André Julião | Agência FAPESP – Até que ponto o estudo da música pode influenciar a saúde mental de jovens e adolescentes? Essa é uma das perguntas fundamentais que um novo centro de pesquisa sediado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) tentará responder, dentro de um projeto realizado em parceria com a FAPESP e a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.
O novo Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música (CiDPMus) foi inaugurado ontem (15/06) no Instituto de Artes da Unesp, na capital paulista. A solenidade de inauguração ocorreu na Reitoria da Unesp e teve apresentação da Big Band do projeto Guri, com regência de Daniel Filho.
O projeto faz parte do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) da FAPESP, dedicado ao financiamento de projetos colaborativos entre universidades, instituições de pesquisa e entidades governamentais, além de empresas e organizações não governamentais. O CiDPMus é o primeiro desses centros dedicado às artes.
“É um centro interdisciplinar. A equipe tem pesquisadores das áreas de educação musical, psicologia, estatística e neurociência. A ideia é trabalhar com saúde mental e estudo da música. Vamos aplicar questionários de saúde mental para jovens de 13 a 28 anos, desde os que estão iniciando na música até os que estão se profissionalizando”, explica Graziela Bortz, diretora do Instituto de Artes da Unesp e coordenadora do CiDPMus.
Um dos objetivos do centro é rastrear a ocorrência de depressão, ansiedade e uso de substâncias psicoativas em estudantes de música e músicos em início de carreira. Serão avaliados alunos do projeto Guri, maior projeto de aprendizagem musical e inclusão social do Brasil, e da Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP Tom Jobim). Ambas as iniciativas são geridas pela organização social Santa Marcelina, parceira do CCD.
“Nossa hipótese é que, no começo, o estudo da música melhora aspectos da saúde mental. Conforme se profissionaliza, o jovem pode ter uma piora por conta da competição, do mercado de trabalho. Acreditamos que haja ainda aspectos de gênero e raça que influenciem nessa piora de saúde mental”, completa Bortz.
Impacto social
O CiDPMus é o sétimo sediado na Unesp. O centro receberá investimento de R$ 7,7 milhões da FAPESP nos próximos cinco anos.
“A FAPESP tem uma longa história de apoio à pesquisa em artes. O programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento é o mais importante em termos de políticas públicas no Brasil hoje, pois trata de questões diretamente relacionadas com a vida da população. E a arte é um elemento essencial na cristalização da cultura, da unidade e do desenvolvimento humano”, ressaltou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, na cerimônia de lançamento.
Para Carlos Graeff, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da FAPESP e professor da Faculdade de Ciências da Unesp, em Bauru, o tema do CCD não poderia ser mais atual.
“O programa CCDs é uma das joias da FAPESP e, apesar de relativamente recente, tem tido grande sucesso e repercussão, justamente porque busca resolver problemas da sociedade trazendo os atores importantes para essa solução. A saúde mental dos jovens é um problema muito atual neste mundo cada vez mais abstrato. Talvez a música seja um dos caminhos para uma solução”, disse.

Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP: "A Fundação tem uma longa história de apoio à pesquisa em artes" (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
Evidências científicas
Um embrião para o CiDPMus foi o projeto “Os efeitos sobre estruturas cerebrais, habilidades sociais e cognitivas em crianças expostas ao Programa Guri Santa Marcelina na Grande São Paulo: um estudo quase-experimental”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPP) e também coordenado por Bortz.
“Naquela ocasião, medimos habilidades cognitivas, executivas e realizamos análises por ressonância magnética do cérebro dos alunos do Guri”, lembra a professora.
Para Paulo Zuben, diretor artístico-pedagógico da organização social Santa Marcelina, o CiDPMus pode ser o início de um processo capaz de inspirar novas pesquisas no futuro.
“Não se faz política pública sem evidências. Essa pesquisa não vai responder a tudo, será uma perspectiva de uma situação muito mais complexa. Esperamos que seja uma inspiração para outros pesquisadores, promovendo o desenvolvimento de trabalhos que tragam mais clareza àquilo que nós fazemos”, afirmou.
Para a reitora da Unesp, Maysa Furlan, o programa CCDs traz elementos muito interessantes para a instituição, como as parcerias necessárias para se construir um centro como o CiDPMus. Segundo Furlan, a interlocução entre diferentes áreas do conhecimento, presente nos CCDs, é essencial para levar o conhecimento adquirido na academia para a sociedade.
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