Aguarde, carregando...

Quinta-feira, 04 de Junho 2026
Brasil/Mundo

A convivência com animais e a educação no combate à violência

Organizações não governamentais e a prefeitura de São Paulo detalham como o contato e o cuidado com animais podem frear ciclos de violência.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
A convivência com animais e a educação no combate à violência
© Paulo Pinto/Agência Brasil
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

O recente espancamento do cão comunitário Orelha por quatro adolescentes em Florianópolis, Santa Catarina, reacendeu o debate nacional sobre a violência contra animais. As discussões atuais focam não apenas na responsabilização dos agressores e na normalização da brutalidade, mas também em estratégias de prevenção, ressocialização e iniciativas educativas.

Enquanto os quatro adolescentes da Praia Brava demonstraram falta de empatia com Orelha e Caramelo, além de estarem sob investigação da Polícia Civil por outros atos, a Teoria do Elo surge como uma tentativa de compreender tais comportamentos. Para aprofundar o tema, a Agência Brasil contatou organizações não governamentais (ONGs) dedicadas a animais resgatados ou vítimas de maus-tratos, e a prefeitura de São Paulo, que gerencia um dos maiores programas de adoção e educação ambiental do país. A meta é entender como a promoção do contato e do cuidado com animais pode atuar na prevenção e interrupção de ciclos de violência.

O Instituto Ampara Animal, com 15 anos de atuação em defesa dos animais, promovendo cuidados, debates e apoio a abrigos e centros de adoção em todo o Brasil, lançará em breve a campanha "Quebre o Elo". A iniciativa visa alertar sobre a seriedade da violência, partindo do princípio de que atos cruéis contra animais podem ser um reflexo de outras formas de violência vivenciadas pelo agressor, seja contra si mesmo ou contra pessoas próximas. Adicionalmente, tal comportamento é um forte indício da propensão a outras violências, especialmente contra grupos mais frágeis, como crianças, mulheres e idosos.

Publicidade

Leia Também:

"É fundamental que a nossa abordagem educativa transcenda a perspectiva antropocêntrica. A Ampara sempre compreendeu que a educação é a chave para aprimorar a vida dos animais, especialmente quando direcionada a crianças e adolescentes. Denominamos essa prática de 'educação humanitária em bem-estar animal', enxergando-a como uma solução para edificar uma sociedade mais empática, com menor incidência de violência e maior respeito", detalhou Rosângela Gerbara, diretora de relações institucionais da Ampara.

Rosângela salienta que essa conexão deve ser construída progressivamente, instruindo a criança a ser afetuosa com os animais, a respeitar o ritmo e as particularidades de cada espécie. O ideal é que essa interação ocorra em ambientes naturais ou em locais que remetam ao modo de vida selvagem. Ela defende que o fomento da empatia exige o contato com animais, auxiliando a criança a compreender as emoções e carências alheias, a cultivar o respeito e a mitigar atitudes violentas e intolerantes.

Desconstruir a visão do animal como um mero objeto ou produto é um avanço crucial. Viviane Pancheri, voluntária há 15 anos na ONG Toca Segura, que abriga cerca de 400 animais no Guará II, Distrito Federal, e em uma unidade maior no Novo Gama, Goiás, destaca essa necessidade. A Toca Segura, por anos, implementou ações diretas em escolas do Distrito Federal.

"É fundamental que as crianças compreendam que os animais vivenciam emoções como medo, abandono e alegria, ou seja, que são seres sencientes", esclarece.

No santuário, famílias são acolhidas para atuar como voluntárias, seja de forma esporádica ou regular. Ali, praticam o que Viviane denomina "educação empática", demonstrando a relevância do carinho e da atenção. Dessa forma, são trabalhados valores e a percepção do cuidado pelas crianças, já na interação direta com os cães residentes da Toca Segura.

Tal interação é sempre planejada com extrema cautela, visando tanto o bem-estar da criança quanto a proteção dos animais contra estresse ou qualquer forma de agressão.

"Atuamos com animais que já enfrentaram abandono e violência. Alguns suportaram privações, enquanto outros manifestam maior dificuldade de adaptação, sendo mais retraídos", relata Viviane.

