O Rio de Janeiro, conhecido por ícones como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, possui um tesouro histórico e cultural que clama por maior destaque: a Pequena África. Esta região, rica em manifestações afro-brasileiras e palco de eventos cruciais para a compreensão da diáspora africana, busca ativamente um reconhecimento turístico internacional que ainda lhe escapa, conforme apontado por especialistas reunidos no recente Feira Preta Festival.
Localizada às margens da Baía de Guanabara, a Pequena África é o lar do Cais do Valongo, um sítio histórico fundamental como maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 2017. Sua relevância para a formação do Brasil e a compreensão da diáspora africana é inegável, mas seu potencial turístico como destino de peso global ainda é subutilizado.
Especialistas como Antonio Pita, fundador da plataforma Diáspora Black, defendem que a Pequena África deveria figurar entre as principais atrações internacionais do Rio de Janeiro. Ele observa que a percepção predominante da cidade ainda se concentra em praias e festas, com uma conexão turística menos desenvolvida em relação ao seu patrimônio histórico e cultural tradicional.
A região é um centro vibrante de cultura afro-brasileira, abrigando instituições como o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a histórica Pedra do Sal, todos parte do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana. O Grupo Afoxé Filhos de Gandhi, um dos mais tradicionais blocos afro do Rio, também tem sua sede ali, mantendo vivas as tradições carnavalescas e religiosas.
Apesar de já atrair visitantes para locais como a Pedra do Sal e o Largo da Prainha, com seus restaurantes e bares, muitos turistas não exploram a totalidade do potencial da Pequena África. Pita lamenta que a visita muitas vezes termine sem a compreensão profunda do papel central da região no surgimento do samba, do carnaval e na própria ocupação do Rio de Janeiro.
O potencial da Pequena África como destino
Adriana Barbosa, diretora executiva da Preta Hub, ressalta a importância simbólica de sediar a Feira Preta em um local que outrora foi um mercado de pessoas escravizadas. "Estamos aqui, em um lugar que já foi um mercado de pessoas africanas escravizadas, em outra lógica econômica, em que pessoas negras não são mais mercadorias, mas proponentes de relações comerciais a partir de nossa identidade e criatividade", afirmou.
Para que a Pequena África alcance seu pleno potencial turístico, a afro-turismóloga Emily Borges sugere a inclusão da região em guias e roteiros de grandes agências, além de campanhas de divulgação em pontos estratégicos como aeroportos. Ela enfatiza que o turismo é uma jornada de memória e conexão, e que em um mundo acelerado, a profundidade das experiências se torna um luxo.
Pita complementa que operadores de turismo e hotéis precisam incluir ativamente o roteiro da Pequena África em suas ofertas. Ele aponta para um certo preconceito que ainda dificulta a promoção do destino, contrastando com o sucesso de outros locais genuínos, como a Rocinha, que atraem turistas dispostos a longas esperas por experiências únicas.
Especialistas e moradores clamam por políticas públicas que apoiem a Pequena África, incluindo investimentos em sinalização, conservação, limpeza e segurança. A visão é que um território bem cuidado para seus habitantes também será acolhedor para os turistas.
O Ministério do Turismo tem demonstrado apoio, com iniciativas como a recepção do encontro global de afroturismo Black Travel Summit em 2025. Programas como o edital Rede Memória Viva, uma parceria entre Diáspora Black e Feira Preta, visam capacitar organizações locais e mapear roteiros afro com potencial de desenvolvimento comunitário, impulsionando a visibilidade e a valorização da herança africana.
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