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Domingo, 14 de Julho de 2024
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Ana Torquato – Quebrando as Correntes dos Ancestrais

Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora #013

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
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Ana Torquato – Quebrando as Correntes dos Ancestrais
Ana Paula Torquato
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Você já sentou com uma pessoa negra para ouvir a história que ela têm para contar? Este projeto tem como objetivo destacar os expoentes negros do município de Juiz de Fora e legar exemplos positivos de sucesso de pessoas pretas para as futuras gerações. A reportagem #001 foi sobre Carina Dantas, a #002 foi com Antônio Carlos, a #003 com Geraldeli Rofino, a #004 com Sérgio Félix, a #005 com Fernando Eliotério, a #006 com Maurício Oliveira, a #007 com Ademir Fernandes, a #008 com Gilmara Mariosa, a #009 com Batista Coqueiral, a #010 com Cátia Rosa, a #011 com Eliane Moreira, a #012 com Antônio Carlos da Hora e agora é a vez de Ana Torquato.

Por Alexandre Müller Hill Maestrini

Ana Paula Torquato era uma menina sonhadora e teimosa, foi uma moça curiosa e hoje uma mulher corajosa, determinada e que ama descobrir novas possibilidades através do aprendizado. Uma mulher que sabe que pode, de grão em grão, contribuir para um mundo melhor através de suas ações. Ela é membro da Academia de Letras da Manchester Mineira em Juiz de Fora, formada em Administração de empresas, é bacharel em Ciências Humanas e pós graduada em Gestão de Pessoas. Mas não foi um caminho fácil, Ana Paula Torquato nasceu no ano da nova constituição cidadã, como filha única de Lúcia em Juiz de Fora no dia 14.03.1988 e viu a luz do mundo na maternidade da Santa Casa de Misericórdia. Ana nunca chegou a conhecer o pai e infelizmente Lúcia se tornaria mãe solteira, já que seu pai biológico disse que: "não poderia estragar a vida dele assumindo a responsabilidade de pai e marido”. Mas nada disso abalou a mãe, como ela já vivia em uma família grande, e muito unida no bairro Borboleta, a avó Izabel, os tios e as tias Néia e Fá acolheram a pequenina Ana, que por sorte acabou sendo criada por quatro mulheres admiráveis. Foram elas a maior inspiração de Ana, por toda a garra, coragem, determinação e amor que demonstraram na criação da menina.

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Da esquerda pra direita na foto acima as raízes: sua tia Néia, sua mãe, no centro sua avó materna e sua tia Fátima: “Mulheres, pretas e fortes”. Quando ela nasceu o seu avô materno já havia falecido, por isso a genealogia dela é toda feminina e ancestral. O pouco que Ana sabe de seus antepassados foi conversando com sua avó materna: “não conheço minha genealogia, mas sei que minha bisavó materna nasceu poucos anos após a abolição da escravidão”, pela tradição oral soube que a avó vivia em uma fazenda e que posteriormente constituiu uma família e ficou morando por lá. Esse veio de ancestralidade Ana Torquato fluiria mais tarde em suas poesias. Suas influências estavam todas dentro de casa com sua avó sempre lhe mostrando que “o amor é a fonte”, pois ela era uma jovem viuva que criou todos os filhos sozinha: “foi ela quem me mostrou que não devemos desistir dos nossos sonhos”. Sua avó realizou um sonho de menina e aos 60 anos foi estudar e se alfabetizar. Já a mãe de Ana, com muita coragem e força superou todo o tipo de humilhação. Suas tias mostraram para ela exemplos de esperança, paciência e muita união. Mas quando ela tinha 02 anos a família se mudou para o bairro Bandeirantes e a mãe foi trabalhar em um bar. Com quatro e cinco anos Ana teve a oportunidade de estudar em uma escola particular, a Escola da tia Neivinha e aos seis anos foi para a Escola Municipal Fernão Dias Paes, onde estudou até a oitava série. Ela contou que sua mãe começou a trabalhar com onze anos como empregada doméstica e sempre dizia para ela estudar para que pudesse “ser alguém na vida”. Esse era o pensamento da mãe: “como se ela mesmo não fosse alguém”, contestou. Com o apoio das mulheres, Ana sempre foi muito boa aluna, gostava de estudar, não faltava aulas e sempre determinada a tirar as maiores notas no boletim. Nessa época ela infelizmente já ouvia apelidos pela cor da sua pele, mas ainda não tinha consciência que tudo era sobre "cor da pele". Esforçada se tornou representante de turma, fez muitas amizades e era muito participativa. Ana amava as aulas de artes e estava envolvida em todas as aulas de dança, ensaios, apresentações e participar de tudo o que era possível na escola. Aos 10 anos de idade, depois de ver gente matando bichos, se tornou vegetariana e parou de comer carne para a surpresa da família.

