna, na Suíça. De volta ao Brasil, na administração pública, colocou sua experiência internacional a serviço do desenvolvimento de sua terra, não sem antes passar por uma experiência no setor privado como Gerente Comercial na Faculdade Estácio em Juiz de Fora, que o ajudou a se reinserir no mercado brasileiro. Como professor de alemão, transformou o aprendizado em uma experiência cultural e humana. E como pesquisador e escritor, dedicou anos de vida a resgatar histórias, preservar memórias e dar voz a quem por muito tempo foi silenciado — seja a imigrantes alemães, a líderes políticos perseguidos, a artistas e pensadores, ou à população negra, cuja história é fundamental para a identidade nacional.
São exatamente as mesmas qualidades — rigor, curiosidade, ética, respeito e paixão — que ele emprega ao manusear manuscritos antigos, ao interpretar documentos históricos, ao ensinar um novo idioma ou ao escrever suas obras. Ele não apenas registra fatos: ele os interpreta, os contextualiza e os transforma em conhecimento vivo, que dialoga com o presente e projeta o futuro.
Maestrini demonstra, com sua própria vida, que o esporte de alto rendimento e a formação intelectual sólida não são caminhos opostos ou impedimentos, mas complementares. Ambos constroem trajetórias perenes, capazes de gerar um legado cultural duradouro para as futuras gerações. Ele é um exemplo raro de como um atleta pode se transformar em intelectual, de como o suor da quadra pode se transformar em páginas de história, e de como uma vida dedicada ao conhecimento pode iluminar o passado e inspirar o futuro.
Hoje, Alexandre continua ativo: leciona no Instituto Autobahn, pesquisa, escreve, publica e colabora com o portal RCWTV, onde mantém uma coluna regular. Sua história mostra que não há limites para o que uma pessoa pode realizar quando se tem disciplina, curiosidade e amor pelo que se faz. E, acima de tudo, ensina que preservar a memória é a melhor forma de construir o futuro.
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