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Segunda-feira, 17 de Junho de 2024
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Geral

Claudio Quarup – Inspirando Pessoas através dos Livros

Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora #044

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
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Claudio Quarup – Inspirando Pessoas através dos Livros
Claudio Luiz da Silva
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O objetivo dessa série é dar visibilidade para aqueles que a sociedade sempre tentou tornar invisíveis. Assim nasceu a série Nossas Riquezas Pretas de Juiz de Fora. Este aqui é o #NossasRiquezasPretasJF, um projeto antirracista do Instituto Autobahn que visa destacar os expoentes negros do município de Juiz de Fora e legar exemplos positivos de sucesso para as futuras gerações. Iniciado em 2023 com o formato de coluna na RCWTV, a reportagem #001 foi sobre Carina Dantas, #002 Antônio Carlos, #003 Geraldeli Rofino, #004 Sérgio Félix, #005 Fernando Eliotério, #006 Maurício Oliveira, #007 Ademir Fernandes, #008 Gilmara Mariosa, #009 Batista Coqueiral, #010 Cátia Rosa, #011 Eliane Moreira, #012 Antônio Hora, #013 Ana Torquato, #014 Alessandra Benony, #015 Sil Andrade, #016 Joubertt Telles, #017 Edinho Negresco, #018 Denilson Bento, #019 Digo Alves, #020 Suely Gervásio, #021 Tânia Black, #022 Jucelio Maria, #023 Robson Marques, #024 Lucimar Brasil, #025 Dagna Costa, #026 Gilmara Santos, #027 Jorge Silva, #028 Jorge Júnior, #029 Sandra Silva, #030 Vanda Ferreira, #031 Lidianne Pereira, #032 Gerson Martins, #033 Adenilde Petrina, #034 Hudson Nascimento, #035 Olívia Rosa, #036 Wilker Moroni, #037 Willian Cruz, #038 Sandra Portella, #039 Dandara Felícia, #040 Vitor Lima, #041 Elias Arruda, #042 Bruno Narciso, #043 Régis da Vila, e agora é a vez de Claudio Quarup.

Por Alexandre Müller Hill Maestrini

Claudio Luiz da Silva é o ‘próprio livro em Carne e Osso’. Com mais de 45 anos dedicado à carreira de livreiro e mais de 30 anos dedicados à Livraria Quarup Antiquaria, ele é hoje, aos 68 anos, um empresário de sucesso. Em conversa com ele em meio aos mais de 60 mil livros (foto da capa), logo se percebe que ele é predestinado para essa função, pois tem verdadeira paixão pelas ‘jóias de papel’ e um pouquinho de conhecimento sobre todos os assuntos e uma memória incrível. Quem vai tomar um cafezinho com Claudio sai de lá relaxado, pois a calma, a moderação e a modéstia são suas características marcantes. Como um verdadeiro generalista e ‘gentleman’, ele ajuda a achar o livro que o cliente-leitor deseja. Entre uma citação e outra filosofia de vida, Claudio se enxerga como um ‘Self-made man’ realizado, um homem que se faz e se permite transformar a cada dia: “estou sempre pronto para um bate-papo enriquecedor”, sorriu.
Mas a trajetória Claudio não foi fácil. Nasceu em 26.02.1956 no bairro Serrinha (hoje conhecido como Dom Bosco) em uma casa simples num terreno com terra batida, onde estava sempre desenhando e escrevendo no chão: “brincávamos no meio do mato, buscávamos água na mina e subíamos em árvores”, e acrescentou que desde pequeno já gostava de ler revistinhas em quadrinho e livros, por isso acredita que se tornou um pesquisador ‘livre pensador’ da história social do livro, da Bibliologia, da leitura, da escrita e da História da Literatura.

