Agência FAPESP * – Cientistas brasileiros acompanharam mais de 2 mil crianças ao longo de 15 anos para entender quais fatores presentes no início da vida podem prever o risco de tentativas de suicídio no futuro. Os principais preditores encontrados foram ser do sexo feminino, sofrer traumas na infância – especialmente bullying e abusos físicos –, ter um cuidador principal com histórico de comportamento suicida e apresentar transtornos do comportamento, como por exemplo o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Os resultados foram divulgados em junho na revista The Lancet Regional Health – Americas.
“As tentativas de suicídio na infância e na adolescência são comuns, recorrentes e constituem o mais forte preditor de morte por suicídio. No entanto, seus antecedentes desenvolvimentais permanecem pouco compreendidos, especialmente em países de baixa e média renda”, afirma Rodolfo Furlan Damiano, integrante do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e coordenador da investigação.
Segundo ele, o estudo buscou entender três pontos principais: se a pessoa chegará a tentar o suicídio (a incidência do problema); com qual idade acontece a primeira tentativa (momento de início); e quantas vezes essas tentativas ocorrem.
Para isso, foram acompanhados 2.060 jovens (48% do sexo feminino) entre 6 e 14 anos que integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC, na sigla em inglês) – um dos estudos mais relevantes do mundo sobre a origem genética e ambiental dos transtornos mentais.
Os achados
Dos 2.060 participantes, 309 (15%) relataram tentativas de suicídio ao longo dos 15 anos de acompanhamento, com idade média de início aos 17,8 anos.
“Sexo feminino” e “traumas na infância” apareceram como preditores significativos nos três desfechos avaliados (incidência, momento de início e número de tentativas). As meninas chegaram a apresentar um risco cerca de três vezes maior do que os meninos.
Já “tentativa de suicídio por parte do cuidador” e “transtornos externalizantes” (como TDAH ou transtorno de conduta) mostraram-se ligados à incidência e ao início mais precoce das tentativas.
“Predisposição genética para depressão” e “diabetes gestacional” foram fatores associado à maior frequência de tentativas. “Traumas na infância” (relatos de bullying pelas próprias crianças e relatos parentais de abuso físico) foram os componentes de maior peso para a incidência.
“Entre os fatores de trauma na infância, o bullying se mostrou como responsável por 24% do risco. Priorizá-lo em projetos de prevenção faz sentido, visto que ele é frequente e pode ser combatido”, destaca Damiano.
Nos casos de tentativas de suicídio clinicamente mais graves, os fatores mais significativos foram a “predisposição genética para depressão”, “traumas na infância” e o “uso materno de álcool na gestação”.
Fatores modificáveis
Além de analisarem os fatores associados às tentativas de suicídio, os cientistas também quantificaram o impacto populacional daquelas condições que poderiam ser evitadas, conhecidas como “fatores de risco modificáveis”. Nessa análise, eles estimaram a proporção de tentativas de suicídio que poderia ser atribuída à existência de cada um desses problemas.
Os resultados mostraram que o histórico de tentativa de suicídio por parte do cuidador teve o maior peso, respondendo por 14,1% do total de tentativas observadas no estudo. Em seguida, os transtornos internalizantes do cuidador – como depressão, ansiedade, TOC e estresse pós-traumático – foram responsáveis por 11,6% dos casos, proporção muito semelhante ao impacto dos altos níveis de traumas na infância, que chegaram a 11,5%. Por fim, a presença de transtornos externalizantes representou 10,2% das tentativas.
“Risco não é destino. Nenhum dos fatores condena uma criança a tentar suicídio. É preciso olhar para o que é possível modificar na população”, destaca Damiano. Entre as ações propostas pelo pesquisador para evitar essas tentativas estão: investigar se há casos de suicídio na família e cuidar do núcleo, não apenas do paciente; e abordar o bullying e a violência como questões de saúde pública, integrando escola e família no plano de prevenção. “Talvez a pergunta não seja quem vai tentar, mas o que podemos mudar antes.”
O trabalho de Damiano foi orientado por Giovanni Abrahão Salum, também integrante do CISM – um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) da FAPESP com sede na Universidade de São Paulo (USP) e parceria das federais de São Paulo (Unifesp) e do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e do Centro Universitário Max Planck (UniMAX - Indaiatuba). O artigo ainda inclui entre os autores Euripedes Constantino Miguel, Luis Augusto Rohde, Pedro Mario Pan, Sintia Belangero, Marcos Leite Santoro e Lucas Toshio Ito – todos integrantes do CISM.
O artigo Developmental predictors of suicide attempts from childhood to early adulthood: a 15-year prospective cohort study pode ser lido em: thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(26)00161-4/.
* Com informações de Mainary Nascimento, do CISM.

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