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Terça-feira, 09 de Junho 2026
Juiz de Fora

Tratamento realizado no HPS é referência após usar técnica que salvou mão de paciente

O desfecho deste caso está sendo compilado em estudos e será escolhido para servir de experiência para hospitais de todo o Brasil

Geraldo Gomes
Por Geraldo Gomes
Tratamento realizado no HPS é referência após usar técnica que salvou mão de paciente
Foto: Carlos Mendonça
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Nesta quinta-feira, 7, o Núcleo de Educação Permanente (NEP) do Hospital de Pronto Socorro (HPS) da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) repassou aos colaboradores da unidade o caso clínico do paciente Paulo Roberto, ocorrido em novembro de 2020. Este caso clínico é importante, pois irá gerar modificações nos protocolos de queimaduras e será compartilhado com instituições nacionais, sendo referência no caso.

De acordo com o diretor geral do HPS, Leandro Lopes, este caso foi um grande sucesso, e será adotado em diversos hospitais do país. “Este caso foi utilizado ao longo do último ano, para ser um estudo, para a criação de um novo método de curativos nos hospitais, referentes a queimaduras. O HPS, originalmente, não era para ser o local indicado para este tipo de tratamento, pois há locais específicos, centros de especialidade que cuidam de queimaduras de 2º e 3º graus. Mas como recebemos esse paciente, nossa equipe prontamente se dispôs a ajudar ao máximo, e montamos uma equipe multiprofissional, já que o caso era muito complexo”, destaca Leandro.

O tratamento de pessoas com queimadura demanda um trabalho interdisciplinar e envolve múltiplos profissionais, como cirurgiões plásticos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, nutricionistas, fisioterapeutas, dentre outros. É justamente a interação multiprofissional que possibilita o cuidado integral com o paciente, e garante melhores resultados, reduzindo o intervalo de internação hospitalar, e evita complicações futuras.

O desfecho deste caso está sendo compilado em estudos e será escolhido para servir de experiência para hospitais de todo o Brasil. “O HPS é um hospital de porta aberta, e não estava acostumado a fazer este tipo de tratamento. Devido ao ótimo resultado e, apesar de ser um tratamento invasivo, o caso fez com que toda a equipe se mobilizasse e montasse um estudo sobre este novo tratamento para queimaduras, sendo referência para todo os país”, destaca Leandro.

Entenda o caso

Em um procedimento inédito, a equipe de profissionais do o Hospital de Pronto Socorro Dr. Mozart Geraldo Teixeira (HPS) realizaram uma cirurgia de alta complexidade que poupou a mão do paciente Paulo Roberto, de 68 anos, da amputação. O acidente aconteceu enquanto o senhor Paulo realizava um serviço na rede elétrica de uma residência. A descarga foi de mais de 16 mil Volts. Entre os ferimentos, queimaduras de 2° e 3° graus na sua mão direita comprometeu estruturas do membro relacionadas ao movimento. O tratamento, que contou com uma equipe multiprofissional, foi realizado inteiramente no HPS.

Paulo que, por vezes fazia alguns trabalhos como eletricista, só se lembra que foi achado desacordado e levado para o hospital mais próximo, em Ubá, para receber os primeiros socorros. Nesse período, ele foi comunicado pelo médico que fez o acompanhamento inicial que teria que amputar a mão. Contudo, junto à sua família, tomou a decisão de não autorizar o procedimento e, assim que teve alta médica, procurou atendimento no Hospital de Pronto Socorro Dr. Mozart Geraldo Teixeira.

Ao rememorar os acontecimentos, o Sr. Paulo lembrou da sua chegada para fazer o tratamento em Juiz de Fora e do empenho da equipe com seu caso. “Quando cheguei no HPS me deram soro, me medicaram, conversaram comigo e eu lembro da médica falando: “eu vou tentar de tudo e, se Deus quiser, eu vou salvar essa mão sua', relembra, ao contar do período inicial do tratamento na cidade.

A pele é o maior órgão do corpo humano e desenvolve múltiplas funções. Uma delas é de funcionar como uma barreira contra possíveis agentes infecciosos. “O ambiente hospitalar possui microorganismos simples e multirresistentes que podem agravar a situação de saúde do paciente. Essas infecções hospitalares são denominadas Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS)”, alerta Sylvia Miranda Carneiro, parte da equipe de Enfermagem do HPS. A enfermeira, que também trabalhou no tratamento do paciente, ressalta que, “o cuidado com as queimaduras, como a do Sr. Paulo, necessitam de limpeza diária que passa pela a retirada dos tecidos desvitalizados, uso adequado de antibióticos, hidratação e nutrição visando à minimização das complicações”.

