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Foram dois anos de ameaças, tarifaços e guerras, depois de voltar à Casa Branca, Donald Trump sofreu nesta terça-feira (3) a maior derrota eleitoral de seu segundo mandato. Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, encerrando o domínio republicano sobre o Congresso e impondo uma mudança profunda no equilíbrio de forças em Washington.
A dimensão do resultado surpreendeu até integrantes da oposição. Os democratas avançaram não apenas em estados considerados competitivos, mas também em territórios que há décadas estavam associados ao Partido Republicano, como Texas, Kansas e Carolina do Sul. Além de recuperar o Congresso, o partido conquistou governos estaduais e cadeiras no Senado em disputas que até poucos meses atrás pareciam improváveis.
Trump reconheceu que fatores como a guerra contra o Irã e o aumento do custo de vida, incluindo o aumento dos combustíveis, contribuíram para a derrota republicana e afirmou que aceitará os resultados. Ainda assim, voltou a defender algumas das decisões tomadas por seu governo e prometeu usar o poder de veto contra propostas democratas que considerar excessivas.
As urnas mostraram uma insatisfação ampla com o governo. Pesquisas de boca de urna indicaram que metade dos eleitores enxergou a votação como uma oportunidade de enviar uma mensagem de rejeição a Trump (que está batendo na casa dos 60% a nível nacional, e a aprovação em apenas 32%), enquanto cerca de 70% disseram desejar um Congresso capaz de exercer maior controle sobre o presidente.
Texas e Kansas simbolizam tamanho da derrota
Alguns dos resultados mais emblemáticos ocorreram em estados historicamente ligados aos republicanos.
No Texas, o democrata James Talarico venceu a disputa pelo Senado, encerrando um período de mais de três décadas sem que o estado elegesse um democrata para uma das duas cadeiras da Casa. A vitória ocorreu em meio a gastos republicanos milionários e à forte participação de Elon Musk no financiamento das campanhas conservadoras. A Reuters calcula que os investimentos do empresário em apoio aos republicanos chegaram perto de US$ 500 milhões ao longo do ciclo eleitoral.
O Texas também elegeu a democrata Gina Hinojosa governadora. Ela derrotou o republicano Greg Abbott, que buscava um quarto mandato, e se tornou a primeira latina a comandar o estado.
No Kansas, a mudança foi igualmente simbólica. O estado elegeu seu primeiro senador democrata desde 1932, encerrando um período de 94 anos sem vitória do partido para o cargo.
Em Iowa, Josh Turek também conquistou para os democratas uma cadeira que estava nas mãos dos republicanos, ampliando a onda de vitórias em regiões onde o partido vinha encontrando dificuldades há anos.
Eleição também produziu uma série de marcos históricos
O avanço democrata não se limitou ao controle do Congresso. As eleições de 2026 produziram uma série de resultados inéditos na política americana.
Em Michigan, Abdul El-Sayed tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos Estados Unidos. O democrata derrotou o republicano Mike Rogers em uma campanha marcada por ataques relacionados à religião do candidato, alguns deles sem sustentação factual, segundo a Reuters.
No Novo México, Deb Haaland foi eleita governadora e se tornou a primeira mulher indígena a comandar um estado americano. Haaland já havia feito história anteriormente como uma das primeiras indígenas eleitas para o Congresso e como a primeira indígena a ocupar um cargo no gabinete presidencial.
Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora de um estado nos Estados Unidos. Além disso, é a primeira mulher a governar a Geórgia.
Em Wisconsin, David Crowley foi eleito o primeiro governador negro da história do estado.
Já em New Hampshire, Chris Pappas venceu a disputa pelo Senado e se tornou o primeiro homem assumidamente gay eleito para a Casa.
A eleição também ampliou a presença de indígenas e outras minorias em cargos de destaque, em um dos ciclos eleitorais com maior número de “primeiras vezes” da história recente dos Estados Unidos.
Latinos abandonam parte do apoio dado aos republicanos em 2024
Outro movimento importante apareceu entre os eleitores latinos.
Donald Trump havia avançado de maneira significativa nesse grupo na eleição presidencial de 2024. Dois anos depois, parte desse ganho desapareceu.
Segundo levantamento da AP com mais de 100 mil eleitores, cerca de 60% dos hispânicos votaram em candidatos democratas à Câmara em 2026. No Texas, esse movimento foi particularmente forte e ajudou a impulsionar a vitória de James Talarico.
Análises eleitorais também mostram mudanças expressivas em condados de maioria hispânica. Em algumas regiões do Texas e do Kansas, a diferença em relação a 2024 ultrapassou 40 pontos percentuais em direção aos democratas.
A política migratória do governo Trump, especialmente as operações de deportação e o endurecimento das ações do ICE, aparece entre os fatores que contribuíram para esse afastamento, embora a economia e o custo de vida também tenham pesado de forma decisiva.
Guerra, inflação e custo de vida pesaram nas urnas
As questões econômicas estiveram no centro da votação.
Pesquisas realizadas antes e durante a eleição mostraram que o aumento dos preços, especialmente de alimentos, energia e combustíveis, estava entre as principais preocupações dos americanos.
A guerra contra o Irã também teve peso. Trump reconheceu publicamente que o conflito contribuiu para o desempenho ruim de seu partido, embora tenha defendido a decisão de entrar na guerra.
Tarifas impostas pela Casa Branca e o impacto delas sobre diferentes setores da economia também foram usados pelos democratas durante a campanha. A Reuters apontou que eleitores em regiões agrícolas e industriais demonstraram insatisfação com custos maiores e perda de mercados externos.
Congresso democrata muda os últimos dois anos de Trump
O resultado transforma completamente a segunda metade do mandato de Donald Trump.
Com o controle das duas Casas a partir de janeiro, os democratas poderão comandar as principais comissões do Congresso, convocar autoridades, emitir intimações, abrir investigações e dificultar a aprovação de parte da agenda republicana.
Também poderão bloquear ou atrasar nomeações feitas pelo presidente para cargos do governo e do Judiciário federal, inclusive para tribunais superiores.
Entre os temas já mencionados por parlamentares democratas estão os negócios da família Trump, decisões tomadas por integrantes do governo, contratos públicos, relações com grandes empresas e a condução de casos ligados a Jeffrey Epstein.
O novo cenário também coloca novamente a palavra impeachment no vocabulário político de Washington.
Os democratas terão votos suficientes na Câmara para abrir e eventualmente aprovar um processo, desde que haja maioria simples. A remoção do presidente, entretanto, exigiria dois terços dos votos no Senado, o que significa que um eventual afastamento dependeria também do apoio de um número expressivo de republicanos.
Portanto, as investigações devem ganhar força, mas a destituição de Trump continua sendo um caminho politicamente muito mais difícil.
Resultado também pode atingir relação com o Brasil
A mudança de poder em Washington será acompanhada de perto pelo governo brasileiro.
Desde antes das eleições, interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliavam que uma vitória democrata poderia reduzir a liberdade de Trump para conduzir algumas de suas políticas de maneira unilateral e abrir espaço para uma relação mais pragmática entre Brasília e Washington.
O Brasil enfrenta desde 2025 uma relação turbulenta com o governo americano, marcada por tarifas comerciais, sanções, divergências diplomáticas e acusações de interferência política.
Uma investigação da Reuters publicada em outubro mostrou que integrantes do governo Trump atuaram para fortalecer a família Bolsonaro e pressionar o governo brasileiro por meio de medidas diplomáticas e econômicas. A reportagem cita sanções, tarifas e pressões relacionadas ao processo eleitoral brasileiro.
Caso Flávio Bolsonaro pode chegar ao Congresso
Outro assunto que pode ganhar dimensão política nos Estados Unidos é a presença de Flávio Bolsonaro em território norte americano.
O ex-candidato à Presidência deixou o Brasil após ser derrotado por Lula e chegou aos Estados Unidos mesmo estando sob investigação no Brasil e após determinação para que entregasse seus passaportes.
O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o governo americano não organizou diretamente a viagem, embora tenha confirmado que Trump decidiu permitir a entrada de Flávio e de sua família no país.
Reportagem da Reuters, porém, apontou que integrantes e aliados do governo Trump participaram das articulações envolvendo a família Bolsonaro ao longo do processo eleitoral brasileiro.
Parlamentares democratas já vinham cobrando explicações da Casa Branca sobre a atuação do governo americano no Brasil antes mesmo das eleições legislativas. Em manifestações e cartas enviadas ao governo, acusaram a administração Trump de interferir nos assuntos internos brasileiros.
Com o controle das comissões do Congresso, esses questionamentos passam a ter outra dimensão. Os democratas agora terão poder para convocar autoridades, solicitar documentos e abrir investigações formais.
Isso não significa que uma comissão específica sobre Flávio Bolsonaro já esteja confirmada, mas o novo equilíbrio de forças torna esse tipo de apuração institucionalmente possível.
Tarifas também entram na discussão
A política comercial é outro ponto acompanhado pelo governo Lula.
Os Estados Unidos impuseram tarifas sobre produtos brasileiros durante o segundo mandato de Trump, inclusive medidas justificadas pelo governo americano por supostas práticas comerciais consideradas injustas. O Brasil contestou parte dessas decisões e as tratou também como instrumento de pressão política.
A vitória democrata não elimina automaticamente essas tarifas, mas amplia o poder do Congresso para questionar decisões da Casa Branca e pressionar por mudanças na política comercial.
No governo brasileiro, a leitura é de que o novo cenário pode facilitar negociações e reduzir parte da pressão política sobre Brasília. Interlocutores do Planalto afirmaram à CNN Brasil que esperam um reequilíbrio na relação bilateral e maior espaço para uma atuação pragmática.
A estratégia brasileira continua sendo manter relações com Washington sem abandonar a política externa independente, que inclui aproximação com China, Índia, BRICS, Europa e países da América Latina.
Relação deve continuar pragmática
Apesar da derrota republicana, Donald Trump continuará na Presidência até janeiro de 2029 e seguirá controlando instrumentos importantes da política externa americana.
Isso significa que Brasília não espera uma ruptura imediata na postura dos Estados Unidos.
A avaliação predominante no governo Lula é de que o resultado das eleições cria mais equilíbrio, mas não elimina a necessidade de negociação direta com a Casa Branca.
Os Estados Unidos continuam sendo considerados pelo governo brasileiro um parceiro econômico e político indispensável, mesmo diante das divergências acumuladas nos últimos anos.
O Planalto espera que o enfraquecimento de Trump dentro do Congresso permita retomar negociações comerciais, reduzir tensões diplomáticas e estabelecer uma relação menos ideológica nos próximos dois anos.
Uma derrota com consequências para além das urnas
A eleição de meio de mandato não retirou Trump da Casa Branca, mas mudou profundamente as condições nas quais ele governará até o fim do mandato.
A partir de janeiro, o presidente terá diante de si um Congresso controlado pela oposição, com capacidade de bloquear nomeações, dificultar projetos, abrir investigações e impor fiscalização muito mais intensa sobre a administração.
Ao mesmo tempo, os resultados mostraram mudanças importantes no eleitorado americano. Jovens, negros e latinos voltaram a se aproximar dos democratas, enquanto candidatos do partido conquistaram vitórias em lugares onde os republicanos pareciam praticamente imbatíveis.
Trump continua presidente e conserva poderes importantes, especialmente na política externa. Mas o cenário que encontrará nos últimos dois anos de mandato será muito diferente daquele dos primeiros.
Depois de dois anos governando com maioria republicana nas duas Casas, a Casa Branca passa agora a enfrentar um Congresso disposto não apenas a barrar parte de sua agenda, mas também a investigar como ela foi conduzida.

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