Aos catorze anos Ana iniciou o ensino médio no bairro próximo, na Escola Estadual Sebastião Patrus de Souzap. Ela já estava pensando no vestibular e o que faria da vida quando terminasse os estudos. Durante esse período ela já trabalhava dando aulas particulares para vizinhos e colegas de sala e se orgulha de ter participado a alfabetização de uma moça: “ajudei a ela a unir suas primeiras sílabas e ler as primeiras palavras”. Assim ela ia juntando o dinheiro pra poder sair nos finais de semana. Ana trabalhou também como manicure e durante muito tempo, mesmo com o pouco salário da mãe como empregada doméstica, ela ganhava uma mesada pequena, mas sentia que precisava fazer algo a mais. Determinada, aos 15 anos, recebeu o convite para trabalhar em uma bomboniere e ali foi seu primeiro emprego. Como é normal em muitas famílias pobres, estudava de manhã e trabalhava na parte da tarde. Nesta época aproveitou e fez diversos cursos profissionalizantes pensando em conseguir melhores oportunidades no mercado de trabalho. Nas festas juninas apesar de ter dançado todos os anos, Ana era uma das últimas a ter um par, pois: “não era a criança com quem alguém queria dançar” e ela acabava dançando com um menino que "sobrou" também. Depois que trocou de escola Ana teve o mesmo par durante três anos seguidos: “eu sentia falta de ver uma menina preta como noiva da festa junina; mas nunca vi”.
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As histórias se repetem: “um dia disseram pra minha mãe que pela cor, ela não teria outro destino a não ser trabalhar em casas de família”. Ana também escutou com tristeza o comentário que: “eu teria duas opções ser professora ou trabalhar em casa de família”, mas determinada a quebrar as correntes foi fazer administração pra fugir desse carma. Mesmo já cursando a faculdade, “as patroas da minha mãe ainda perguntavam se a filha também já fazia faxina”. Mas Ana estava muito determinada a fazer diferente: “Eu e uma amiga fomos ao melhor cursinho da cidade pedir desconto baseado na nota do Enem e por nossa condição financeira; conseguimos!”. Com o salário que ganhava e com a ajuda da minha família, pagava metade do cursinho que me levaria a graduação. Com uma bolsa parcial do ProUni iniciada em 2008 e sempre trabalhando e estudando, em 2014 ela se tornou Bacharel em Administração de Empresas, no Instituto Vianna Junior, faculdade que tinha a Certificação da Fundação Getúlio Vargas. Neste período a percepção de sua condição de pobre e negra foi aumentando: “as realidades eram totalmente diferentes”, muitos ali estudavam pra assumir a empresa da família e Ana era a primeira pessoa da família com um diploma de graduação.

