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Quinta-feira, 13 de Agosto 2026
SAÚDE MENTAL

Prometa a si mesmo

Coluna: Saúde Mental

Nathan Marcelino
Por Nathan Marcelino
Prometa a si mesmo
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Você não precisa se comprometer com tantas pessoas quanto pensa. Na verdade, se você se comprometer consigo mesmo já estará em grande vantagem. Faça um compromisso consigo mesmo. Prometa a si mesmo que você se manterá íntegro aos seus valores, você não será desleal com a única pessoa que estará com você sempre: você mesmo.

Não é tão difícil quanto parece. Primeiro, abandone a dicotomia que paira sobre a palavra integridade. Aceite que todos nós, humanos vamos ter as nossas pequenas incoerências e isso é diferente de ser alguém totalmente incoerente e sem integridade. Agora, você já se perguntou quais são as suas atitudes que alimentam os seus valores? Na prática, você será leal a si mesmo quando alimentar os seus valores e levar uma vida direcionada por aquilo que você acredita.


Se diante de você, numa tela, está sendo exibido um vídeo com duas pessoas em situações e contextos diferentes: uma delas está furtando algo enquanto a outra está fazendo alguma atividade física, faça uma promessa si mesmo. Prometa a si mesmo que vai ser norteado pelo valor da justiça, se esse é um valor que realmente importa para você e vai saber discernir quem está fazendo algo errado. Isso parece óbvio, mas pode não ser tão óbvio assim, dependendo de quem está enxergando a situação. Por exemplo, se quem assiste o vídeo tem a crença de que a pessoa que está fazendo a atividade física é alguém sem caráter esse telespectador pode se perder em um viés cognitivo.

Poderá ter a tendência a enxergar a pessoa que está apenas fazendo a atividade física como alguém que está supostamente fazendo algo de errado. Mesmo que evidentemente essa pessoa esteja apenas fazendo os seus exercícios. Pronto, temos aí um bom exemplo de alguém preso no viés de atribuição hostil. Mesmo sem nenhuma evidência, essa pessoa acredita que algo de errado está acontecendo, ainda que de fato, não esteja. Prometa a si mesmo que você não ficará preso nas suas crenças.

Agora, vamos para a prática, mais uma vez. Imagine que você é um detetive e descobre que alguém está tendo um caso com um colega de trabalho. Você descobre que essa pessoa, vive tendo casos extraconjugais com colegas de trabalho. Praticamente, em todo local que trabalha, essa pessoa encontra alguém interessante e inicia um relacionamento baseado apenas em sexo e favores pessoais. Mas essa pessoa é casada com alguém que você acredita que não tem caráter e é um traidor. 

Então, você pode também ter uma tendência a ficar procurando qualquer evidência, ainda que seja inexistente, de que essa pessoa que você julga sem caráter e traidor, também esteja traindo o seu cônjuge. Você fica ‘seguindo’ essa pessoa. Qualquer pessoa que cumprimente essa pessoa você já interpreta como alguém com quem essa pessoa está “tendo um caso”, você coloca todo o seu foco no comportamento dele ou dela.

Percebeu que a sua atenção está direcionada para o cônjuge errado? Além do viés de atribuição hostil, percebemos também o viés atencional em ação, onde a sua memória e a sua percepção trabalham para confirmar essa ideia que você já tem sobre alguém. Prometa a si mesmo que você não será alguém que ficará com hiperfoco nas pessoas erradas. Comprometa-se consigo para ser alguém que respeitará a liberdade das pessoas, assim como você respeita a sua, se a liberdade é um valor importante para você.

Prometa a si mesmo que você jamais confundirá perdão com reconciliação, e acima de tudo, não forçará, nem constrangerá as pessoas a conviverem com quem as feriu profundamente, pois isso é uma violência. Se a paz é algo importante para você e a violência é detestável, comece não forçando convivências questão verdadeiros atos de violência para os envolvidos. Para algumas pessoas, com valores judaico-cristãos, o perdão é algo fundamental. No entanto, é comum perceber um peso atribuído para aqueles que perdoaram alguém. Algumas pessoas religiosas podem acreditar firmemente que perdoar é o mesmo que conviver, passar uma borracha no passado e começar do zero, agir como se não tivesse ocorrido nada.

Perdoar alguém não é o mesmo que sofrer de amnésia. Perdoar alguém é resolver (uma atitude) que não agirá com vingança para com quem feriu. Mas imagine a seguinte situação: uma pessoa agiu com extrema violência física com você. Imagine que você foi roubado e agredido fisicamente, sofreu uma grave violência física. Ainda que você escolha perdoar, a atitude dessa pessoa, você precisa registrar o ocorrido (a violência sofrida) às autoridades. Porque perdoar não é o mesmo que deixar que um criminoso não responda na justiça pelo que cometeu, uma vez que essa atitude pode se repetir, inclusive com outras pessoas.


Perdoar é agir de uma tal maneira que aquilo que foi injusto com você ou te machucou não passe a nortear as suas escolhas nem a sua vida. Perdoar é liberar-se do ressentimento, é ser livre. É não deixar que a dor seja protagonista da sua vida. O perdão faz bem para você, mas não isenta o outro do que aconteceu. Perdoar não é concordar com o que aconteceu. Perdoar não é deixar um criminoso impune. Agora, imagine que você resolveu perdoar um agressor sexual. Isso, já soaria um enorme absurdo para muitas pessoas, inclusive psicólogos, que trabalham com essa demanda, mas vamos lá. Lembre-se que o que estamos fazendo aqui não é dando um conselho para que você faça isso. Estamos aqui apenas usando a imaginação, é algo hipotético, não algo que de fato aconteceu ou que seja necessário acontecer. Estamos pensando sobre a ideia do perdão como um valor.

É possível que você agora permita que essa pessoa continue convivendo com você ou com sua família? Isso seria no mínimo imprudente, ilógico e violento. Percebeu que não existe justificativa que sustente essa ideia? Nem sempre o perdão significará reconciliação. Muitas vezes, você precisará se afastar bastante de quem te feriu. E isso vai ser extremamente benéfico para a sua saúde mental. Agora, prometa a você mesmo que você não será a pessoa que acreditará que perdoar é sinônimo de conviver, prometa que você não cometerá essa violência consigo mesmo nem com pessoas que já foram feridas e machucadas, ainda que o perdão seja um valor importante para você.


Finalmente, se você pensa que estamos vivendo um momento em que o que é certo se confunde muito facilmente com o que sempre foi considerado errado, a proposta aqui é a seguinte: comprometa-se consigo mesmo. Prometa a si mesmo que você vai começar, a ter uma vida baseada em bons princípios e valores, que buscará a integridade. Prometa a si mesmo que quando não puder ajudar, pelo menos não irá atrapalhar ou causar dano a outra pessoa. Principalmente, se essa pessoa não puder se defender.

FONTE/CRÉDITOS: Mônica Reis é mãe de três garotos lindos de viver. Uma pessoa curiosa que gosta de conhecer novos lugares e de ler que é outra forma de viajar. É formada em psicologia e atua no âmbito clínico atendendo jovens e adultos. Localização: Barra dos Coquei
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Nathan Marcelino

Nathan Marcelino, estudante de jornalismo da UFJF

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