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Quarta-feira, 15 de Julho 2026
Ciência e Tecnologia

Maioria das espécies de mamíferos descobertas no Sul desde 1990 está depositada no Norte

Estudo brasileiro analisou o destino de 1.116 espécies descritas nos últimos 35 anos e propõe medidas para evitar a chamada “ciência de paraquedas”

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Maioria das espécies de mamíferos descobertas no Sul desde 1990 está depositada no Norte
Ficou no Brasil: porco-espinho-de-baturité (Coendou baturitensis), coletado na Serra de Baturité, município de Aratuba (CE), por Hugo Fernandes-Ferreira e descrito em 2013 por Anderson Feijó e Alfredo Langguth (UFPB) (foto: Fernando Herberson Menezes
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André Julião | Agência FAPESP – A maioria das novas espécies de mamíferos que foram descritas nos últimos 35 anos está depositada em instituições de países do chamado Norte Global, apesar de a imensa maioria delas ter sido descoberta em países pobres ou em desenvolvimento do hemisfério Sul, segundo um levantamento realizado por cientistas brasileiros e publicado na revista NPJ Biodiversity.

A pesquisa analisou 1.116 novas espécies de mamíferos descritas entre 1990 e 2025 e concluiu que 95% delas eram nativas de países do chamado Sul Global – conjunto de países emergentes da América Latina, África, Ásia e Caribe, com características socioeconômicas semelhantes, incluindo o Brasil –, apesar de 60% dos seus holótipos (nome dado aos exemplares que servem de referência para a descrição científica da espécie) estarem depositados em países ricos da Europa e da América do Norte, principalmente. Por outro lado, apenas 22% das espécies nativas do Norte descritas nesse mesmo período têm seus holótipos guardados fora do país de origem – ainda assim em instituições desse mesmo domínio geopolítico, que pode englobar países como Austrália e Nova Zelândia.

Segundo os autores, os resultados mostram como desigualdades geopolíticas e socioeconômicas impactam a atividade científica e o conhecimento da biodiversidade.

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Mais de 90% de todos os holótipos de mamíferos armazenados no Norte Global são de espécimes coletados em um país diferente daquele onde está atualmente depositado. No Sul Global, por sua vez, menos de 8% dos holótipos de mamíferos estão depositados em países diferentes de onde foram coletados.

Os números são bastante superiores aos que ocorrem em outros grupos considerados menos “carismáticos”, como peixes de água doce (30% dos descritos pós-2000 têm holótipos fora do país de origem) e répteis, em que 50% de todos os descritos após 1990 estão armazenados fora do país onde os animais foram originalmente descobertos.

“Os números para mamíferos nos surpreenderam. Mesmo que antigos colonizadores tivessem o costume de extrair material biológico de suas ex-colônias, nós não esperávamos observar valores tão altos nas décadas recentes. O problema do neocolonialismo científico é mais acentuado nos mamíferos do que em outros grupos de animais”, avalia Mario Moura, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e primeiro autor do estudo.

Moura é egresso do programa Jovem Pesquisador da FAPESP, tendo sido bolsista no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).


Fcou no Brasil: Histotus diaphanopterus, morcego coletado na região do Boqueirão da Onça, município de Santo Sé, na Bahia (foto: Patrício Rocha)

A situação do Brasil, felizmente, é uma das melhores do grupo. O país lidera o número de descobertas de mamíferos no período analisado, com 133 novas espécies descritas. E de todos esses holótipos, 108 (mais de 80%) permaneceram em instituições nacionais. Ainda assim, segundo os autores, os resultados trazem novas evidências da persistência da prática conhecida como “ciência de paraquedas”, em que cientistas estrangeiros, principalmente norte-americanos e europeus, coletam materiais biológicos ou fósseis em países do Sul Global e os levam de volta para serem depositados e pesquisados em seu país de origem, no Norte Global, muitas vezes sem envolver pesquisadores locais nos trabalhos baseados nesse material.

Em um estudo anterior, Moura e seu grupo detectaram que a ciência de paraquedas ainda é responsável pela maioria das descrições de moluscos terrestres (leia mais em: agencia.fapesp.br/56292). No caso dos mamíferos, um outro estudo supervisionado pelo pesquisador mostrou que os países do Norte, ainda que tenham tido muito menos espécies nativas descritas entre 1990 e 2025, publicaram estudos mais robustos sobre essa biodiversidade, em parte por contarem com técnicas analíticas e equipamentos mais avançados (leia mais em: agencia.fapesp.br/57723).

O trabalho atual é publicado no momento em que o Brasil busca repatriar outros materiais científicos – no caso, fósseis de dinossauros, levados para instituições estrangeiras.

Após ter tido sucesso na repatriação de um deles, as tratativas estão avançadas para o retorno de pelo menos mais um.