Para fomentar esses instantes de conexão, uma das táticas adotadas foi a organização de pequenos eventos, como os "domingos de passeio". Nesses dias, voluntários levam um animal para uma breve caminhada. Embora rápida, essa atividade é crucial para habituar os bichos à presença humana, tornando-os mais sociáveis e favorecendo sua adoção. Crianças que participam desses eventos também aprimoram sua interação com os animais.

"Um relato que sempre me emociona é o de uma jovem que, aos 15 anos, começou a nos auxiliar. Ela tinha receio de cães e nos procurou para superar esse medo. Em pouco tempo, já realizava diversas tarefas de cuidado. Atualmente, ela é veterinária", compartilha Viviane, comovida.

Os voluntários também colaboram nas feirinhas de troca, assegurando que os animais estejam limpos e hidratados. Na Toca Segura, essa responsabilidade é assumida majoritariamente por adolescentes. Essas ações contribuem para familiarizar os jovens com o manejo cotidiano dos animais e a importância da rotina para o bem-estar deles.

"A dinâmica é similar ao cuidado com animais comunitários. O exemplo é um fator determinante. Se um vizinho ou parente possui um animal, é aconselhável levar a criança para interagir com ele, pois o aprendizado por observação é muito significativo", aponta.

Viviane ressalta que, para crianças mais velhas e adolescentes, a questão da responsabilidade é primordial. "É aproximar esses animais, demonstrando a importância de um cuidado supervisionado. Não se trata de deixar a criança sem orientação, mas de guiar, explicando o que é certo e como fazer. A supervisão é crucial na edificação da responsabilidade, inclusive no trato com cães comunitários. Alimentar animais de rua, por exemplo, é uma excelente prática. Observar a criança oferecendo ajuda, realizando boas ações e elogiando-a por isso, contribui para a formação de um indivíduo mais humano", afirma.

Programas públicos

A prefeitura de São Paulo, por meio de seus abrigos públicos, mantém um centro de adoções que acolhe centenas de animais, majoritariamente cães e gatos. O programa municipal de adoção visa promover a guarda responsável e a educação ambiental. O local recebe grupos escolares de até 30 crianças, com acompanhamento na interação com os animais, buscando despertar a consciência nos pequenos, que se tornam multiplicadores dessas informações em seus lares.

"A criança atua como um agente multiplicador, levando para sua família e comunidade informações e a compreensão da relevância de respeitar os animais", esclarece Telma Tavares, da Secretaria Municipal de Saúde e gestora do centro.

A essência da estratégia reside em utilizar a sensibilização, durante as visitas, como ponto de partida para as orientações. O projeto "Superguardiões", iniciado em 2019, opera mediante agendamento e, em 2025, registrou mais de 1.900 visitantes, incluindo idosos. Adicionalmente a esse programa de acesso livre, há uma iniciativa de visitação voltada para crianças em fase de alfabetização, o programa "Leituras", que convida os pequenos a lerem para os cães e gatos do Centro Municipal de Adoção.

De acordo com Telma, algumas escolas integraram essa iniciativa ao processo de letramento: as crianças não só liam histórias para os animais, mas também exploravam suas origens e redigiam textos sobre eles.

"Essas ações contribuem para facilitar futuras adoções. Os animais se tornam mais dóceis, habituando-se às visitas. Naturalmente, selecionamos aqueles que não apresentam agressividade, mas esse contato auxilia, inclusive, na conscientização e educação para práticas sustentáveis", declara Telma.

O processo de adoção de um animal envolve algumas diretrizes essenciais. Telma e Viviane sugerem as seguintes:

É fundamental considerar se todos os membros da família estão em consenso e cientes das responsabilidades inerentes à posse do animal;

É preciso avaliar de maneira realista a capacidade da família de prover os cuidados necessários, não apenas financeiramente, mas também em termos de tempo e adaptação da rotina;

Refletir se o planejamento de vida familiar se alinha com a inclusão de um novo pet é crucial;

Planejar antecipadamente é vital para evitar o abandono e garantir a manutenção de cuidados apropriados.

FONTE/CRÉDITOS: Guilherme Jeronymo - Repórter da Agência Brasil

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp RCWTV
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR