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Quinta-feira, 04 de Junho 2026
Brasil/Mundo

Moradores de Perus denunciam suposta fraude em audiência sobre incinerador de lixo

Grupo teria sido pago para ocupar auditório e simular apoio ao empreendimento; população local afirma ter sido impedida de participar do debate.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Moradores de Perus denunciam suposta fraude em audiência sobre incinerador de lixo
© Rovena Rosa/Agência Brasil
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A comunidade de Perus, na zona norte de São Paulo, afirma ter sido cerceada durante a primeira audiência consultiva sobre a construção de um incinerador de resíduos na região. Segundo denúncias, houve um esquema de recrutamento de figurantes para preencher o auditório e abafar os protestos dos moradores locais, que são contrários à obra.

O empreendimento, batizado como Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é de responsabilidade da Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga). Atualmente, a proposta passa por análise técnica junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Relatos colhidos pela Agência Brasil indicam que diversos ônibus desembarcaram pessoas desconhecidas no Centro Educacional Unificado (CEU) Perus antes do início do evento. Esses indivíduos ocuparam rapidamente as vagas e a lista de oradores, dificultando que os reais residentes pudessem manifestar suas críticas ao microfone.

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Uma testemunha ouvida pela reportagem confirmou ter sido remunerada para se passar por moradora. Ela relatou que costuma trabalhar como público em programas de auditório e foi acionada por meio de grupos de mensagens voltados a esse tipo de serviço.

A fonte, que preferiu o anonimato por segurança, revelou que um coordenador instruía o grupo sobre como reagir durante a sessão, indicando os momentos de aplaudir ou vaiar as falas apresentadas.

Devido à lotação do teatro, cerca de 500 moradores foram barrados na entrada. Embora televisores tenham sido instalados no saguão, o espaço foi insuficiente, deixando muitas pessoas, incluindo famílias com crianças, expostas à chuva do lado de fora.

A segurança foi reforçada pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), que utilizou escudos. Houve relatos de hostilidade e impedimento da fala de parlamentares, embora a prefeitura negue o uso de força excessiva ou equipamentos de repressão.

Representantes da Terra Indígena do Jaraguá também enfrentaram dificuldades, mas conseguiram ingressar no recinto após insistência. A comunidade indígena reivindica o direito de ser ouvida, dada a proximidade histórica e geográfica com Perus.

O engenheiro químico Mario Bortoto, uma das vozes da resistência, destacou que a consulta popular é um direito legal e que a condução do evento motiva a organização de uma audiência independente feita pela própria vizinhança.

Bortoto critica a tecnologia escolhida, classificando-a como obsoleta em escala global. Ele alerta para os riscos das cinzas tóxicas e para o impacto do tráfego intenso de caminhões, questionando a capacidade de fiscalização dos órgãos municipais.

Para o especialista, o projeto pode agravar a situação de saúde de uma população que já sofre com o descaso público. Ele aponta que o isolamento geográfico e o preconceito contra a periferia dificultam até a fixação de profissionais de saúde na área.

"Existe um vazio assistencial crítico e falta de infraestrutura básica para acompanhar o crescimento imobiliário. Perus enfrenta os mesmos dilemas de outras periferias paulistanas, como carência de lazer e educação", explicou o engenheiro.

Thais Santos, consultora da WWF Brasil e moradora da região, também lamentou a estratégia adotada na audiência. Ela ressaltou que o horário escolhido dificultou a presença da classe trabalhadora e criticou o que chamou de manipulação do espaço democrático.

Como alternativa ao incinerador, ativistas defendem a criação do Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera, focando no turismo sustentável e na preservação da memória política local.

Contexto histórico e social

A região de Perus carrega marcas históricas profundas, como a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco e a proximidade com o antigo Hospital Psiquiátrico do Juquery. Os moradores relatam abordagens constantes de emissários da empresa para tentar convencê-los sobre a viabilidade da URE.

Dados do Mapa da Desigualdade de 2024 mostram que a expectativa de vida no distrito é de apenas 62 anos. Apesar de possuir uma das maiores coberturas vegetais da cidade, o bairro também sofre com altos índices de poluentes atmosféricos.

Bortoto recorda que esta não é a primeira vez que o território é alvo de projetos de impacto ambiental negativo, citando o histórico de aterros sanitários que operaram na região por décadas, recebendo milhões de toneladas de lixo.

Manifestações oficiais

A Cetesb informou que todas as manifestações registradas na audiência serão anexadas ao processo de licenciamento. A agência estadual reforçou que o projeto da URE está sob rigorosa análise técnica baseada no Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) também acompanha o caso conforme os trâmites legais de licenciamento ambiental.

Em nota conjunta, a SP Regula e a Loga defenderam que as UREs são instalações tecnológicas modernas e seguras, diferentes dos incineradores antigos. Segundo as entidades, o objetivo é reduzir o uso de aterros e gerar energia limpa.

O comunicado afirma que a unidade terá capacidade para processar mil toneladas diárias de resíduos, gerando empregos e proteção ambiental. Destacaram ainda que a audiência visava justamente a transparência e o esclarecimento de dúvidas.

Por fim, a Loga negou veementemente qualquer pagamento a participantes, sustentando que o público presente compareceu de forma voluntária e que o acesso seguiu as normas de segurança e capacidade do local.

FONTE/CRÉDITOS: Letycia Bond - Repórter da Agência Brasil

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