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Quinta-feira, 23 de Maio de 2024
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Lindolfo Hill - um outro olhar para a esquerda 12

Série Lindolfo Hill - CARREIRA POLÍTICA NACIONAL

Alexandre Müller Hill Maestrini
Por Alexandre Müller Hill...
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Lindolfo Hill - um outro olhar para a esquerda 12
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Em 1.5.1943, o governo de Getúlio Vargas não revogou as conquistas trabalhistas, mas sim ordenou-as estrategicamente na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Infelizmente impôs “atestado ideológico” aos sindicalistas, facilitando a política industrializante com normas autoritárias que intensificaram a exploração da mão-de-obra assalariada. Era o controle ideológico sobre os trabalhadores e a tentativa de apagamento das lutas de classe. Nesse ano, Getúlio Vargas seguia no seu projeto de industrialização e criou a Companhia Vale do Rio Doce. O governo também tinha sido o responsável pela inovação da licença maternidade e do salário-mínimo em 1940, que na sua concepção deveria oferecer condições de alimentação e moradia aos trabalhadores,59 proporcionando ganhos materiais e simbólicos aos trabalhadores urbanos. O salário-mínimo passou a poder ser reclamado legalmente na justiça.

Entre 27.8. e 30.8.1943, realizou-se num sítio no sopé da Serra da Mantiqueira, em Barra do Piraí-RJ, na região do Vale do Paraíba-RJ, a II Conferência Nacional do PCB. Lindolfo Hill de Juiz de Fora e José Militão Soares de Belo Horizonte tinham sido designados para representar Minas Gerais na conferência. O trem Maria Fumaça era na época o único transporte possível, apesar de conectar os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, tinha o defeito de deixar os delegados somente nas estações ferroviárias. Para manter o sigilo, foi preciso organizar os “pontos” para levarem os participantes até o sítio de carro. Estrategicamente escolhida, Barra do Piraí-RJ era perfeita para o evento clandestino; um entroncamento ferroviário importante, mas foi preciso definir dias, horários e estações diferentes entre Barra do Piraí-RJ e Volta Redonda-RJ.

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Dois pequenos caminhões foram organizados para recolher os delegados que desembarcavam em estações diferentes previamente combinadas. De olhos vendados eram colocados sentados na boleia do caminhão e levados para o sopé da serra. De lá eles seguiam a pé até a casa do sítio, local da conferência. Neste evento liderado por Diógenes de Arruda Câmara e reunindo 48 militantes,60 que ficou conhecido como a Conferência da Mantiqueira, foi aprovada o Comitê Central do PCB com Luiz Carlos Prestes (ainda na prisão), João Amazonas, Maurício Grabois, Álvaro Câmara, Ivan Ribeiro, Astrogildo Pereira, Carlos Marighella, Francisco Gomes e Lindolfo Hill. Já que alguns dos eleitos se encontravam presos, escolheu-se um Comitê Executivo do qual Lindolfo Hill, operário da construção civil de Juiz de Fora, também fazia parte junto com Pedro Pomar, Maurício Grabois, João Amazonas, José Medina, Diógenes Arruda Câmara e Milton Caires.

Reconhecendo a liderança de Prestes, esse novo grupo dirigente assumiu a frente do partido com a missão de reunificá-lo e reorganizá-lo, depois que o núcleo dirigente anterior tinha desaparecido com prisões dos seus antigos membros.62 Com os reflexos da Segunda Guerra Mundial, os delegados comunistas aprovaram uma nova orientação política imediata de união nacional contra o nazifascismo, luta pelas liberdades democráticas, pela anistia, pela luta contra a carestia e a legalidade do PCB. Depois da Conferência da Mantiqueira Lindolfo Hill voltou para a sua vida de pedreiro e membro da diretoria do sindicato, porém agora também com uma nova função de membro do Comitê Central do PCB, o que fez com que Lindolfo precisasse se deslocar diversas vezes para o Rio de Janeiro e para Belo Horizonte.

A Aliança entre URSS, USA, França e Inglaterra para derrotar a Alemanha de Hitler trouxe ventos de “tolerância” ao comunismo influenciado pela União Soviética e a esperança de legalização do PCB no Brasil. No ano seguinte, já vivendo na capital mineira, em 12.2.1944, o atuante Lindolfo se tornou o primeiro presidente na recém-fundada Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário no Estado de Minas Gerais (FETICOM-MG). A Federação, com sede em Belo Horizonte, representava o terceiro Grupo de Trabalhadores nas Indústrias da Construção e Lindolfo Hill atuava na coordenação e assistência aos sindicatos afiliados, além de representar a categoria profissional. Esporadicamente em Juiz de Fora para visitar os familiares e amigos, o atuante Lindolfo foi designado pelo Presidente do Conselho Regional do Trabalho da terceira Região para suplente de vogal representante dos empregados da Junta de Conciliação e Julgamento de Juiz de Fora.

Em 28.2.1945, o Governo Federal decretou o Ato Adicional n.9, fixando o prazo para a marcação das eleições presidenciais, para governos estaduais e para as legislaturas, desencadeando assim a reorganização partidária. Em 18.4.1945, o PCB finalmente conquistou a anistia com o Decreto-lei n.7474, que possibilitou a volta dos que se encontravam no exílio. Os presos políticos foram libertados, incluindo Luiz Carlos Prestes, e foi conquistada uma relativa liberalização da sindicalização e a liberdade de organização partidária, inclusive do PCB. Foram mantidos os princípios básicos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943, que proibia a formação de confederações gerais de trabalhadores, mas foram admitidas associações representativas de categorias profissionais específicas. Junto com seus camaradas que lutavam pela liberdade e pela democracia sindical, Hill passou a ser um atuante membro também em São Paulo. Com a anistia,  experientes ex-presos políticos foram reintegrados aos quadros do PCB, mas no total não passavam de 4.000!