Claudio é o filho mais velho entre os sete irmãos: “hoje todos com curso superior”. O pai Vicente José da Silva (foto acima do centro com o pandeiro), nascido em 1933 em Tabuleiro do Pomba – MG; semi-analfabeto, veio para Juiz de Fora em busca de melhores condições e foi trabalhar na Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) como carregador de trilhos e dormentes, mas o trabalho era pesado: “quase todos negros, pois eram mão de obra barata, recém-saída da escravidão”, lamentou. Mas seu pai se desentendendo com o ‘feitor’ se tornou pedreiro e mestre de obras por necessidade: “papai era também músico amador, ritmista e percursionista do grupo do Armando Toschi (Ministrinho com o violão na foto acima)”, contou Claudio. Ele ainda pequeno com seus poucos 9 ou dez anos era quem carregava as marmitas para o pai e outros ajudantes nas obras: “nessa época eu já notava que a maioria era negra, desdentada, malvestida e mal nutrida. Já comecei a pensar como fazer par ajudar um pouco”.
Os avós paternos, Pedro Calixto da Silva e Maria José da Silva, eram lavradores em Tabuleiro do Pomba – MG e trabalhavam duro nas fazendas de grandes cafeicultores (foto acima da esquerda com eu tio de Claudio, Inácio José da Silva). Vieram para Juiz de Fora em busca de vida melhor: “os filhos já estavam na cidade polo da Zona da Mata, mas chegaram numas das cidades mais escravocratas do Brasil no passado e ainda racista naturalizado no presente”. Ele se lembrou que foi o pai dele quem trouxe os avós para o bairro Dom Bosco. Mas os avós, todos negros, foram depois para um lote que ganharam no bairro Furtado de Menezes. Quando os avós vieram em 1970, eles já tinham mais de 70 anos: “isto é, eles nasceram antes da virada do século”.

Pequenininho, Claudio já tinha aprendido a ler e escrever no papel de pão que sobrava em casa e frequentava o Grupo Escolar Fernando Lobo, no bairro São Mateus. A mãe Gení Pinto da Silva (carteira de identidade acima), nascida em 1939 no bairro Serrinha, em Juiz de Fora – MG, trabalhou como lavadeira para ajudar nas finanças da família e: “eu já carregava muita troucha de roupa que a mãe lavava”. Nessa época já economizava as moedas que ganhava do pai e da mãe para comprar livros. Além disso com apenas onze anos já começou a trabalhar na Mercearia Bom Pastor com o Sr. Zé: “com o que eu ganhava eu ajudava em casa, ia ao cinema no antigo Cine São Mateus e um pouquinho eu guardava para comprar livros e revistas em quadrinhos”, sorriu. Na escola Claudio despontou como apreciador de livros e foi nomeado responsável pela recém-criada Biblioteca Lima Barreto: “eu lia tudo que podia”.

Ele contou que: “meus bisavós certamente foram escravizados, mas nunca contaram nada sobre a escravidão”. Dos bisavós paternos Claudio só chegou a conhecer pessoalmente a bisavó ‘Dindinha’, negra brincalhona e irreverente: “conta-se que ela gostava de passar o dedo com cachaça nos lábios dos filhos e netos para dormirem logo”, sorriu. Do lado materno ele só conheceu o avô José Francisco Pinto e a avó Jovita Moreira no bairro Serrinha: “eram todos negros, mas eu convivia mesmo era com meus tios paternos, todos muito ligados à música”. Com relação à negritude, Claudio relatou que o consideram um dos melhores livreiros negros do Brasil: “nas eu não considero isso um elogio, pois reduzem minha capacidade à cor da minha pele. Gostaria que me considerassem simplesmente um dos melhores livreiros do Brasil, sem citar a cor da pele”.
Desde os seus 13 anos, como menino negro e periférico, Claudio sempre esteve antenado nas questões sociais: “como filho mais velho assumi a função de ajudar na criação dos irmãos mais novos e a responsabilidade só me fez bem”, confessou. Em 1970, ainda com 14 anos de idade escutava sobre os estudos sobra a escravidão e das etnias na Igreja do São Mateus: “ficamos sabendo do Movimento Black dos EUA, da valorização do negro enquanto cidadão e era nos bailes Black que aconteciam as conversas, coragem e autonomia”. Nas palavras do estiloso e elegante Claudio: “para acabar com o racismo estrutural será necessário primeiro formar as novas gerações, informando sobre o assunto, acolhendo e falar sobre a história ancestral dos negros”.

(Foto acima com os livros: Fernando Priamo). Mas ele tinha que trabalhar e ainda adolescente negro e periférico, aos 14 anos, Claudio se tornou operário da Cia. Fiação e Tecelagem São Vicente, que tinha sido fundada em 1966 e sediada no Bairro Alto dos Passos – atualmente Pátio São Vicente Bahamas. A vida do menino era dura: “eu pegava no emprego às cinco horas da manhã até 13 horas”, comentou a dificuldade vivida que ele acordava 03:45 horas na madrugada e ia caminhando para o emprego. A fábrica foi o primeiro emprego de muitos meninos negros e periféricos de sua geração: “parte do salário ficava com meus pais e também ajudava meus irmãos na compra dos materiais de escola”. Mas com sua paixão pelos livros e almanaques, Claudio começou também a trabalhar com coleções e enciclopédias a domicílio: “eu já vendia livros e as coleções das Enciclopédias Barsa e Delta Larousse por toda a cidade e ganhava uns trocados”.