Como havia o risco da queimadura evoluir de uma maneira não satisfatória e que pudesse culminar na amputação da mão, foi optado pela equipe fazer uma série de cirurgias com intuito de limpar a área necrosada e melhorar o processo de cicatrização, evitando que uma possível infecção se espalhasse. Porém, essas intervenções iriam demandar muito do paciente já debilitado. Sendo assim, era necessário reunir condições para melhorar a nutrição até que houvesse boas circunstâncias para realizar a reparação das lesões. Entre as operações pela qual Paulo Roberto passou uma chama mais atenção, pois a sua mão foi presa ao seu abdome.

A médica cirurgiã do HPS, Lucília Brigato Paviato, responsável pelas intervenções, explica que, “A estratégia de tratamento, a princípio, foi realizar os debridamentos e a limpeza das feridas; depois uma avaliação nutricional que incluiu um suporte nutricional; e a avaliação e acompanhamento da fisioterapia. Tudo isso com intuito de definir realmente a extensão da lesão para que começássemos o processo de recuperação”.

De posse dessa avaliação multissetorial e dos procedimentos iniciais, a cirurgiã esclarece que foi acordado o uso de uma técnica especial na cirurgia. “Optamos por realizar um retalho inguinal. Neste procedimento, o retalho fica nutrido pelos vasos do abdômen e a mão fica acoplada nele por, no mínimo, 15 dias, para haver neovascularização da área. Após esse período é realizado outro procedimento para cortar o pedículo e, depois, ocorre a cobertura da área queimada”, explica Lucília. Na prática, a mão afetada pela queimadura foi presa na barriga do senhor Paulo até que a região voltasse a apresentar sinais que indicassem condições de regeneração.

Ainda de acordo com a cirurgiã da equipe, esse procedimento foi necessário, pois “o paciente apresentou uma ferida complexa no pulso direito, onde havia a exposição do túnel do carpo. Essa é uma estrutura que envolve os tendões dos movimentos dos dedos da mão. Por isso, era necessário cobrir essa área com retalhos bem vascularizados para proteção dos tendões”.

Essa operação foi crucial para que a lesão causada pela queimadura se estabilizasse. Porém, além da cirurgia, o corpo teria de reagir com mecanismos próprios para cicatrizar essas feridas, o que acarretaria um gasto calórico acima do normal. Como conta Thairine Ozório de Oliveira, nutricionista que acompanhou o processo, “fizemos uma avaliação no Sr. Paulo e detectamos que ele já estava com o peso um pouco abaixo do recomendado e ainda tinha a ferida causada pela queimadura que recrutaria ainda mais nutrientes do organismo”.

Esse processo de cicatrização é extremamente complexo, uma vez que demanda mecanismos celulares, moleculares e bioquímicos com intuito de restabelecimento das funções e estruturas do local atingido. Para ajudar o corpo nessa recuperação, foi optado pela equipe de nutrição do Hospital de Pronto Socorro usar um suplemento alimentar. “Iniciamos para ele um suplemento nutricional específico que ajuda o corpo ao estimular a cicatrização com vários nutrientes importantes nesse processo”, explica Thairine. Inclusive a empresa detentora da marca do suplemento está num processo de divulgação do caso país afora, devido ao sucesso do tratamento.

O trabalho multiprofissional

Por se tratar de um procedimento complexo, a terapia escolhida foi dividida em fases e debatida por profissionais de diversas áreas, que vão desde nutrição até cirurgia. A vantagem desse método de abordagem, segundo Liliane Martins, enfermeira que integrou a equipe durante o período, é que “Este tipo de trabalho (multiprofissional) gera diversas melhorias no tratamento dos pacientes. Cada um tem uma visão do caso, e assim, pensamos a queimadura de várias maneiras”.

Essa linha de raciocínio chama a atenção para o trabalho integrado entre as mais diversas áreas da Saúde. Trata-se de diferentes intervenções e pontos de vista em prol do mesmo resultado. Luciane Freitas, coordenadora do Serviço de Nutrição e Dietética do HPS, compartilha da mesma visão. Segundo ela, “a partir do momento que temos vários profissionais trabalhando com o mesmo paciente, ocorre uma maior troca de informações e maior alinhamento das condutas buscando o melhor resultado”.

Além disso, Luciane chama atenção para a manutenção do bem-estar quando posto em prática este tipo de estratégia no atendimento. “Desta forma é possível traçar planos para minimizar os desconfortos do tratamento e os eventos adversos que podem ocorrer com qualquer tipo de paciente em âmbito hospitalar”.

