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Terça-feira, 14 de Julho 2026
Ciência e Tecnologia

Pesquisa mostra que desigualdade social amplia barreiras à prática de atividade física

Mulheres pretas, pardas, asiáticas e indígenas com menor escolaridade enfrentam mais dificuldades. Estudo acompanhou o mesmo grupo por uma década

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Pesquisa mostra que desigualdade social amplia barreiras à prática de atividade física
Hábitos de vida inativa estão associados a aproximadamente 5 milhões de mortes anuais (foto: Cecília Bastos/USP Imagens)
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Luciana Constantino | Agência FAPESP – Um estudo que acompanhou moradores de São Paulo durante dez anos revelou que a prática de atividade física no tempo livre é altamente desigual, e o abismo entre os estratos sociais está aumentando. Enquanto homens brancos e com alta escolaridade se exercitam cada vez mais, mulheres de minorias raciais com baixa escolaridade apresentam os menores índices de atividade física no lazer. Em contrapartida, o exercício associado ao transporte urbano – como caminhar para o trabalho – distribui-se de maneira mais uniforme entre os diferentes estratos da população. Os dados foram publicados em maio no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.

Outras pesquisas desenvolvidas em países do Norte Global já trataram de fatores sociais influenciando com maior ou menor prevalência a prática esportiva, mas esta liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) tem um diferencial e é pioneira por acompanhar os 978 participantes desde 2014, com coletas de dados em três momentos: 2014/15, 2020/21 e 2023/24.

A partir da análise de como diferentes características sociais se combinam para moldar oportunidades e experiências das pessoas (conhecidas como identidades sociais interseccionais) ao longo do tempo, os cientistas defendem a priorização desses grupos mais vulneráveis em políticas públicas voltadas à promoção de atividades físicas e de lazer.

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“Concluímos que a prática da atividade física no lazer não depende apenas da motivação ou de uma escolha individual. Ela é moldada por fatores ambientais, estruturais e sociais. Detectamos que as desigualdades permaneceram e o gap entre os grupos aumentou ao longo de dez anos de acompanhamento. Esse tipo de atividade, infelizmente, continua sendo um privilégio dos grupos socialmente mais favorecidos, que identificamos como homens brancos e com maior escolaridade. Por outro lado, estão entre os mais vulneráveis as mulheres pretas, pardas, amarelas ou indígenas com menos anos de estudo”, resume a nutricionista Andreia Alexandra Machado Miranda, autora correspondente do artigo e atualmente integrante do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

Quando realizou o trabalho, Miranda era pesquisadora colaboradora no Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde (GEPAF-USP), coordenado pelo professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Alex Antonio Florindo, também autor do artigo.

“Trabalhamos com o modelo ecológico para atividade física, cujo objetivo principal é explicá-la a partir de determinantes. A prática não depende somente da vontade das pessoas, mas envolve experiências que elas podem ter ao longo da vida, o apoio social que recebem dos companheiros ou companheiras ou das famílias, além de questões externas, como o acesso ao ambiente e a políticas públicas. Existe muita distância entre quem tem ou não condições de praticar atividade física no lazer, mesmo que haja vontade”, complementa Florindo à Agência FAPESP.

De acordo com os achados, a prevalência de atividade física no tempo livre era de 51% entre homens brancos com escolaridade mais avançada e de 29% no grupo mais vulnerável no primeiro levantamento. Na terceira etapa de avaliação subiu para 65% e 39%, respectivamente, ampliando a desigualdade entre os grupos.

Miranda destaca as dificuldades relatadas pelas mulheres para a prática de esportes que extrapolam a falta de tempo. “Além de lidar com uma distribuição desigual do trabalho doméstico, muitas vezes elas têm menor remuneração no emprego e enfrentam falta de segurança para frequentar espaços públicos. Dependendo do bairro onde residem, especialmente os periféricos, há falta de infraestrutura urbana, locais sem iluminação e poucos espaços abertos”, diz a nutricionista.

Além de entrevistas presenciais e remotas, com aplicação do Questionário Internacional de Atividade Física versão longa (IPAQ, na sigla em inglês), os cientistas trabalharam com um índice de vulnerabilidade social acumulada (Multiple Jeopardy Index), que traz dados relativos ao sexo, raça/cor da pele e escolaridade, obtendo uma pontuação de 0 (menos vulnerável) a 4 (mais vulnerável).

Problema de saúde pública

Além de promover bem-estar físico e mental, a prática de exercícios reduz o risco de acidente vascular cerebral (AVC), diminui as chances de doenças cardiovasculares, contribui para o controle de peso e de doenças metabólicas, como diabetes, e tem impacto positivo até mesmo na imunidade.

A Organização Mundial da Saúde preconiza que adultos pratiquem, por semana, de 150 a 300 minutos de atividade física de intensidade moderada ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa. Estão incluídas nessas categorias caminhadas (ao ar livre ou na esteira), corridas, musculação, hidroginástica, natação, ciclismo, vôlei, dança e esportes coletivos, entre outros.

No entanto, estudos recentes revelaram que quase um terço dos adultos (31%), ou cerca de 1,8 bilhão de pessoas no mundo, não atingiu em 2022 (último dado disponível) os níveis mínimos recomendados pela OMS. Além disso, hábitos de vida inativa estão associados a aproximadamente 5 milhões de mortes anuais.

No Brasil, 42,3% dos adultos praticavam pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana em 2024, segundo dados do último Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. A meta é aumentar para 50,7% até 2030. Quando o percentual é separado por sexo, vai a 47,7% entre homens e 37,9% entre mulheres.

Deslocamento

O grupo também analisou a caminhada como forma de transporte e, nesse caso, não houve associação significativa entre o índice de vulnerabilidade social e a atividade física no deslocamento.

No geral, foi registrado um aumento de adesão, passando de 61,8% para 71,6% entre o primeiro e o terceiro momento avaliados. A prevalência maior nesta atividade foi de homens jovens, pretos e pardos, com ensino médio.

Para Miranda, esses resultados indicam que caminhar no deslocamento deve-se mais à necessidade cotidiana e às condições de mobilidade urbana do que à vontade. “É possível que fatores como o acesso ao transporte público, as características do bairro e as condições socioeconômicas influenciem esse tipo de deslocamento. No entanto, nosso estudo não encontrou associação estatisticamente significativa entre o índice de vulnerabilidade social e esse tipo de atividade física”, afirma.

De acordo com os pesquisadores, essa é uma prática que poderia ser incorporada mais facilmente ao dia a dia e, assim, colaboraria com a saúde nas cidades – e o maior uso de transportes públicos e coletivos e menos de individuais, como carros.

A amostra inicial da pesquisa teve como base o Inquérito de Saúde no Município de São Paulo (ISA-Capital), que traz diferentes tipos de dados relacionados à saúde e à utilização de serviços para subsidiar políticas públicas. Depois, o estudo longitudinal (que acompanhou a mesma população por dez anos) recebeu o nome de ISA Atividade Física e Ambiente.

A amostragem foi estratificada em cinco áreas de saúde da capital, uma metrópole com vários tipos de desigualdades socioespaciais. Uma delas é o fato de que cerca de 963,7 mil domicílios estão em áreas de alta ou muito alta vulnerabilidade, onde vivem 22,5% dos moradores da cidade, conforme aponta o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social, da Fundação Seade.

Embora não tenha sido objeto direto de análise do trabalho, pesquisas anteriores já demonstraram que áreas socialmente mais vulneráveis enfrentam desafios ambientais e urbanos, como maior exposição a ilhas de calor. É o caso de regiões periféricas nas zonas leste, norte e sul que registram temperaturas superiores a outras áreas da capital (leia mais em: agencia.fapesp.br/56591).

Nesse contexto, os autores destacam a importância de políticas públicas integradas que promovam equidade em saúde e ampliem as oportunidades para a prática de atividade física, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).

Florindo cita como exemplo a implantação de novas ciclovias na cidade de São Paulo nos últimos anos, política que vem estimulando os moradores a pedalarem mais. Sob a coordenação do professor, outra pesquisa constatou que a presença de ciclovias a menos de 500 metros de distância da residência foi um fator determinante para estimular o ciclismo (leia mais em: agencia.fapesp.br/58509).

A base amostral tem sido usada pelo grupo para realizar cruzamentos com outras variáveis ligadas à saúde e à prática de atividade física. Segundo Florindo, agora uma das linhas de pesquisa pretende relacioná-las com alimentação.

O trabalho recebeu apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático “Ambiente construído, atividade física e estado nutricional em adultos: um estudo longitudinal” e de bolsa de pesquisa da BRIDGE Global Health Partnership, financiada pela Universidade de Birmingham e de Illinois.

O artigo Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1186/s12966-026-01900-5.
 

FONTE/CRÉDITOS: Luciana Constantino | Agência FAPESP

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