Fernanda Bassette | Agência FAPESP – Tomar um suplemento antes de uma cirurgia para remoção de parte do fígado pode ajudar o órgão a se recuperar melhor e se tornar mais resistente a novos danos. Esse é o principal achado de um estudo que investigou os efeitos do beta-hidroxi-beta-metilbutirato (HMB) em experimentos com camundongos. Os resultados indicam que o uso pré-operatório desse composto preserva a produção de energia nas células hepáticas e melhora a qualidade da regeneração do tecido após uma grande lesão.
O HMB é um metabólito derivado da leucina, um aminoácido essencial obtido pela alimentação. No organismo humano, apenas cerca de 5% da leucina ingerida é convertida em HMB, e isso ocorre principalmente no fígado. A suplementação com HMB em cápsulas ou pó tem sido usada para elevar os níveis da molécula no corpo, especialmente em contextos ligados à preservação de massa muscular, como envelhecimento, imobilização prolongada ou recuperação de doenças. Ainda assim, os efeitos da suplementação são considerados modestos e há poucos estudos clínicos robustos em humanos.
“É um suplemento que já é bastante utilizado fora da academia, mas os efeitos descritos, principalmente no músculo, ainda são sutis. A gente ainda carece de bons estudos clínicos para sustentar um uso mais amplo”, diz à Agência FAPESP o biólogo Igor Luchini Baptista, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA-Unicamp) e orientador da pesquisa, apoiada (projetos 23/01903-6 e 21/05588-2) pela FAPESP.
Foi justamente o fato de o HMB ser produzido no fígado que motivou a investigação, conta o pesquisador. “A gente partiu de uma pergunta simples: se ele é produzido no fígado, por que quase ninguém investigou o efeito direto nesse órgão?” A partir dessa lacuna, o grupo decidiu explorar o papel do composto em um cenário de regeneração hepática.
No experimento, os animais receberam diariamente, por dez dias, uma dose de HMB equivalente à utilizada em humanos (cerca de 3 gramas para um adulto de 70 quilos). Em seguida, os animais foram submetidos à retirada de aproximadamente 70% do fígado, um modelo clássico para estudar regeneração hepática. Os pesquisadores observaram que o tecido do fígado dos animais que receberam o suplemento regularmente mostrou-se metabolicamente mais preparado durante o processo de recuperação, em comparação com camundongos que não ingeriram a substância.
O benefício da suplementação se tornou mais evidente quando os cientistas decidiram ir além e testar o órgão sob uma nova situação de estresse. Sete dias após a cirurgia, os camundongos foram expostos a uma segunda lesão, desta vez induzida por uma dose elevada de paracetamol – modelo amplamente utilizado para simular toxicidade hepática. Nessa etapa, os animais previamente suplementados com HMB apresentaram melhor resposta: tinham menos sinais de dano, mantinham a função mitocondrial e exibiam sinais mais adequados de regeneração celular do que os camundongos do grupo controle, sem suplementação. Os resultados foram publicados em março, na revista Acta Physiologica.
“Não vimos uma regeneração mais rápida, mas uma regeneração de melhor qualidade. Esse fígado parece mais preparado para lidar com um novo desafio”, explica Baptista.
Diferença clara
Na primeira fase do estudo, os resultados foram discretos. Embora alguns marcadores moleculares indicassem um perfil mais favorável nos animais suplementados, não houve diferença significativa no tempo de regeneração. Como esperado, todos os camundongos recuperaram a massa hepática em cerca de sete dias. “O fígado tem uma capacidade regenerativa impressionante. Ele vai se recuperar de qualquer forma. A nossa dúvida era sobre a qualidade desse processo”, conta Baptista.
Foi essa questão que levou ao desenho da segunda etapa do experimento. Ao submeter o fígado regenerado a uma nova agressão, os pesquisadores conseguiram observar diferenças mais claras entre os grupos. Os animais que não haviam recebido HMB apresentaram mais evidências de dano tecidual e sofrimento celular, alterações estruturais no tecido e pior desempenho metabólico. Já os suplementados mostraram um órgão mais preservado e funcional.
Segundo Baptista, esse efeito está relacionado, principalmente, à preservação das mitocôndrias, que são as estruturas responsáveis pela produção de energia nas células. Em situações de estresse, como uma cirurgia de grande porte ou intoxicação, a manutenção da função mitocondrial é essencial para garantir a sobrevivência celular e a regeneração adequada do tecido. “O nosso foco inicial era justamente olhar para parâmetros mitocondriais, e isso apareceu de forma consistente. O tecido que recebeu HMB parece metabolicamente mais preparado, o que faz diferença quando ele é desafiado novamente”, afirma o pesquisador.
Outro aspecto que chamou a atenção foi o fato de que todos os efeitos benéficos observados ocorreram mesmo após a interrupção da suplementação. “Isso foi o mais curioso. O animal recebeu HMB antes da cirurgia, e todo o benefício aparece depois, sem que ele continue recebendo o suplemento”, comenta Baptista. No total, entre o fim da suplementação e a segunda lesão, passaram-se cerca de 18 dias, o que, segundo o pesquisador, reforça a ideia de um efeito duradouro no tecido hepático.
Apesar dos resultados promissores, Baptista ressalta que o estudo foi realizado em modelo animal e que ainda não é possível extrapolar diretamente os achados para humanos. A principal contribuição, segundo ele, está em abrir caminho para novas investigações. “Na teoria, é algo interessante, porque estamos falando de um suplemento já utilizado, acessível e relativamente seguro. Mas transformar isso em recomendação clínica exige uma série de estudos em humanos. Esse é o próximo passo e provavelmente será conduzido por outros grupos”, afirma.
A pesquisa também se insere em um campo mais amplo, que busca entender como nutrientes e metabólitos podem influenciar a resposta do organismo a situações de estresse, como cirurgias, traumas ou doenças. Nesse contexto, estratégias de “preparo metabólico” antes de procedimentos médicos ganham cada vez mais interesse. “A ideia é simples: será que conseguimos preparar melhor o organismo antes de um grande desafio? Esse estudo sugere que sim, pelo menos em nível experimental. Mas ainda temos muito a aprender sobre como isso pode ser aplicado na prática”, conclui o pesquisador.
O artigo Preoperative beta-hydroxy-beta-methyl-butyrate supplementation reduces mitochondrial dynamics proteins and preserves hepatic mitochondrial function after partial hepatectomy in mice pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/apha.70204.

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