A primeira travesti reconhecida no país era negra e escravizada. Natural de Angola, Xica Manicongo chegou ao Brasil e se tornou símbolo de luta e resistência, recusando-se a usar roupas masculinas, assumindo sua identidade feminina e contrariando as normas do século 16. Ao longo do tempo, ela teve sua trajetória e sua identidade social apagadas, mas essa história que os livros omitem é tema de um projeto cultural, financiado pelo Edital Fernanda Müller de Cultura Trans, lançado pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). As informações coletadas pela equipe podem ser conferidas no Instagram @xica.manicongo, que funciona como um banco público de pesquisa.
“É preciso resgatar personagens como Xica para a criação de novas narrativas em torno de pessoas trans e travestis negras, que tanto sofrem e são marginalizadas pela sociedade, tendo, na maioria das vezes, a rua como a única opção,” afirma Úrsula Scavalini, proponente do projeto. Para representar a trajetória de Xica, a artista dubla, faz performances e apresenta entrevistas, abordando temas diversos como moda, música, aceitação social e memórias, referenciando as travestis negras de Juiz de Fora e do Brasil.
A respeito de Xica, Úrsula conta que a partir do século 16 surgiram leis que buscavam ditar condutas, normas sociais e até o modo correto de se vestir. “Podemos citar o Código de Ordenações Filipinas, que proibia expressamente toda e qualquer forma de ‘inversão dos gêneros’ através de ato sexual ou vestimenta. A pessoa que fosse pega praticando sodomia era queimada viva diante de fiéis. Devido ao tabu e à repressão, poucos registros históricos falam sobre a existência de pessoas que desviavam desta lógica de normalidade.”
Devido à postura adotada, Xica Manicongo foi denunciada aos Tribunais do Santo Ofício, o que a tornou a primeira travesti da história do Brasil. Ela foi acusada pelo crime de sodomia e criminalizada como membro de uma quadrilha de feiticeiros sodomitas, a quimbanda. Sufocada pela pressão social, Xica Manicongo se viu obrigada a negar sua identidade e viver sob a constante vigilância da Igreja.
O Fernanda Müller de Cultura Trans é um dos cinco editais da edição 2021 do Programa Cultural Murilo Mendes, gerido pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa). O objetivo é fomentar ações e iniciativas artísticas culturais, individuais ou coletivas, promovidas pela ou para a comunidade transgênera, travesti, não-binária, queer e agênero.