Desigualdade

Quem descreve uma possível nova espécie, seja de planta ou animal, precisa acessar o holótipo das espécies evolutivamente mais próximas, a fim de compará-las e se certificar de que a sua é mesmo uma novidade para a ciência. Por isso, o holótipo é um material fundamental na documentação da biodiversidade.

“Acessar um material oriundo de seu próprio país em uma instituição estrangeira demanda recursos nem sempre disponíveis, o que atrasa a geração de conhecimento”, afirma Jhonny Guedes, coautor do estudo, realizado durante pós-doutorado no IB-Unicamp com bolsa da FAPESP. Atualmente, Guedes realiza estágio no Museo Nacional de Ciencias Naturales, na Espanha, também com bolsa FAPESP.

Além disso, uma parte das descrições de novas espécies se dá por meio de revisão taxonômica. Nessa modalidade, são comparados espécimes presentes em instituições de diferentes países, por vezes utilizando técnicas de análise genômica, de última geração, ainda indisponíveis quando os exemplares foram coletados no passado.

Não raro, esse tipo de estudo resulta na descrição de novas espécies, às vezes gêneros inteiros (leia mais em: agencia.fapesp.br/56040 e agencia.fapesp.br/55121).

“À medida que esses exemplares estão espalhados por diferentes museus de história natural e coleções biológicas de universidades estrangeiras, pesquisadores europeus e norte-americanos têm à mão muito mais material para realizar seus estudos, mesmo quando se trata de espécies da América do Sul, África ou Ásia”, completa Matheus Moroti, outro coautor, bolsista de pós-doutorado no IB-Unicamp e realizando estágio na Espanha.

Causas e soluções

Em segundo lugar em número de espécies descobertas no período analisado, depois do Brasil, Madagascar tem uma situação bem diferente. Foram 90 novas espécies descritas para a ilha africana no período, mas apenas 14 ficaram no país.

Pesquisadores dos Estados Unidos, por sua vez, descreveram 324 novas espécies no mesmo período, mas apenas cinco eram nativas do seu território. Todo o resto era importado. Dentre os 53 países analisados no estudo, 20 (17 deles no Sul Global) só possuem holótipos de mamíferos nativos depositados em seu território. Outros 17 países, a maioria na Europa, só possuem mamíferos estrangeiros em seus acervos.

Os pesquisadores cruzaram os dados com diversos índices socioeconômicos. Quanto mais mão de obra qualificada tem um país, ainda que o investimento em ciência e tecnologia não seja tão grande em relação ao PIB, mais chances esse lugar tem de reter os holótipos de suas espécies nativas. A presença de instituições científicas e legislação ambiental mais rigorosa também contribuem de forma positiva para a retenção – caso do Brasil.

Para mitigar o problema em curto e médio prazo, os pesquisadores fazem algumas propostas, divididas em três dimensões: governança, estrutura e acesso, cada uma com diferentes níveis de prioridade e de custo. A repatriação de todo esse material, contudo, segue sendo a medida mais importante, embora pouco realista no curto prazo, segundo os autores.

Uma medida de governança de alta prioridade e baixo custo, por exemplo, seria a adoção pelas revistas científicas de planos obrigatórios de depósito de espécimes, da mesma forma como existem hoje políticas editoriais de disponibilização de dados e códigos.

Na versão proposta desses planos, os autores de artigos descrevendo novas espécies deveriam justificar onde estão depositados os holótipos dos seus estudos, priorizando instituições próximas ao local de ocorrência da espécie e a acessibilidade a cientistas locais.

Em outra medida, os autores propõem a criação de fundos de mobilidade, em que as instituições do Norte Global abririam chamadas para financiar a ida de pesquisadores do Sul Global para acessar as coleções dessas instituições.

Um exemplo de medida estrutural seria o investimento, pelas instituições do Norte Global, de uma porcentagem do orçamento de grandes projetos de pesquisa em instituições parceiras no Sul Global, próxima dos locais onde os espécimes são coletados. Os recursos seriam utilizados para reforçar a infraestrutura de armazenamento e estudo da biodiversidade, além de financiar bolsas e equipes de apoio.

“Parcerias intelectuais válidas, que sejam vantajosas para todos e que respeitem as diferenças socioeconômicas históricas entre os países, são um caminho sem volta tanto para cientistas do Norte quanto do Sul Global. Os benefícios vão além de uma ciência mais justa e inclusiva, reforçando a autonomia do Sul Global e acelerando nossa documentação da biodiversidade”, encerra Moura.

O artigo Local expertise anchors biodiversity documentation, but geopolitical power drives parachute discovery pode ser lido em: nature.com/articles/s44185-026-00137-6.
 

FONTE/CRÉDITOS: André Julião | Agência FAPESP

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