As diferenças não paravam por aí e Ana teve dificuldades pra conseguir estágio durante a faculdade, pois a cor da pele começava a falar mais alto do que o currículo dela. Decidida, ela foi batendo de porta em porta, entregando currículos em busca de oportunidades e começou a ver uma luz no fim do túnel. Aos poucos algumas vagas começaram a surgir até a formatura. Foi nas adversidades e com muita facilidade pra escrita Ana se enxergou como uma poeta: “e nesse meio do caminho entre subidas e descidas que eu publiquei meu primeiro livro”. Após alguns anos de formada, decidida, Ana resolveu fazer uma pós-graduação e foi também aprovada na graduação para a UFJF: “segui com os dois em paralelo, após dois anos tive o certificado da pós e da graduação”. De 2016 a 2018 ela estudou e concluiu uma Especialização em Gestão de Pessoas pela Universidade Católica Dom Bosco. De 2016 a 2019 se dedicou e se tornou também Bacharel em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Além disso, Ana Torquato concluiu uma Licenciatura em Filosofia, realizando um velho sonho. Hoje, além de poeta, Ana trabalha com treinamento no time de Gente e Gestão.

Ela confessou que – superando tudo – é uma apaixonada pela vida: “apesar de toda a dureza que vemos milhares de pessoas passando, a realidade é cruel demais, porém viver, vibrar, sonhar e realizar é gratificante”. Hoje sua luta é mostrar através do seu exemplo que cada ser pode ser o que quiser ser e escreveu um poema intitulado “O melhor de cada um”, confira. Assim, com palavras e poesia, Ana luto para que as pessoas percebam que: “elas podem ser sim o sonho que elas sonharam e que ninguém pode dizer que é impossível”. Um belo dia Ana foi incentivada por uma amiga que publicasse seu primeiro livro: “eu tinha pedido para ela revisar meus primeiros cinquenta poemas e ao conhecer meus escritos ela me perguntou por que você não lança um livro?”. E aquele seu sonho “que estava latente” em seu inconsciente virou realidade. Mas ela não parou no seu primeiro livro, a poeta Ana Paula Torquato tem hoje três livros publicados individualmente (foto abaixo): em 2015 seu primeiro livro de poesias “O ter e o ser”, em 2017 publicou o livro “Se unem, mas nem sempre se sentem” pela Editora ‏Clube de Autores e em 2022 a obra “Essência: menina, mulher, preta”, que ganhou a medalha de terceiro lugar no Prêmio Ecos da Literatura. Foi ao publicar seu primeiro livro, que Ana pode visitar escolas públicas e privadas e viu alunas encantadas com ela: “elas viam em mim uma escritora, com história parecida com as delas e que de algum modo se sentiram esperançosas” com uma possibilidade pra elas próprias: “acho que ajudei que continuassem na busca dos seus ideais”. Esse é o jeito especial de Ana Torquato para combater o racismo, continuar aprendendo, escrevendo e partilhando, pois através da sua escrita e da fala atingir e alcançar o maior número de pessoas possíveis: “quando vejo o brilho nos olhos, eu sei que estou conseguindo em um trabalho de formiguinha movimentar a estrutura social”.

Em dezembro de 2018 foi escolhida para fazer parte da ilustre Academia de Letras da Manchester Mineira – ALMM (foto abaixo). Homenagem merecida, pois Ana tem também participação com contos e poesias em mais de 15 Coletâneas, premiação em concursos e participação na instituição literária Liga dos escritores, ilustradores e autores de Juiz de Fora - LEIAJF. Logo em 2019 foi premiada com o primeiro lugar em um concurso nacional de poesias. Premiada com 1º Lugar no 7º concurso literário Pague Menos – Tema: “Amor é o que nos faz gigantes”. Ana foi finalista no Concurso Café com Poesia da Vimi – Vimi Café Gourmet. É membro do Grupo Café Com Poesia (e Arte). Para a poeta se tornar escritora é um processo, que vem se constituindo a cada livro que publica, a cada encontro com leitores e palestras que participa. Ana escreveu a poesia “O melhor de cada um” (veja vídeo) em 2020. O poema foi publicado na Coletânea Juiz de Fora ao Luar - segunda edição, aqui resumido: “Explore / Explorando / Sem ser / Explorado / Explore / O seu é diferente / Do outro, / Mostre o seu, …“ Ela escreveu também a poesia “Ainda carrego as correntes soltas dos meus ancestrais” (veja vídeo) com palavras fortes e ilustrando a dor do racismo presente no Brasil, aqui resumido: “Ela faz barulho / quando entro em lojas, em bairros centrais / quando caminho por praias / quando sento na primeira classe no avião / quando entro em um restaurante / quando me hospedo em hotéis 5 estrelas / Minhas correntes ainda fazem barulho / … ao dizer que sou a proprietária! / … isso que acontece quando as correntes fazem barulho, e julgam pela cor / não agem de cor(ação) / e sim de (re)ação… / como se nós fossemos a ação / … ainda carrego as correntes na minha pele! / Eu…”. Muito procurada para entrevistas e conselhos, ela tem uma bela entrevista onde dá dicas de leitura como alternativas para o carnaval.