“A nossa meta é oferecer uma assistência de qualidade, segura e garantir os melhores resultados possíveis”, complementa a enfermeira Sylvia.

A importância do acolhimento no tratamento

Durante todo o período em que esteve em tratamento ambulatorial, cerca de pouco mais de três meses, o senhor Paulo Roberto criou fortes vínculos com a equipe do HPS que lhe prestou atendimento. “Eu costumo falar que, graças a Deus, eu acho que nasci com dois deuses, um era o Deus lá de cima e o outro é o pessoal que me atendeu aqui em Juiz de Fora”, relata Paulo, em tom de gratidão.

Para Lucília Brigato, boa parte desse sentimento externado pelo paciente é consequência do tratamento realizado no HPS. “Como ele tinha sido atendido em outro hospital que não foi apresentada uma solução para o caso dele, ele se sentiu acolhido pela nossa equipe”. Ela também reforça que a humanização do assistido é “importante para a recuperação de todos os pacientes, principalmente aqueles com patologias que requerem múltiplas intervenções e longo internamento longe da família”.

O tratamento próximo entre paciente e equipe possui outros benefícios que vão além do bem-estar do internado. “O tratamento individualizado e empático favorece esse relacionamento profissional/paciente de forma especial e humana, promovendo a confiança que é crucial na adesão ao tratamento”, salienta Sylvia Miranda. Essa aproximação também contribui, segundo Sylvia, “em ajudar a tornar o dia a dia mais leve para todos os envolvidos”.

Quando falamos sobre o ambiente hospitalar o assunto acaba ficando mais restrito às patologias das pessoas que estão recebendo assistência. A partir desse ponto de vista, Thairine Ozório lembra da necessidade de “enxergamos no paciente o ser humano que existe ali com suas dificuldades e particularidades e não apenas pela doença ou lesão que ele tem”.

Tratamento feito majoritariamente por mulheres

Todo processo que envolveu o caso do senhor Paulo, foi feito 100% por mulheres. Elas estiveram presentes em cada passo desse minucioso tratamento e representaram todas as áreas da Saúde envolvidas.

Em nossa sociedade as mulheres estiveram, na maioria das vezes, salvo algumas exceções, em segundo plano e, apesar de ter sido uma coincidência, o tratamento do Sr. Paulo traz à tona a positiva mudança que temos visto ao longo dos anos no qual as mulheres têm reivindicado cada vez mais os papéis de liderança e proeminência.

A nutricionista Thairine destaca que esse é um caso especial, pois “demonstra a potencialidade da mulher enquanto profissional”. Além disso, essa também é uma ótima oportunidade para mostrar, “que pacientes e familiares podem confiar em equipes compostas somente por mulheres e também uma forma de inspirar meninas, jovens e adultas na busca de suas realizações profissionais”.

Na visão de Luciane, “o fato de sermos mulheres, algumas de nós esposas e mães, pode nos aproximar de certa forma desses pacientes e ajudá-los a entender e superar as dificuldades e limitações que surgem durante o período de internação”

Um ano depois

Atualmente o senhor Paulo Roberto continua com o tratamento em casa como parte do processo de recuperação, uma vez que, além da mão, houve um trauma no joelho que requer atenção. “Ficou com uma pequena sequela, mas eu tenho feito fisioterapia todos os dias”.

No caso da mão, essa limitação, segundo a médica responsável pelo caso, é consequência do grave ferimento causado pela descarga elétrica. Lucília diz que, “apesar de termos conseguido fechar as feridas, o longo processo de tratamento e a gravidade da queimadura deixaram aderências nos tendões que limitam a abertura dos dedos”.

Quase um ano depois do acidente que mudou a sua vida e prestes a completar 69 anos, o senhor Paulo conta que não vê a hora de poder voltar a fazer uma das coisas que mais gosta: jogar bola. “Eu tô com 68 anos, faço aniversário esse mês, e estou com uma vitalidade danada, não vejo a hora de terminar minha fisioterapia no joelho para voltar a jogar meu futebol de salão”, afirmou ele.

FONTE/CRÉDITOS: PJF
Geraldo Gomes

Publicado por:

Geraldo Gomes

Fundador, diretor e presidente do Portal de notícias RCWTV. Trabalhou na TVE, TV pública de Juiz de Fora, como diretor de imagem, e depois empreendeu no ramo de eventos evangélicos com a empresa Gospel Videos. Mais tarde fundou a RCWTV, inicialmente...

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