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O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo em meio à maior crise política e financeira enfrentada por seu governo. A decisão ocorreu depois do colapso do Ueno Bank, instituição com a qual Peña manteve vínculos empresariais antes e durante parte de seu mandato, e do avanço de um pedido de impeachment no Congresso paraguaio.
A saída do presidente ainda depende da tramitação prevista pelas instituições paraguaias. Segundo a Reuters, a renúncia precisa ser ratificada pelo Senado. Caso o processo seja concluído, o vice-presidente Pedro Alliana é o nome esperado para assumir a Presidência.
Ao anunciar a decisão, Peña afirmou que deixava o cargo pensando na estabilidade do país e na preservação das instituições democráticas.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas.”
Peña também declarou que nenhum cargo deveria se colocar acima dos interesses do Paraguai. O presidente não admitiu responsabilidade pelas irregularidades investigadas no sistema financeiro, mas afirmou que pretende colaborar para que os recursos dos clientes e do Estado sejam recuperados.
Colapso do Ueno Bank desencadeou a crise
A crise ganhou força depois que o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país.
A instituição havia crescido rapidamente desde que recebeu sua licença bancária, em 2023, e alcançado aproximadamente três milhões de clientes, número equivalente a uma parcela expressiva da população paraguaia. O banco também mantinha cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos, segundo a Associated Press.
A intervenção ocorreu após os órgãos reguladores identificarem problemas relacionados à solvência do banco.
De acordo com a AP, as autoridades encontraram operações consideradas de alto risco envolvendo partes relacionadas, documentação insuficiente e despesas contabilizadas de forma inadequada. Depois da correção dessas informações, o capital disponível teria ficado abaixo da metade do mínimo exigido pela legislação.
A medida provocou preocupação entre milhões de clientes que ficaram sem acesso normal às contas e ampliou as dúvidas sobre a fiscalização exercida pelas autoridades financeiras do país.
O Banco Central informou que pretende transferir contas de clientes e ativos considerados viáveis para outras instituições financeiras. Autoridades também afirmaram que o processo de devolução dos recursos já começou para parte dos correntistas.
Oito executivos foram presos e 27 pessoas denunciadas
A crise deixou rapidamente de ser apenas financeira.
Oito atuais e antigos executivos ligados ao Ueno foram detidos, enquanto 27 pessoas relacionadas ao banco e às operações investigadas foram formalmente acusadas, segundo a Associated Press.
A investigação busca esclarecer a responsabilidade dos administradores da instituição, possíveis irregularidades financeiras e a forma como recursos públicos foram direcionados ao banco.
A repercussão também atingiu o Banco Central. O presidente da instituição, Carlos Carvallo, deixou o cargo em meio à crise.
Carvallo havia sido indicado por Peña, o que aumentou os questionamentos da oposição sobre a independência da supervisão financeira e a relação entre integrantes do governo e o Ueno Bank.
Relação de Peña com grupo controlador virou centro da crise
A antiga participação de Santiago Peña no grupo empresarial ligado ao Ueno é um dos principais pontos da controvérsia.
Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025. Naquele momento, ele já ocupava a Presidência do Paraguai.
A ligação empresarial não comprova, por si só, envolvimento do presidente nas irregularidades investigadas. Entretanto, tornou-se a base para questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse entre sua atuação como chefe de Estado e decisões tomadas por órgãos públicos em relação ao banco.
Oposição, entidades empresariais e parlamentares passaram a cobrar esclarecimentos sobre depósitos de recursos públicos, fiscalização financeira e eventuais benefícios concedidos à instituição.
Fundos públicos também entram nas investigações
Outro ponto sensível envolve os recursos depositados no Ueno por instituições públicas paraguaias.
Parlamentares de oposição pediram que a investigação seja ampliada para alcançar autoridades do Banco Central, organismos previdenciários e entidades públicas que mantiveram recursos na instituição.
Entre os órgãos citados estão o Instituto de Previsión Social, Itaipu e Yacyretá. Os legisladores querem saber se houve falhas de fiscalização, decisões negligentes ou eventual favorecimento na manutenção desses recursos no banco.
A investigação ainda está em andamento e, até o momento, as acusações não representam condenações judiciais.
Impeachment avançou no Congresso
A pressão política sobre Peña aumentou na quarta-feira (4), quando 35 deputados apresentaram formalmente pedidos de impeachment contra o presidente e contra o vice-presidente Pedro Alliana.
Os parlamentares acusam o governo de conflito de interesses, uso indevido de recursos previdenciários e tentativa de encobrir falhas institucionais relacionadas ao Ueno Bank.
Inicialmente, a oposição não possuía os votos necessários para avançar com o processo.
A situação começou a mudar quando integrantes do próprio Partido Colorado, legenda de Peña, passaram a abandonar a defesa do presidente.
O presidente do Congresso, Basilio Núñez, e o dirigente colorado e ex-presidente Horacio Cartes retiraram apoio político a Peña, aumentando seu isolamento nas horas anteriores à renúncia.
Parlamentares governistas também começaram a defender o avanço das investigações. O deputado colorado Alejandro Aguilera, por exemplo, anunciou apoio ao pedido de impeachment e deixou a função de vice-líder da bancada governista.
Ministério Público avalia novas denúncias
Paralelamente ao processo político, o Ministério Público paraguaio também passou a analisar denúncias relacionadas ao presidente e a autoridades do sistema financeiro.
Legisladores oposicionistas solicitaram investigações sobre possíveis crimes como enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e administração em proveito próprio.
O procurador-geral Emiliano Rolón confirmou que a documentação foi encaminhada à unidade especializada em delitos econômicos e corrupção para avaliação.
Neste momento, essas acusações estão sob análise e não representam confirmação de que Peña ou outros investigados tenham cometido os crimes apontados.
Protestos aumentaram pressão sobre o governo
A dificuldade de milhões de clientes para acessar seus recursos levou a protestos em diferentes pontos do país.
Manifestantes cobraram a devolução do dinheiro e responsabilização de dirigentes do banco e agentes públicos que eventualmente tenham participado ou permitido irregularidades.
Entidades do setor empresarial também entraram no debate.
A Associação de Empresários Cristãos do Paraguai pediu publicamente a renúncia do presidente e defendeu uma investigação ampla sobre todos os agentes públicos e privados envolvidos na crise.
Segundo a entidade, a questão ultrapassa a permanência de um governo e envolve a credibilidade das instituições e a confiança no sistema financeiro do país.
Alliana deve assumir se Congresso aceitar renúncia
Com a saída de Santiago Peña, a atenção agora se volta para o processo sucessório.
Pela linha constitucional, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência caso a renúncia seja formalmente aceita pelo Congresso.
A situação de Alliana, entretanto, também é politicamente delicada, já que ele foi incluído no pedido de impeachment apresentado pelos deputados da oposição.
Isso significa que, embora seja o sucessor imediato previsto pelas regras constitucionais, o ambiente político no Paraguai permanece instável.
Crise coloca estabilidade financeira do Paraguai em debate
As consequências do caso Ueno não ficam restritas ao governo Peña.
O Paraguai vinha construindo nos últimos anos uma imagem de estabilidade econômica e atração de investimentos estrangeiros. O colapso de uma instituição financeira de grande porte e as dúvidas sobre a atuação dos órgãos reguladores colocaram essa reputação sob pressão.
As autoridades paraguaias tentam agora impedir que a crise do Ueno provoque perda de confiança no restante do sistema bancário. A associação nacional dos bancos afirmou que outras instituições estão recebendo clientes que retiram recursos do Ueno e que o sistema financeiro continua operando normalmente.
Ao mesmo tempo, permanece a tarefa de esclarecer como o banco chegou à situação que levou à intervenção, quais autoridades tinham conhecimento dos problemas e se recursos públicos foram expostos de maneira irregular.
A renúncia de Santiago Peña encerra uma etapa da crise política, mas não as investigações. Com o Congresso discutindo responsabilidades, o Ministério Público analisando novas denúncias e milhares de clientes aguardando a normalização de suas contas, o caso Ueno deve continuar no centro da política paraguaia nas próximas semanas.

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