Luiz Carlos Prestes foi finalmente colocado em liberdade em 19.4.1945 e o PCB vivia os bons ventos da sonhada legalidade partidária. O atuante Lindolfo Hill ajudou a formar e coordenar o Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), órgão intersindical de envergadura nacional, fundado por iniciativa dos comunistas em 30.4.1945 no Rio de Janeiro. O órgão tinha sido fundado com a participação de cerca de 300 líderes sindicais oriundos de 13 estados diferentes e tinha o objetivo de não só unificar os trabalhadores, mas também de inserir os sindicatos e o movimento operário na política geral e nos movimentos democráticos. O MUT foi criado aproveitando os espaços abertos por Vargas, porém não recebeu o reconhecimento do Ministério do Trabalho e assim escapava ao controle dos sindicatos oficiais. Mas como o movimento tinha sido organizado sob a influência do PCB foi logo classificado ironicamente como “organização de agentes provocadores moscovitas”. Já Luiz Carlos Prestes valorizava e considerava o MUT como a organização máxima do proletariado e o movimento defensor de seus direitos, uma alternativa organizatória oposta à estrutura sindical oficial, tendo como objetivo fundamental a criação da Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

Na prática, os objetivos do MUT eram grandes e compatíveis com as aspirações de Lindolfo Hill: 1) A conquista da melhoria do nível de vida dos trabalhadores; 2) A luta pelo aumento dos salários, a contenção da carestia (inflação), 3) A maior eficiência da produção, a cooperação com os patrões progressistas; 4) A conquista da liberdade sindical; 5) A transformação do MUT em uniões e federações sindicais. O Movimento Unificador dos Trabalhadores soube aproveitar bem a paralisia das direções sindicais e assumiu o papel de interlocutor dessas categorias nas negociações com o governo. A associação de caráter interprofissional MUT fugia aos moldes da CLT e, no seu ato de criação, pretendia cooperar com os profissionais liberais, os estudantes, os intelectuais, os artistas, além da burguesia industrial, comercial, financeira e agrária e das forças armadas - o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.

A proposta era lutar pelo ingresso maciço dos trabalhadores nos sindicatos, pois o MUT considerava também a unidade dos trabalhadores fundamental para o projeto de construção de um Brasil industrializado, com uma grande agricultura mecanizada, de um amplo e estável mercado interno, baseado na mais alta capacidade aquisitiva do povo e dos trabalhadores. Lindolfo Hill tinha sido designado pelo PCB para funcionar como o braço sindical do partido dentro do MUT. Foi confiada a Hill a importante missão de unificar os trabalhadores, promover a sindicalização em massa, estender a sindicalização aos trabalhadores rurais e reunir toda a classe em uma central única. Nesta época, a classe operária rural contava com mais de 20 milhões de camponeses sem o menor trato com a terra, analfabetos, vivendo de culturas de subsistência, com pouca higiene, conforto e cultura e trabalhando com equipamentos atrasados.

O MUT começou a lutar imediatamente pela completa liberdade sindical, rompendo com as injustificáveis restrições e interferências.73 Com a nova liberdade, o PCB crescia de modo excepcional e, em Minas Gerais, em 30.6.1945, fundava-se o primeiro Comitê Estadual. Como secretário-geral foi designado Armando Ziller, nascido no Rio de Janeiro em 3.12.1908, fez seus estudos secundários como interno no Colégio Metodista Granbery, de Juiz de Fora, onde seu pai lecionava. Ziller conheceu o comunismo em Juiz de Fora através de Luiz Zuddio, mas, aos 17 anos, tinha abandonado os estudos e se tornado funcionário do Banco do Brasil para poder ter condições financeiras de se casar. Apesar de ter passado no concurso pensava: “um banco é a cidadela do capitalismo, a caixa-forte; é onde está a raiz de todo esse mal. O que vou fazer lá dentro?” Entre os membros efetivos do Comitê Estadual do PCB estava também Lindolfo Hill, representante da construção civil, que em breve seria designado Secretário de Organização do partido em Minas Gerais.

No plano internacional, depois do final do governo da Alemanha nazista com a rendição em 8.5.1945, os chefes militares russo Stálin, americano Truman e o britânico Churchill se encontraram na cidade de Potsdam, na Alemanha, no dia 17.7.1945. Trocaram fotos e brindes pela cooperação pacífica e ressaltaram o papel importante do presidente americano Truman na manutenção da amizade russo-americana. A URSS socialista tinha participado no processo vitorioso do conflito, mas o mundo receava o crescimento do movimento socialista pelo mundo. Apesar disso, as potências vencedoras sublinhavam o entendimento mútuo e o trabalho em equipe para a reconstrução da Alemanha e para a saída para o caos causado pela Segunda Guerra. Os bons ventos de esperança e cooperação vindos da Europa refletiam na liberdade do PCB no Brasil.

