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Estudantes do curso de Medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas, cobram providências da instituição depois da circulação de mensagens com ameaças, intimidações políticas e conteúdo discriminatório em grupos de WhatsApp formados por alunos.
As mensagens começaram a circular com maior intensidade depois do segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro, segundo reportagem do ICL Notícias.
Entre o material obtido pelo veículo aparecem uma fotografia de um revólver, mensagens sugerindo a identificação de alunos que votaram no presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva e ameaças de agressão contra estudantes considerados petistas.
Parte das mensagens teria sido enviada em um grupo ligado a um brechó da atlética da faculdade, com cerca de 750 participantes. Em uma das conversas, um estudante teria afirmado que iria “chutar” pessoas identificadas como petistas. Em outro momento, foi compartilhada a imagem de um homem usando uma camisa do PT, amordaçado e com as mãos amarradas em uma área de mata.
As denúncias também chegaram ao debate público em Campinas. Em sessão da Câmara Municipal, um vereador afirmou ter recebido relatos de estudantes da São Leopoldo Mandic sobre intimidação em grupos de WhatsApp e mencionou a publicação de imagens de armas. Na ocasião, informou que enviaria um ofício à direção da instituição cobrando apuração dos episódios.
Medo afetou rotina acadêmica, relatam alunos
Segundo estudantes ouvidos pelo ICL, as mensagens tiveram efeito direto sobre a rotina de parte dos alunos.
Um deles relatou ter deixado de comparecer a uma atividade acadêmica por receio de sofrer agressões fora do campus. Outro decidiu trancar a matrícula depois que uma fotografia em que comemorava a vitória eleitoral de Lula passou a circular em grupos de WhatsApp. De acordo com a reportagem, ele e outras pessoas que apareciam na imagem passaram a ser alvo de hostilidade.
A família desse estudante teria procurado a faculdade pedindo providências e garantias de segurança, mas, segundo o relato apresentado ao veículo, não considerou a resposta suficiente para assegurar a permanência no curso.
Uma aluna também afirmou considerar deixar a instituição depois de episódios de discriminação que, segundo ela, já existiam, mas se intensificaram durante o período eleitoral. Ela relatou ter sido ridicularizada por ser LGBTQIA+ e por não possuir a mesma condição financeira de outros estudantes.
De acordo com seu depoimento, chegou a ouvir de colegas a afirmação de que “Mandic não é lugar para pobre”.
A estudante disse ainda que não encontrou suporte suficiente dentro da faculdade e que o clima de insegurança passou a interferir em sua vida acadêmica.
Faculdade abriu comissão disciplinar
Quatro dias depois do segundo turno, em 29 de outubro, a São Leopoldo Mandic anunciou a criação de uma comissão disciplinar para investigar os episódios.
Em resposta à reportagem, a instituição afirmou que não compactua com ameaças, intimidações ou discriminação motivadas por posicionamentos políticos.
A faculdade também informou que um estudante foi afastado cautelarmente em razão da gravidade de uma das manifestações analisadas. Segundo a Mandic, o afastamento tem caráter preventivo e não representa uma condenação ou punição definitiva antes da conclusão do procedimento disciplinar.
A instituição afirmou ainda ter encaminhado comunicado aos alunos, disponibilizado atendimento por meio do Núcleo de Apoio Psicopedagógico e orientado as coordenações dos cursos a reforçar regras de convivência.
De acordo com a faculdade, estudantes e familiares que procuraram a instituição foram acolhidos.
A Mandic, porém, não informou quantos alunos são atualmente investigados pela comissão.
Esse é um dos pontos criticados pelos estudantes, que dizem considerar insuficientes as informações divulgadas até agora sobre a investigação e as medidas adotadas para impedir novos episódios.
Bolsistas relatam preconceito social
As denúncias políticas também aparecem misturadas a relatos de discriminação socioeconômica.
A São Leopoldo Mandic está entre as instituições privadas com mensalidades mais elevadas no curso de Medicina. O valor divulgado atualmente pela própria faculdade para o campus de Campinas é de R$ 14.578 por mês.
A instituição passou a participar do Programa Universidade para Todos, o ProUni, oferecendo bolsas integrais. Para o primeiro semestre de 2026, o campus de Campinas disponibilizou 25 bolsas para Medicina e seis para Odontologia, segundo informações oficiais da própria Mandic.
Estudantes ouvidos pela reportagem afirmam que a entrada de bolsistas tornou mais visíveis diferenças sociais dentro da faculdade e que alguns deles passaram a ser alvo de comentários preconceituosos.
Uma das fontes disse que os bolsistas estariam entre os alunos que mais se sentem intimidados.
O relato ocorre em um contexto no qual outras faculdades também registraram denúncias semelhantes após as eleições.
O UOL publicou casos de bolsistas de instituições privadas que relataram ataques racistas, classistas e xenofóbicos em grupos de alunos. Entre as mensagens estavam afirmações de que estudantes beneficiários de programas sociais não deveriam frequentar determinadas faculdades e comentários ofensivos contra moradores do Nordeste.
Ofensas contra nordestinos também aparecem nas mensagens
Segundo os prints obtidos pelo ICL, alguns dos ataques envolvendo estudantes da Mandic extrapolaram a disputa político-partidária e passaram a atingir moradores do Nordeste.
Em uma das conversas, um participante afirmou que eleitores petistas deveriam “ir para o Nordeste e morar em uma cabana”. Em outro grupo, um estudante sugeriu que colegas cancelassem viagens de Réveillon para a região como forma de punição pelo resultado das eleições.
As mensagens se somam a outros episódios de intolerância registrados no país depois do segundo turno.
A Folha de S.Paulo identificou casos de bullying e intimidação política em escolas e universidades, enquanto o Ministério da Educação informou que denúncias de violência política em instituições de ensino foram encaminhadas à Polícia Federal e à Advocacia-Geral da União.
Os episódios não estão restritos a um único campo político, embora parte importante das denúncias publicadas depois do segundo turno envolva ataques contra pessoas identificadas como eleitores de Lula. A Folha também registrou casos no sentido oposto e situações de hostilidade política envolvendo diferentes grupos.
Estudantes relatam tentativa de criar listas
Outro ponto que preocupa os estudantes é a suposta tentativa de mapear as preferências políticas de alunos e professores.
Mensagens obtidas pelo ICL incluem pedidos para que participantes dos grupos identificassem quem seria petista dentro da faculdade. Em uma delas, um estudante pede que sejam divulgados os nomes de apoiadores do partido; outro responde sugerindo a criação de uma lista.
A reportagem, no entanto, afirma que não conseguiu confirmar a existência efetiva dessas listas.
O que foi verificado foram mensagens incentivando a identificação e exposição de colegas.
Alunos também disseram que alguns professores teriam se sentido intimidados depois de serem citados de forma ofensiva nas conversas. Nenhum docente havia se manifestado publicamente até a publicação da denúncia.
Intolerância política cresce após eleição
O caso da Mandic surge em meio a uma sequência de denúncias envolvendo violência e intolerância política depois das eleições de 2026.
O Ministério Público do Trabalho registrou milhares de denúncias de assédio eleitoral no país. Somente em São Paulo, os órgãos regionais do MPT receberam dezenas de relatos nos dias seguintes ao segundo turno, envolvendo ameaças de demissão, retaliação e discriminação por preferência política.
A Folha também noticiou ameaças contra estudantes e professores em diferentes instituições de ensino superior. Em alguns casos, foram citadas ameaças de incêndio, agressão, uso de explosivos e manifestações com referências nazistas. Parte dos episódios passou a ser investigada pela Polícia Federal ou pelo Ministério Público.
O Ministério da Educação afirmou que instituições de ensino devem permanecer como espaços de pluralidade, diálogo e respeito às diferentes ideias e repudiou ameaças ou discriminação independentemente de sua motivação política.
No caso da São Leopoldo Mandic, a discussão agora gira principalmente em torno do resultado da comissão disciplinar, das medidas que serão tomadas contra eventuais responsáveis e das garantias de segurança oferecidas aos estudantes.
Até o momento, a instituição confirmou o afastamento cautelar de um aluno, mas não revelou quantos estudantes são investigados nem detalhou quais sanções poderão ser adotadas ao final do processo.
Para os alunos que relataram as ameaças, a cobrança vai além da punição de casos individuais. Eles querem saber quais medidas serão tomadas para que divergências políticas, sociais ou pessoais não sejam transformadas em intimidação dentro do ambiente acadêmico.

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