Em 1975 Claudio continuou essa paixão livreira no Exército e quando deu baixa em 1978, queria sempre estar perto de livros: “um produto nobre de formação e diversão e que até consola as pessoas diante a seus problemas no dia a dia”. Sempre na luta de combate ao racismo, desde 1978 Claudio, com 22 anos, participou da primeira geração do Movimento Negro Unificado MNU e de diversas lutas sociais e culturais em Juiz de Fora: “a leitura me levou a ter esta consciência social, de classes e da negritude”, comentou. Militante do movimento negro desde os 15 anos de idade ele é considerado uma referência nos estudos a respeito da negritude: "acho que minha biblioteca pessoal sobre o assunto talvez seja a maior da cidade com quase dois mil exemplares sobre o negro, a escravidão e cultura Afro-Brasileira", lembrou. Ele integrou as entidades Quilombo dos Palmares e Grupo de Estudos Afro-Brasileiros (GEABA): “para mim somente a conscientização sobre as próprias raízes históricas, antropológicas e filosóficas permitirá uma completa libertação da raça negra”. (Vídeo abaixo)

Em 1979 foi trabalhar na Viviane Livraria & Papelaria, uma das maiores da cidade na época: “ficava na rua Marechal Deodoro e lá eu trabalhei durante seis anos e cheguei ao cargo de gerente”. De 1983 a 1989 foi convidado a trabalhar no Espaço Cultural Livros & Artes, um ponto de encontro da cultura juizforana: “tinha a livraria, o Cine-Teatro Humberto Mauro e a galeria de arte”. Nesse pólo de cultura e arte e trabalhando na livraria Claudio tinha contato com escritores, livros e artistas de Juiz de Fora. Ele sempre esteve ligado ao ‘negócio do livro’, e podemos dizer com tranquilidade que Claudio já possui quase quatro faculdades através do seu notório saber sobre a cadeia do livro. Em 1984, aos 28, se casou com Edna Santos de Oliveira, negra, e foram morar no Bairro Dom Bosco, onde o casal teve um único filho e hoje tem duas netas.
Em 1993 Claudio montou, no centro de Juiz de Fora, com o amigo Rogério Teixeira a Livraria Quarup, um nome inspirado no romance de Antônio Callado editado em 1967 ‘Literatura e realidade social em Quarup’. O nome da livraria foi escolhido pois: “estávamos conscientes do complexo de vira-lata do brasileiro criado por Nelson Rodrigues e resolvemos colocar um nome da cultura indígena nacional e Quarup é praticada pelos índios do Xingu, uma cerimônia genuinamente Brasileira” (confira a explicação no vídeo abaixo). Ele contou que desde o início receberam muitas doações de livros e também já ajudaram a montar muitas bibliotecas, é claro sempre de graça. No ano 2000 transferiram o ponto para uma casa na Rua Padre Café, 484: “na verdade uma casinha escondida e recuada do barulho e tumulto da cidade onde eu posso receber os amigos e clientes”. A entrada é estreita e discreta, mas nas paredes algumas obras de arte e fotografias de amigos e artistas decoram o ambiente cultural.

Entre livros, nos sentamos num cantinho de leitura para a entrevista e uma agradável supresa faz relaxar: “é o cheiro das páginas de papel por todo o lado e para um bom papo estou sempre aberto”, comentou. A Quarup também promove saraus, cantinho da leitura, cafés filosóficos e discussões sobre diversos assuntos: “busco conversar com quem aparece na livraria e do meu jeito tento passar toda a minha paixão pelos livros”. Claudio encara sua profissão como uma missão que cumpre um papel importante na sociedade: “consigo ajudar com muito prazer todo mundo que aparece procurando um livro específico”. Ele comentou que o livro leva a pessoa a entrar no mundo da imaginação e da sensibilidade: “do mesmo jeito que o cinema e as artes plásticas”, explicou.
Para Claudio o ato de ler e abstrair é sempre diferente a cada leitura: “bem como cada dia da vida é diferente, eu procuro fazer sempre que cada dia seja especial”. Com tanta vivência em meio aos livros, ele se sente completamente feliz e realizado e encara o livro físico não como um objeto puro e simplesmente: “o livro pra mim é como um fetiche de transformação pessoal”, confessou. Em 2001 Claudio recebeu a Medalha Nelson Silva, em 2003 recebeu da Câmara Municipal de Juiz de Fora a Moção de Aplauso nº 571, parabenizando pela promoção do Sarau literário ‘Informal Poético’. Em 2007 e 2009 a Prefeitura de Juiz de Fora nomeou Claudio como membro do Conselho Curador da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA). Em 2009 ele foi também designado para a Comissão Municipal de Incentivo à Cultura (COMIC/PJF) com mandato de dois anos. Em 2010 ele foi o entrevistado da Agência Camarim. (Vídeo abaixo)

Claudio confessou que aos poucos a internet foi facilitando o negócio de livreiro: “hoje vendo e envio para pessoas do mundo inteiro”, ele mantém desde 2008 cerca de cinco mil livros cadastrados na plataforma Estante Virtual, que reúne os principais sebos e antiquários do país. Mas a ideia inicial da Quarup era se transformar num ponto de encontro e não só vender livros: “na Quarup não tem balcão, a pessoa entra, senta, olha seus e-mails no computador, toma um café na cozinha e bate um papo”, ele acredita que a sofisticação da ideia está justamente na simplicidade: “somos uma casa com mais de 60.000 livros”.
Desde 2009 ele faz parte do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora como sócio bibliotecário até 2019. Com a mudança de estatuto e estrutura, a partir de 2020 Claudio foi o escolhido para ocupar a cadeira patronal n.º 37 de Nelson Silva, representando o fundador do grupo Batuque Afro-Brasileiro Nelson Silva que divulgava o movimento da cultura negra afro-brasileira na nossa cidade. Em 2022 Claudio foi eleito para a diretoria até 2025 na função de 2º Secretário.
A partir de 2016 Claudio se tornou um integrante da Comissão de Mérito da recém-criada Medalha Geraldo Pereira oferecida pela Câmara Municipal de Juiz de Fora e formado por representantes da diretoria da Associação Cultural Estação Palco, Câmara, Secretaria Municipal de Educação, Funalfa, UFJF, Instituto Histórico e Geográfico e das entidades do movimento artístico local. Em outubro de 2016 Claudio participou do Conselho do Mérito da Medalha Nelson Silva (criada em 1999) como representante do Instituto Histórico e Geográfico: “a Medalha Nelson Silva tem a sua relevância por revelar a Juiz de Fora e a toda região a luta do povo negro para garantir seu espaço na sociedade” (foto abaixo).

Em 2019 deu uma entrevista para Estevão Lopes Garcia, que criou um canal no youtube ‘Branco no Preto – gênero raça e classe’. Claudio acredita que a superação das injustiças sociais, do preconceito e da miséria são bandeiras nobilíssimas: “o único caminho para construir a auto-estima da população negra é conhecer a própria história e tradições”. Ele defende a tese da divulgação cultural também para a totalidade da sociedade brasileira: “tenho participado ativamente de programas de incentivo ao hábito da leitura”. Mais do que isso, ele já ajudou na formação das bibliotecas de várias escolas e entidades. Para ele o racismo e o preconceito são, acima de tudo, uma forma de ignorância. (Entrevista abaixo)

Claudio gosta muito do Martin Luther King e explica sua admiração: “no mundo moderno, ninguém desencadeou um movimento de desobediência civil de tal importância quanto ele, só com o poder da palavra e da presença”. Por isso estar ligado com os movimentos sociais é extremamente importante para o livreiro: “é preciso valorizar o impulsionamento que a gente dá pro mundo”. Na conversa, Claudio contou que é importante se pensar globalmente, mas agir localmente: “se cada um fizer um pouquinho no seu bairro ou local de trabalho o mundo vai ficando cada vez melhor”, comentou com sabedoria política e consciência social.
Uma coisa que Claudio lamenta é que ainda não existam muitos negros nas posições em grandes empresas e no poderes públicos e associações, mas sonha: “confio no empreendedorismo negro e a negritude ainda vai conseguir fazer crescer uma elite negra para estarem no comando de suas próprias empresas e ocupando diversos postos na sociedade”, concluiu com otimismo.
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FONTE/CRÉDITOS: Claudio Luiz da Silva
Comentários:
Alexandre Müller Hill Maestrini

Publicado por:

Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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