O Banco Central (BC) optou por não sinalizar uma nova redução na taxa Selic, o principal instrumento de juros da economia. Em um contexto de crescentes tensões no Oriente Médio, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC declarou que a dimensão e o “ciclo de calibração” (seja para cima ou para baixo) da Selic serão determinados “ao longo do tempo”, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises.
Essas informações constam na ata da reunião do Copom da semana passada, divulgada nesta terça-feira (24). Na ocasião, o colegiado havia ajustado os juros em 0,25 ponto percentual, embora o comunicado atual foque na cautela futura.
“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras”, detalha o documento.
Antes da intensificação do conflito no Irã, a expectativa geral apontava para um corte de 0,5 ponto percentual na taxa. Contudo, o Copom agora entende que a conjuntura exige “perseverança, firmeza e serenidade” na condução da política monetária, implicando uma restrição mais acentuada e prolongada do que seria considerado adequado anteriormente.
“As expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, que seguiam em trajetória de declínio, subiram após o início dos conflitos no Oriente Médio, permanecendo acima da meta de inflação em todos os horizontes. Foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas”, esclareceu o Banco Central.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo [principalmente de commodities, como o petróleo]”, aponta a ata.
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A taxa básica de juros serve como balizador para as demais taxas da economia e representa o principal recurso do Banco Central para manter a inflação sob controle.
Definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa que os limites são 1,5% (inferior) e 4,5% (superior). Para o ano corrente, a projeção do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – o indicador oficial da inflação no país – elevou-se para 4,17%, conforme o último boletim do BC.
Os analistas também estimam que a Selic encerre 2026 em 12,5% ao ano.
Desde junho do ano anterior, a Selic mantinha-se em 15% ao ano. A última vez em que o Copom procedeu a uma redução dos juros foi em maio de 2024, quando a Selic passou de 10,75% para 10,5% ao ano. Em setembro do mesmo ano, a taxa iniciou um movimento de elevação, até alcançar os 15% anuais.
Cenários
Segundo a ata divulgada hoje, até o surgimento dos conflitos, as análises indicavam um certo arrefecimento da inflação e um crescimento econômico compatível com a política monetária em vigor. Por essa razão, na reunião de janeiro, o Copom considerou apropriado sinalizar o início de um ciclo de calibração da taxa básica de juros, ainda que mantendo seu caráter restritivo.
No entanto, a incerteza em relação ao panorama internacional elevou-se consideravelmente, conforme avaliação do colegiado.
“Além do agravamento das tensões geopolíticas, novas incertezas com relação à política econômica dos Estados Unidos colaboraram para tornar esse cenário ainda mais incerto”, complementa a ata.
No que tange ao ambiente doméstico, o Copom reitera que a solidez das contas públicas é um fator crucial para o êxito do controle inflacionário. De acordo com o BC, a política fiscal não apenas estimula a demanda no curto prazo, mas também molda a confiança dos investidores na sustentabilidade da dívida brasileira.
O Copom sublinhou que uma política fiscal contracíclica — aquela que contribui para equilibrar a economia em períodos de expansão ou recessão — é fundamental para diminuir o “prêmio de risco”. Quando o mercado percebe insegurança quanto ao pagamento da dívida pública, exige juros mais elevados para emprestar recursos ao país.
“O esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, explicou o documento.
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