No estádio do Pacaembu na capital paulista, em 15.7.1945, no evento do partido, mais de cem mil pessoas se reúnem para ouvir Luiz Carlos Prestes. Após nove anos incomunicável na prisão, Prestes aponta o caminho da união nacional, pedindo as massas trabalhadoras da cidade e do campo que usem as armas da democracia: a livre discussão, livre organização e sufrágio universal para construir o futuro do Brasil.76 Nas Minas Gerais, o movimento comunista estava em ascensão. No dia 18.7.1945, Lindolfo foi junto com o companheiro Orlando Franchine, ambos representando o Comitê Municipal do PCB de Juiz de Fora, ao ato de instalação do Comitê Municipal do PCB de Barbacena. No mês seguinte, com as atividades políticas de Hill se intensificando, ele viajou para o Rio de Janeiro no dia 10.8.1945 e, durante as reuniões do Comitê Nacional do PCB, Lindolfo tomou a palavra, fez algumas sugestões sobre os informes dos trabalhos sindicais sobre a organização, divulgação e trabalho de massa.

Além dos líderes comunistas de Juiz de Fora que trabalhavam bastante no campo ideológico, o PCB local tinha muitos ativistas e entre eles existia sempre uma diferença de postura. As más-línguas sempre faziam piada sobre essa dificuldade de unidade dentro do próprio partido e diziam que “os comunistas só se uniam, quando estavam dentro da cadeia”. O que não era verdade, pois essas divergências internas eram razoáveis e naturais, tendo em vista as discussões em relações aos métodos de se chegar no poder. Historicamente, o PCB sempre foi um partido muito preocupado com o “como fazer”. Ideologicamente seus membros sempre acompanhavam as situações calamitosas daqueles que sofriam, praticando um ativismo muito pragmático e muito baseado na solidariedade. Nessa linha, em Juiz de Fora, Lindolfo Hill e Irineu Guimarães mantinham-se focados num idealismo que emocionava desde o princípio do PCB na cidade.

Com o fim da II Guerra Mundial e já em liberdade, no dia 14.8.1945, durante o discurso de posse de Luiz Carlos Prestes como secretário-geral do PCB na 14. Sessão Plenária do PCB no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, o líder inspiraria o partido com a definição de Comunista: “Comunista é aquele que quer a negação disso que aí temos, a negação da miséria e da fome, do atraso, do analfabetismo, da tuberculose, do impaludismo, do barracão e do trabalho de enxada de sol a sol nas fazendas do senhor, além da negação da censura à imprensa e das limitações de toda ordem às liberdades civis, a negação enfim de exploração do homem pelo homem”. Junto com Luiz Carlos Prestes na mesa diretora que presidiu a sessão, conhecida como Pleno da Vitória, se encontravam os membros do Comitê Nacional do PCB: Pedro Pomar, Lindolfo Hill, Ivan Ramos Ribeiro, Arruda Câmara, Maurício Grabois, Álvaro Ventura, Francisco Gomes, Jorge Hermes e Agostinho Dias de Oliveira. Prestes ainda demonstrou satisfação pela entrada do PCB na legalidade e na participação da reconstrução democrática da nação brasileira.

Nessa época, Lindolfo Hill era considerado um dos elementos de expressão do PCB e o “mais jovem membro efetivo” da Comissão Executiva Nacional do Partido Comunista do Brasil no Rio de Janeiro. Com apenas vinte e oito anos de idade, ele já tinha dez anos de lida partidária.82 A comissão executiva é o órgão dirigente executivo do comitê central com atribuições de, entre outras, dirigir toda atividade partidária. O PCB não só voltava a editar semanalmente o jornal A Classe Operária como seu órgão central e A Tribuna Popular no Rio de Janeiro, mas tinha outros 25 jornais de diferentes tipos em oito estados, possuindo editoras em vários deles, publicava livros, folhetos e organizava palestras e cursos para os militantes. O país parecia ingressar num período de pleno exercício das liberdades democráticas depois do PCB ter atuado clandestinamente por quase duas décadas. Mas liberdade significava para os comunistas assumir responsabilidade política. Antes perseguido, agora o partido estava embalado pelos ventos da tolerância das forças de direita, que não podiam deixar de reconhecer a importância da URSS para a derrota do inimigo nazista.

A derrota do regime nazifascista na Europa, a admiração pelos feitos militares da União Soviética e a legalidade atraíram um maior número de pessoas para o PCB. O partido foi surpreendido com o volume de novos adeptos e a atração contrastava com a incapacidade e a falta de experiência administrativa em organizar a estrutura partidária. Diante da “enchente” de novos filiados e simpatizantes, o partido chegou a ter 200 mil afiliados, o que aumentava visivelmente a influência do PCB no movimento sindical. Em poucos meses pós legalidade, em vista desta explosão da militância, perceberam que o partido não tinha um contingente de pessoas preparadas para dirigir tal crescimento. O PCB encontrou sérias dificuldades de elaborar políticas internas para se avançar na luta dos trabalhadores rumo ao socialismo, bem como planos para fortalecer a própria organização partidária.86 Os ventos da legalidade do PCB no Brasil sopravam também na cidade de Juiz de Fora, Lindolfo Hill e seus companheiros providenciaram a instalação do Comitê Municipal e alugaram parte de um prédio na esquina da rua Halfeld. Hill era considerado um atuante secretário político do Comitê Municipal de Juiz de fora do PCB e às vezes assinava pelo secretário estadual do Comitê Estadual do PCB, Jacinto Augusto de Carvalho.

Ainda em agosto de 1945, foi convocado um congresso na Europa de todas as organizações operárias do mundo que seria realizada em Paris em setembro deste ano. Na delegação de cunho semioficial foram Pedro de Carvalho Braga do Rio de Janeiro, Guilherme Tubi de São Paulo e Lindolfo Hill de Minas Gerais. O Governo Federal custeou as viagens e concedeu passaporte diplomático para os delegados. O PCB tinha conseguido finalmente vida legal em todo território brasileiro. No dia 24.8.1945, liderados por Hill, os três delegados do MUT para o Congresso Operário Mundial foram recepcionados no Rio de Janeiro às 17 horas pelo embaixador da França no Brasil, o general D’astier de La Vigerie, o qual ofereceu um coquetel.

Em seu discurso, Alcy Pinheiro, representando o MUT, declarou que o proletariado francês tinha sido a viga mestra da formidável vitória dos princípios da liberdade e da justiça na França. Foto: Jornal Tribuna Popular de 25.8.1945. Lindolfo Hill (1. da direita) Visando às eleições presidenciais e legislativa de 2.12.1945, o PCB entrou em 3.9.1945 com pedido de registro provisório no Tribunal Superior Eleitoral para se qualificar para as disputas eleitorais. Ainda em 1945, esse descendente de germânicos se tornou o primeiro membro da família Hill a retornar à Europa de seus antepassados germânicos. Junto com outros membros do PCB, Lindolfo partiu para Paris fazendo o caminho inverso de seu trisavô Franz Hill na travessia do atlântico para ser um dos representantes dos trabalhadores brasileiros no Congresso da Federação Internacional do Trabalho em Paris.

Assim, no dia 5.9.1945, Lindolfo Hill e os companheiros, sempre muito elegantes de terno, gravata e chapéu, zarparam do cais do porto do Rio de Janeiro no navio “Pedro II”, saudados por uma multidão de trabalhadores, desejando aos que partiam votos de boa viagem. Em entrevista ao Jornal Tribuna Popular RJ, Lindolfo Hill enfatizou que: A participação em um congresso mundial através de legítimos representantes do proletariado acentua a responsabilidade como trabalhadores.90 A Tribuna Popular, o órgão mais importante para a ampliação política do PCB, de 9.9.1945, trazia uma reportagem sobre “Os que forjaram o Partido Comunista para a etapa da legalidade”: entre os conhecidos Arruda Câmara, João Amazonas e Maurício Grabois estava o jovem Lindolfo Hill com os predicados de possuir um notável poder mobilizador de massas. Com apenas 28 anos, já reivindicava os direitos de sua classe e êxitos notáveis no trabalho na ilegalidade.

A legalidade do PCB representava a saída do casulo e o início das atividades expostas. Os representantes do PCB estadual de MG tinham que enviar os documentos necessários para o registro e também eram obrigados a enviar os nomes dos responsáveis pela direção estadual, que ainda era uma entidade clandestina. Para tanto foi realizada uma assembleia na capital Belo Horizonte, no Estádio do Paissandu onde, às pressas, uma lista dos membros do Comitê Estadual foi elaborada para ser apresentada no evento: Armando Ziller, José Militão Soares e Adelino Roque Vieira como secretários, como encarregado da divulgação foi designado Marco Antônio Tavares Coelho, depois conhecido como secretário de Agitação e Propaganda (AGITROP). Outros membros do interior estavam na direção como o líder ativista Lindolfo Hill, de Juiz de Fora, Jacinto Augusto de Carvalho, da cidade de Raposos e Nelson Cupertino, de Uberlândia. Era o primeiro ato público do PCB em Minas Gerais.

Ainda durante a vigência do governo Vargas, em 1945, com a finalidade de promover a articulação do Estado com a classe trabalhadora urbana por meio da escolha de representantes ligados ao operariado, foi criado o partido PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). A criação deste partido visava a formar uma ligação com os trabalhadores brasileiros para esvaziar a influência dos comunistas no movimento operário. Por estar na legalidade, a sigla PTB logo se tornou uma alternativa para os trabalhadores que não desejavam se aliar às concepções comunistas do PCB.94 Em razão do longo período na clandestinidade, em várias eleições os comunistas optaram por concorrer aos pleitos pela legenda do PTB: inclusive Lindolfo Hill em Juiz de Fora. A criação do Partido Trabalhista conteve parcialmente e dividiu a influência do PCB entre os trabalhadores. Em Juiz de Fora, outro destaque do diretório do PCB Municipal era Marco Antônio Tavares Coelho, sob eterna vigilância dos órgãos de segurança. Já a militância vinha dos ramos mais expressivos de setores que mais empregavam o operariado. Na cidade não tinha uma greve que não mobilizasse os alfaiates, os carroceiros e os trabalhadores em calçados. Depois se juntaram com grande força os tecelões e os motoristas. As greves eram consideradas pelos comunistas como a forma de manifestação mais eficiente e produtiva, bem como teste de arregimentação de lideranças.

Assim o grupo ativo do PCB de Juiz de Fora já tinha um bom relacionamento em três ou quatro fábricas de tecidos e uma empresa estatal que já fabricava material bélico para o Exército Brasileiro desde 1934, além de alguns grupos estudantis e universitários. Hill se encontrava em Paris no Congresso Sindical Mundial que acontecia em Paris entre os dias 28.9. - 8.10.1945. Lá compareceram delegações de todos os países livre, organizações operárias internacionais como a CGT Confédération générale du travail francesa, a União dos Trabalhadores da Inglaterra, a FSO dos Estados Unidos, etc. Ausentaram-se aqueles que se encontram ainda sob governos fascistas como Espanha, Grécia, Paraguai e outros que não puderam ser admitidos como a Alemanha e outros. No Brasil grupos trabalhistas ligados a Getúlio participaram da campanha “Queremismo” pela sua manutenção no poder, mas os setores de oposição temerosos se juntaram aos militares e juntos orquestraram a derrubada do “ditador” Getúlio Vargas, deposto em 29.10.1945. Mais um golpe militar com a “fachada restauradora” da democracia.

Logo em seguida Lindolfo chegou de volta ao Brasil de avião no dia 8.11.1945 no Aeroporto Santos Dumont e foi entrevistado ainda no saguão pelo Jornal Tribuna Popular interessado nas impressões do presidente da delegação brasileira sobre a primeira grande assembleia mundial de trabalhadores após o esmagamento militar do nazifascismo no mundo. Ainda no aeroporto, Hill declarou que: “Sem a participação direta e ativa do proletariado na vida política não pode haver democracia.” Para Hill, a Conferência tinha sido um marco internacional da construção pacífica de formas superiores de existência democrática para a humanidade. Lindolfo enfatizou que na Conferência Mundial estavam representados sessenta milhões de trabalhadores com vontade política na reestruturação do mundo sobre bases democráticas.

A comitiva brasileira teve a palavra no congresso e informou sobre a participação da FEB, a construção de uma nova democracia brasileira. Para orgulho de Lindolfo Hill, o MUT foi admitido internacionalmente por unanimidade como genuína expressão do movimento sindical no Brasil. A experiência de Hill em Paris possibilitou ao ativista brasileiro entrar em contato com elementos antifascistas internacionais e trabalhar para cimentar a solidariedade dos povos através da democracia.97 Era uma palavra de ordem do partido que todos os comunistas deveriam ficar dentro de seus sindicatos, não só como espectadores, mas como os mais participantes, primando pela assiduidade às reuniões, pela parte saliente nas resoluções, discutindo e levantando problemas. Era uma linha geral a necessidade de se intensificar o desenvolvimento do MUT, pois tinha sido através do representante Lindolfo Hill que, pela primeira vez na história do proletariado brasileiro o Brasil, tinha sido representado em Paris! A tarefa de fortalecer o PCB deveria ficar com os Comitês Municipais e com as células, responsáveis por organizar secretariados sindicais a fim de evitar as debilidades.98 No dia 10.11.1945, somente dois dias depois da chegada de Hill ao Rio de Janeiro, o PCB convocou os comunistas para uma homenagem a Lindolfo Hill no Instituto Nacional de Música que seria realizada no dia 13 às 20 horas.99 A numerosa comissão organizadora do comício sindical representando 53 sindicatos do Distrito Federal e do Estado do Rio foi apoiada pela massa trabalhadora que queriam registrar a satisfação dos trabalhos da comissão em Paris.

Poucos dias antes, no dia 2.11.1945, o Comitê Municipal do PCB em Juiz de Fora tinha lançado o Manifesto do Comitê Municipal do PCB ao povo, publicado no jornal Diário Mercantil,101 jornal de Juiz de Fora dedicado ao público mais “popular” da cidade. Com a redemocratização, surgem novos partidos políticos de caráter nacional e as eleições para presidente da república voltam a ocorrer de forma direta, com a consagração do sufrágio universal. Na capital Belo Horizonte, na esquina da avenida dos Andradas com rua Carijós, então sede provisória do PCB em Minas Gerais, Hill aguardava com seus camaradas o comício no qual seriam anunciados os candidatos ao cargo de deputado estadual nas eleições prometidas para o final daquele ano. A movimentação política no país era intensa e nesta ocasião Hill foi escolhido pelo PCB mineiro como um dos candidatos a deputado estadual para disputar as eleições de 2.12.1945. No dia 15.11.1945, em reunião na Escola Nacional de Música no Rio de Janeiro foram apresentados os candidatos a senadores e deputados federais do PCB.

Homens de várias profissões, autênticos filhos do povo, operários, camponeses, agricultores, comerciantes, industriais, intelectuais, médicos advogados, engenheiros, escritores e militares. Entre eles estava Lindolfo Hill, candidato a deputado estadual à histórica constituinte com a participação do PCB. Outro juiz-forano o Professor Irineu Guimarães também estava na lista de candidatos a deputado por Minas Gerais. Em discurso, Luiz Carlos Prestes reafirmou o programa mínimo de união nacional do Partido Comunista e leu o compromisso do partido: “Os 100 Jornal Tribuna Popular RJ. 11.11.1945.

Carreira Política Nacional candidatos registrados sob a legenda do PCB, sendo comunistas ou não, comprometem-se ante a Nação a serem no parlamento brasileiro os mais intransigentes e infatigáveis lutadores contra o fascismo e a tudo fazerem pela ampliação e consolidação da democracia em nossa terra”. Em Juiz de Fora, no dia 28.11.1945, os discursos dos comunistas Lindolfo Hill, do engenheiro Yêddo Daudt Fiúza e João Amazonas foram aplaudidos no comício com 35 mil pessoas que transbordava na Praça João Penido. Na ocasião, o então candidato a deputado estadual, Lindolfo Hill, usando a palavra foi muito aplaudido ao dizer que: “Os trabalhadores de Juiz de Fora tinham a honra de receber o grande homem e candidato à presidência do Brasil Yêddo Fiúza, por quem tanto esperaram para marcharem juntos para a democracia”.108 Em Belo Horizonte, em 30.11.1945, a Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário do Estado de Minas Gerais, presidida por Lindolfo Hill solicitou ao Ministério do Trabalho a aprovação das eleições de sua nova Diretoria.

Em despacho, o Sr. Ministro, aprovou as eleições realizadas e autorizou posse imediata dos Delegados Sindicais, devendo o Conselho de Representantes, obedecer à seguinte constituição: pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção, Otávio José Soares e Cândido Siqueira de Belo Horizonte; pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil José Gonçalves Pimentel e Lindolfo Hill de Juiz de Fora, entre outros representantes de diversos sindicatos. Nas eleições de 2.12.1945, o PCB conseguiu eleger por Minas Gerais o deputado estadual Armando Ziller com 2845 votos. O primeiro suplente foi nada menos que Lindolfo Hill, com 1600 votos. Nessa eleição o PCB não elegeu Yêddo Fiúza para presidente, tendo sido eleito o general Eurico Gaspar Dutra com 3,2 milhões de votos e candidato apoiado por Getúlio Vargas. Porém o sucesso do PCB foi inconteste, Fiúza teve 10% dos votos válidos e o partido elegeu para senador Luiz Carlos Prestes pelo Distrito Federal com 157.397 votos e quatorze deputados federais.

Com o bom resultado das eleições, em 1945 Lindolfo se mudou para a capital mineira, foi também membro da Comissão Executiva do Comitê Estadual, em Belo Horizonte. Além disso Hill colaborava com alguns trabalhos no recém-fundado Jornal do Povo. Em 21.12.1945, organizações trabalhistas da capital mineira, tendo à frente o Sindicato dos Trabalhadores em Construção e dos Mobiliários homenagearam o líder sindical Lindolfo Hill pela destacada atuação na França durante o Congresso Mundial, onde representou os trabalhadores brasileiros.

Com atividades intensas no Brasil, no dia 11.1.1946, às 20 horas, Lindolfo Hill participou como convidado do 1. Congresso Sindical dos Trabalhadores do Estado de São Paulo com a designação de falar sobre sua experiência na Conferência Sindical Mundial. Hill representava a Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de São Paulo. Em 31.1.1946, tomou posse o novo presidente, o general Eurico Gaspar Dutra e logo em 1.2.1946 iniciaram-se os trabalhos da Assembleia Constituinte. Ainda em fevereiro, o Comitê Metropolitano do Rio de Janeiro do PCB convocou o povo carioca para manifestar-se contra a Carta fascista de 1937 no comício monstro no Largo da Carioca; entre os oradores da noite estavam programadas as falas dos senadores Luiz Carlos Prestes e Pedro Pomar, de deputados e do líder do MUT Lindolfo Hill.

Prestes dizia que: “Não basta falar em união, é preciso lutar por ela e jamais esquecer de que se trata de uma luta contra o fascismo”. Em 16.3.1946, em entrevista ao jornal Tribuna Popular Hill protestou contra a polícia ter classificado o movimento MUT como ilegal, sendo que em todo os países democráticos as liberdades dos movimentos sindicais são considerados fatores de equilíbrio econômico, político e social. Lindolfo lembrou que quem foi derrotado foi o fascismo e que o MUT, reconhecido internacionalmente (!), era um instrumento da unidade e da solidariedade dos trabalhadores a serviço da democracia e da luta contra o fascismo.

No domingo, dia 17.3.1946, o líder sindical Lindolfo Hill foi esperado às 16 horas na Conferência no Sindicato dos Marceneiros, sob o patrocínio do Comitê dos Portugueses Antifascistas do RJ. O tema escolhido foi “A situação atual dos trabalhadores portugueses” e o local a sede de Sindicato dos Marceneiros do RJ na rua Marechal Floriano 225. O ponto alto da conferência foi um depoimento de um trabalhador brasileiro contra a ditadura de Salazar que desmente a imagem do paraíso português. Lindolfo Hill falou com propriedade de quem, depois de Paris, tinha passado alguns dias em Portugal onde pode visitar e presenciar a miséria em que vive o povo português e o ódio que estes preservam contra os governos opressores como o do ditador Salazar.

Lindolfo relatou as condições dos campos de concentração do Tarrafal em Portugal, que na sua vivência nada deviam aos campos de concentração nazistas. Ainda no mês de março foi promulgado o Decreto-Lei n. 9.070, o qual, em meio a algumas disposições sobre dissídios coletivos de trabalho, regulamentava o direito de greve. Essa regulamentação, na prática, dava ao governo o direito de declarar todos os movimentos grevistas ilegais. E a repressão contra o MUT prosseguia; no início do mês de abril, foram presos Joaquim Barroso e Alcir Pinheiro, dois importantes dirigentes da organização. O líder Lindolfo Hill discursou em 2.4.1946 na sessão plenária de domingo do Sindicato dos Empregados do Comércio Hoteleiro, na rua do Senado 264, no Rio de Janeiro, sobre o direito de sindicalização para os servidores públicos, os assalariados e empregados domésticos. Hill lembrou que, cedendo à pressão dos reacionários, o governo se distanciou cada vez mais da classe operária e que este delicado momento exige dos trabalhadores uma enorme capacidade de organização: tendo sido muito aplaudido!119 Na época, as atividades do sindicalista Lindolfo Hill eram intensas. No dia 9.4.1946, o jornal publicou a convocação para as palestras da Comissão Executiva do Comitê Metropolitano. Como ouvintes para as diversas palestras do dia 11.4.1946, quinta-feira, às 20 horas, foram convidados todos os membros dos secretariados dos comitês distritais e das células fundamentais e das respectivas seções de células divididos em grupos específicos. Para o grupo II, relativo às células e distritais de Portuários e Méier, bem como as Células “7 de Abril” e “Antônio Passos Junior”, foi designado o orador Lindolfo Hill com o tema “Situação Internacional - Estados Unidos, Inglaterra e URSS”. O local escolhido foi o Instituto dos Arquitetos, no Edifício Odeon.

Nos dias seguintes, Lindolfo participou de palestras nos outros 4 grupos do PCB – RJ, sempre falando para os membros sobre o mesmo assunto. Em 20.4.1946, o jornal A Classe Operária publicou que os comunistas, para melhor organizarem suas propagandas e desenvolvimento, decidiram centralizar suas atividades nas localidades que eles chamavam de “Cidades Fundamentais” de Minas Gerais, na seguinte ordem: Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberlândia, Uberaba, Nova Lima, Raposo, Sabará, Conselheiro Lafaiete, Divinópolis, Itajubá e Caeté. No dia 1.5.1946, Lindolfo participava do Congresso em sua cidade natal Juiz de Fora, que ocorreu no Sindicato dos Bancários de Juiz de Fora às 20 horas. O sindicato tinha sido fundado em 27.10.1932 e funcionava nesta época na rua Halfeld 777.

Na ocasião, elegeu-se o deputado estadual Armando Ziller como representante mineiro na comissão para o congresso Nacional. No discurso de encerramento do II Congresso dos Trabalhadores de Minas Gerais, Lindolfo Hill alertou a todos: “Precisamos estar atentos contra os que pretendem fechar os organismos dos trabalhadores para deixar aberta a porta da III Guerra Mundial” Hill, ao tomar a palavra, falou, eloquentemente e com seu típico vozeirão, que as provocações contra o MUT não eram por acaso, mas sim movidas por interesse dos inimigos dos trabalhadores, dos traficantes de armas, dos criadores do câmbio negro e dos imperialistas. Lindolfo falou como quem parecia “antever o futuro” do movimento dos trabalhadores; o golpe ao movimento viria em seguida com o governo proibindo a existência do MUT, decretando, em maio de 1946, a intervenção nos sindicatos e suspendendo as eleições sindicais, logo depois, em setembro de 1946, o MUT foi substituído pela Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB).

O Governo não tinha reconhecido a CGTB (Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil), mas não impedia essas reuniões. Como a lei não permitia tanta brutalidade, a CTB continuou funcionando na Rua Evaristo de Morais - RJ. Já a CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria) foi reconhecida e teve Deocleciano Holanda Cavalcanti como primeiro presidente eleito, com todas as regalias e mordomias concedidas pelo Governo. Fizeram um banquete onde um dos camaradas do PCB participou, era o Lindolfo Hill, de Juiz de Fora, ainda desconhecido deles, porém já membro da comissão nacional executiva do PCB. Em 5.5.1946, houve uma profunda modificação no Comitê Estadual de Minas Gerais do PCB: Jacinto Augusto de Carvalho assumiu como Secretário Político; Lindolfo Hill como Secretário de Organização; Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior como Secretário de Educação e Propaganda; Armando Ziller como Secretário Sindical e Erdir Pena Oliveira como Secretário de Massas e Eleitoral.

Mas essa alteração requerida ao TRE seria homologada somente em 27.11.1946. No dia 16.5.1946, o PCB comemorou solenemente o aniversário do II Congresso do Partido Comunista do Brasil e preparou diversas conferências que culminaram com o grande comício no dia 23 deste mês, no Largo da Carioca, Rio de Janeiro. Vários membros da Comissão Executiva se dividiram em diversos eventos. João Amazonas e Lindolfo Hill foram designados para serem os representantes da Executiva Nacional em Niterói. Em julho de 1946, o PCB convocou a III Conferência Nacional, de onde saiu o verdadeiro programa do partido. Com a palavra os líderes Luiz Carlos Prestes, Lindolfo Hill, Jorge Herlein e Agostinho Oliveira. Na oportunidade Hill declarou que: “Esta é uma grande oportunidade do PCB de analisar os problemas da pátria e Minas estará preparada para levar para a Conferência as conclusões das atividades do PCB em Minas Gerais, principalmente no período da legalidade”.

Na ocasião da III Conferência Nacional do PCB, no dia 8.7.1946, Lindolfo Hill participou da mesa diretora do Comitê Central junto com Luiz Carlos Prestes - secretário-geral, Álvaro Ventura - tesoureiro, Agostinho Dias de Oliveira, Jorge Herlein, Maurício Grabois, João Amazonas, Diógenes de Arruda Câmara, Clóvis Oliveira, Pedro Pomar e Francisco Gomes. Sempre discreto, Lindolfo Hill fazia mais uma vez parte do seleto Comitê Central do PCB nacional. O evento contou com a participação de representantes do Chile, Argentina, Uruguai e Cuba. Enormes filas se formaram defronte ao auditório da Associação Brasileira de Imprensa para participarem do concorrido evento e ouvir as palavras do secretário nacional Luiz Carlos Prestes, já transformado em “mito” por Diógenes de Arruda Câmara.

Em Juiz de Fora, Lindolfo Hill dividiu com Irineu Guimarães o protagonismo do grande capítulo do Partido Comunista local, porém, pelo momento político em que o Brasil vivia, foram demonizados pela sociedade conservadora juizforana. O PCB conseguiu eleger comunistas para o legislativo da cidade com base no fato de que os votos dos eleitores comunistas eram muito concentrados, baseada na capacidade de mobilização, capilaridade do movimento e poder de divulgação e de lastrear os líderes para os cargos disputados. Além disso a cidade tinha uma base trabalhista muito sólida que apoiavam as causas das lutas de classe por melhorias da vida e eliminação da inflação. 

O operário Lindolfo Hill era o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Juiz de Fora e com a reconquista das liberdades políticas, nas eleições municipais de 19.1.1947, a cidade de Juiz de Fora, com 34.408 eleitores, uma população de 70.849, elegeu seu primeiro vereador comunista. Nesta época, os situacionistas se alinhavam no PSD (Partido Social Democrático) e Getúlio Vargas tinha estimulado a criação do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Além destes dois no cenário político em oposição a Getúlio alinhavam-se a UDN (União Democrática Nacional) e o PR (Partido Republicano). Foto: Santinho de propaganda dos vereadores eleitos.136 Em Minas Gerais, a maior força era sem sombra de dúvida o PSD e Juiz de Fora teve o primeiro prefeito eleito pelo povo em sufrágio universal: o médico Dilermando Martins da Costa Cruz Filho pela coligação PSD/PR/ PTN.

Já Lindolfo Hill, a maior expressão do PCB de Juiz de Fora, venceu as eleições com o número 13 filiado ao partido PTB, tendo em vista que o Partido Comunista do Brasil estava na informalidade com registro cancelado no Tribuna Superior Eleitoral. Por isso o partido comunista tinha sido obrigado a se aliar com outros partidos para participar das eleições. Com toda dificuldade, foi o reconhecimento do trabalho e a ascensão do pedreiro e representante da construção civil Lindolfo Hill à Câmara Municipal,138 eleito com consideráveis 938 votos. Lindolfo foi o segundo mais votado na cidade, depois de Hildebrando Bisaglia também do PTB com 1212 votos. Os eleitos foram diplomados no dia 8.12.1947 para legislarem na cidade como vereadores entre 1947 e 1950.

Poucas vezes os candidatos marxistas Lindolfo Hill e Irineu Guimarães tinham condições de apresentar seus propósitos ideológicos com clareza e segurança; este e outros motivos impediram a legenda comunista de medir sua real força nas urnas. Em 10.9.1946, o Brasil ganhara uma nova Constituição Nacional e a participação do PCB foi decisiva em defesa permanente da democracia e dos direitos democráticos. Nos discursos do senador Prestes na constituinte, a reforma agrária era um tema recorrente: “(...) sem redistribuição da propriedade latifundiária (...) não será possível debelar grande parte dos males que atingem o país (...)”. Mesmo com a maioria das emendas progressistas do PCB rejeitadas, foram retomados princípios democráticos e sociais que tinham sido consagrados pela Constituição de 1934, mas que tinham sido abolidos pela ditadura do Estado-Novo. Depois da constituinte nacional, os Estados ficaram na obrigação de promulgarem suas próprias constituições estaduais. No dia 18.10.1946, o PCB apresentou sua lista de candidatos à Assembleia Constituinte Mineira de 1947 escolhidos pela direção nacional do partido: Lindolfo Hill, Jacinto Augusto de Carvalho, Ticiano Ribeiro da Luz, Orlando Bonfim Júnior, Armando Ziller, Afrânio Azevedo, Renato Teixeira Magalhães, Irineu Guimarães e outros.

Logo foram convocadas eleições no Estado de Minas Gerais, em 19.1.1947, para formar a Constituinte Mineira. Em Juiz de Fora, por causa dos votos divididos entre estas duas figuras do PCB local, nem Lindolfo Hill com 1063 votos, nem Irineu Guimarães 684 votos foi eleito e os dois terminaram respectivamente em 4o e 7o lugares. Eleitos por Juiz de Fora para participarem foram: Arlindo Zanini pelo PTB com 4034 votos e em Dilermando Martins da Costa Cruz Filho do PR com 4123 votos. A Assembleia Constituinte de Minas Gerais foi instalada em Belo Horizonte no dia 17.3.1947 e na sua lista de eleitos pelo PCB constava somente o bancário Armando Ziller de Belo Horizonte, com 2.145 votos. Ziller sentou-se na cadeira a ele destinada no plenário da Assembleia Mineira, solitariamente, sentindo-se como um combatente na Roma Antiga nos momentos que antecedem o encontro face a face com os leões no Coliseu. Mesmo com somente um representante, o PCB Mineiro preparou um projeto inteiro e completo de Constituição Estadual. Como já tinha feito no âmbito nacional, fez no estadual, mais ou menos o mesmo em todos os Estados do Brasil. Para isso a direção nacional tinha cuidado de fazer esse negócio, por meio de um grupo de advogados capazes e especialistas no assunto. Adaptaram alguma coisa do projeto nacional para o Estado de Minas, pouca coisa aliás. Mimeografaram o projeto e distribuíram uma cópia para cada deputado eleito, prova de que o PCB estava querendo colaborar com todos os partidos, com o Governo e com todo o mundo. A atuação de Armando Ziller na Constituinte mineira foi marcada pela extrema operosidade. Ocupou-se das mais diferentes matérias e elaborou, a propósito, um sem-número de projetos, emendas e sugestões, algumas das quais, transformadas em texto constitucional, vigoraram até há poucos anos. Qualquer que fosse a importância que o PCB reservasse à atividade parlamentar, independentemente da duração que viesse a ter seu mandato, Armando ZilIer estava disposto a ser um deputado exemplar - e o conseguiu.

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Alexandre Müller Hill Maestrini

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Alexandre Müller Hill Maestrini

Alexandre Müller Hill Maestrini é professor de alemão no Instituto Autobahn e autor de quatro livros: Cerveja, Alemães e Juiz de Fora, Franz Hill – Diário de um Imigrante Alemão, Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda e Arte Sutil.

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