Você abre o celular, rola o feed e, em poucos segundos, já formou uma opinião sobre o assunto mais comentado do dia. O que você talvez não perceba é que aquele conteúdo não apareceu por acaso. Ele foi escolhido, ranqueado e entregue a você por um algoritmo. No Brasil, mais de 80% da população consome notícias via redes sociais. Essa engrenagem invisível se tornou um dos principais filtros entre o público e a informação.
Em 1970, os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw formalizaram uma das mais discutidas teorias da comunicação, a Agenda-Setting, a partir de estudos sobre a influência da cobertura jornalística nas eleições presidenciais americanas de 1968.
Segundo a teoria, embora a mídia possa não ditar como as pessoas devem pensar, ela define o que as pessoas devem pensar. Dessa forma, pautando os temas de maior relevância e interesse público.
O resultado disto é a forma como pensamos, votamos e reagimos a eventos coletivos sendo moldada por códigos de programação criados para prender nossa atenção, não necessariamente para informar.
Os algoritmos são sistemas matemáticos que determinam o que aparece primeiro no seu feed. Eles analisam seu comportamento como curtidas, tempo de visualizações, comentários e decidem o que “você provavelmente quer ver”. O problema é que essa lógica, pensada para engajamento, favorece o conteúdo emocional, polêmico e viral. E o jornalismo, que exige contexto e tempo, muitas vezes perde espaço para o sensacionalismo digital.
Especialistas em comunicação alertam que essa dinâmica cria uma nova forma de censura invisível. O que não engaja, desaparece. Assim, informações sérias, mas “pouco atrativas”, são deixadas de lado em favor de posts que geram reações instantâneas.
Bolhas informacionais são o novo eco digital
O sociólogo espanhol Manuel Castells já dizia que “a informação não é poder. O poder é quem controla o fluxo da informação.” Hoje, as bolhas digitais são o exemplo mais claro disso.
Cada usuário vive em uma bolha personalizada, onde só aparecem conteúdos alinhados às suas crenças. O algoritmo, ao tentar agradar, reforça visões de mundo e cria o chamado “Efeito câmara de eco", que é quando a pessoa é constantemente exposta às mesmas ideias. Os participantes encontram crenças que amplificam ou reforçam suas crenças preexistentes por meio da comunicação e da repetição dentro de um sistema fechado e isolado da refutação.
Isso distorce o debate público, porque reduz a diversidade de opiniões e cria a ilusão de que todos pensam igual. Em períodos eleitorais, esse fenômeno ganha força e pode influenciar diretamente o comportamento do eleitor.
Notícia ou entretenimento?
Hoje em dia, as redes sociais transformaram o jornalismo em um jogo de sobrevivência por atenção. Redações precisam aprender a adaptar manchetes, investir em SEO e produzir conteúdo multiplataforma. Mas há um dilema ético no ar de, até que ponto o jornalismo pode “dançar conforme o algoritmo” sem perder credibilidade?
A pressão por métricas como curtidas, compartilhamentos, tempo de leitura, são o que, muitas vezes, passam a ser mais valorizadas do que a profundidade da apuração. O perigo é que o jornalismo acabe reproduzindo a lógica das redes de publicar rápido, com emoção e sem reflexão.
O TikTok e o X (antigo Twitter) são os maiores exemplos de como a viralização influencia o que é notícia. Um vídeo com milhões de visualizações pode se transformar, em poucas horas, em pauta nacional, mesmo sem verificação. Esse processo coloca em xeque o papel dos jornalistas. Em vez de pautar o debate, eles acabam reagindo ao que viraliza.
Pesquisadores chamam isso de “efeito trending”, que é quando o interesse público é definido por tendências algorítmicas, e não por relevância jornalística. O resultado é um noticiário cada vez mais emocional, fragmentado e superficial.
Um levantamento da pesquisa Global Digital Overview 2020, feita pelo site We Are Social em parceria com o Hootsuite, mostra que o tempo médio diário dos brasileiros nas redes sociais é de 3h31min. O Brasil também ocupa o terceiro lugar no ranking de populações que passam mais tempo na social media. Isso significa que a disputa pela atenção é uma das mais acirradas do planeta, e que o feed tem, de fato, mais poder de agenda do que muitos veículos de imprensa.
Os algoritmos também têm impacto direto nas eleições e na democracia. No Brasil, as fake news de 2018 e 2022 mostraram como a manipulação do conteúdo nas redes pode interferir no voto e espalhar desinformação em massa. Plataformas como WhatsApp, Facebook e YouTube foram apontadas como ambientes de risco, justamente por operarem sob uma lógica algorítmica que prioriza o engajamento acima da veracidade.
Em 2019, o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Daniel Bramatti, em entrevista ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse que a desinformação afeta a capacidade das pessoas de fazer um voto consciente embasado na realidade. “A decisão de voto feito com base em informações fraudulentas é uma decisão que pode levar a um resultado prejudicial”, afirmou.
Em 2024, com o avanço da inteligência artificial generativa, o desafio cresceu ainda mais. Agora, além de escolher o que vemos, as plataformas também criam o conteúdo. Deepfakes, bots e perfis automatizados tornaram o cenário da informação mais confuso e perigoso do que nunca. É o algoritmo não apenas filtrando informação, mas produzindo desinformação.
Os efeitos são profundos e múltiplos. Isso aumenta a polarização, onde cada grupo vive dentro da própria bolha, e o diálogo desaparece, fazendo crescer o ceticismo em relação à mídia e às instituições.
Nasce então a desigualdade no acesso à informação, onde quem não sabe filtrar conteúdo é mais vulnerável. Entra em cena a manipulação política e emocional com propagandas personalizadas que moldam comportamentos sem que o público perceba.
Em um contexto onde a atenção é o bem mais valioso, a informação perde espaço para o entretenimento. A consequência? Uma sociedade mais reativa, menos reflexiva e muito mais vulnerável à manipulação emocional.
Como combater o efeito do algoritmo?
A solução não é abandonar as redes, mas reaprender a consumir informação. Algumas práticas básicas podem reduzir o impacto das bolhas como seguir veículos de diferentes linhas editoriais, verificar a origem das notícias, evitar compartilhar conteúdos sem checar e buscar fontes oficiais antes de formar opinião.
O jornalismo também precisa se reinventar. Investir em transparência, educação midiática e estratégias de engajamento ético é essencial para recuperar a confiança do público.
O algoritmo não vai desaparecer, ele é parte da nossa rotina digital. Mas a forma como o jornalismo se posiciona diante dele vai definir se seremos cidadãos informados ou apenas usuários entretidos. A grande questão é: queremos que as redes sociais nos mostrem o que é importante ou apenas o que queremos ver?
O desafio da próxima década será equilibrar tecnologia e ética, liberdade e controle, interesse público e viralização. Enquanto isso, cada clique que damos continua alimentando o sistema e decidindo, silenciosamente, o que é notícia.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se