Perguntada sobre a história de Juiz de Fora, Ana Torquato lamentou que Juiz de Fora seja cidade do "QI", isto é, do “Quem Indica”. Ela viveu “na pele” uma cidade baseada em relações, um município muito conservador e preconceituoso, pois ela passou por um longo período tentando se encontrar no meio de um racismo estrutural, procurando entender o que acontecia com ela. Ana precisou enfrentar tudo e não desistir diante de cada “não”, cada “negativa”, cada “olhar torto”. Antes de participar de um movimento de valorização dos negros, ela precisou se enxergar por dentro primeiro para depois poder olhar pra fora. Ana conseguiu trilhar um caminho diferente, abraçou as oportunidades que lhe apareceram em todas as etapas de sua vida: “mas não foi suficiente pra eu ser validada, como alguém capaz”. Ela não tinha quem a indicasse e quantas vezes alguém precisou dizer por mim: “quem eu era” e assim avaliza a sua presença e a sua fala: “porque eu, uma mulher preta, não bastava”. Nas suas poesias ela retrata que “a cor da pele grita, em lojas, em espaços, em ambientes, no trabalho e até em uma consulta médica”. No seu canal do YouTube Ana Paula Torquato descreve que no Brasil a maneira como vai ser tratada depende de quem você é: “já se desculparam comigo por me confundirem com a vendedora de livros, e não a autora; me julgaram como aprendiz, e não enxergaram a profissional, e o pior, já banalizaram minha alergia dizendo que na pele negra é assim mesmo”. Ana lamenta que a visão que as pessoas carregam ainda é construída e materializada pela história nacional racista, onde é “natural” que uma pessoa preta ocupe posições inferiores e incapazes de estarem em evidência. Ana lembrou que também em Juiz de Fora a história está repleta de oportunidades para uns e para outros não. Querendo se posicionar na sociedade, Ana por muito tempo tentou parecer com o que era considerado “mais bonito”, foi preciso se olhar melhor no espelho e sentir algo mudando. Ela precisou externar o que sentia: “e isso refletiu em assumir o meu cabelo”. A questão capilar era a sua força e o seu amor-próprio eclodindo, ela percebeu que agora a Ana estava pronta pra “ser” e pronta pra encarar o mundo de cabeça erguida. Mas Ana Paula Torquato ainda carrega as correntes na sua pele, “que ela vai quebrando aos poucos” para um Brasil melhor.

Receba notícias da RCWTV no Whatsapp e fique bem informado! Na sequência pretendo ainda publicar muitas entrevistas com Rita Felix professora e escritora, Giane Elisa presidente da Funalfa, Jucélio Maria vereador, Negro Bussola empreendedor social, Reginaldo Barbosa Lixarte, Denilson Bento escritor, Angela Maria Lopes Livraria Ca D’Ori, Paulo César Magela redator-chefe da TM, Paulo Zacarias presidente do MNU, Martvs Chagas secretário, Valquiria Marcia Tiodoro, Júlio Black jornalista, Paul Almeida professor, Marcony Coutinho MNU, Osvair batuque, Roberto Belfort, Mariano Batuque e Régis da Vila samba, etc.

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Alexandre Müller Hill Maestrini

Publicado por:

Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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