A extinção dos tigres-dentes-de-sabre pode ter sido provocada por fatores mais antigos e complexos do que se pensava. Pesquisadores da Unicamp, com apoio da FAPESP, analisaram fósseis e dados climáticos de até 20 milhões de anos atrás e descobriram que a redução na diversidade de presas teve papel central na extinção desses felídeos de dentes longos e caninos impressionantes.
Publicado no Journal of Evolutionary Biology, o estudo mostra que, ao contrário da hipótese dominante — que ligava o desaparecimento ao fim da megafauna no Pleistoceno —, o declínio dos dentes-de-sabre começou muito antes, em períodos marcados por menor variedade de herbívoros.
Diversidade de presas caiu, e predadores perderam base alimentar
Segundo João Nascimento, primeiro autor do estudo, o grupo dos tigres-dentes-de-sabre era formado por diversas espécies ao longo do tempo, mas essas extinções ocorreram de forma gradual, geralmente em momentos de baixa diversidade de presas. Essa escassez, portanto, afetou diretamente a sobrevivência dos predadores especializados.
Além disso, o aumento da aridez do clima, há cerca de 6 milhões de anos, reduziu os ambientes florestais e favoreceu os ruminantes pastadores. Com isso, muitos animais que dependiam de folhas — e serviam de alimento para os dentes-de-sabre — desapareceram junto com seus habitats.
Antílopes também sofreram com mudanças e predadores
Em paralelo, outro estudo, publicado na Evolution, investigou os antilocaprídeos, grupo de herbívoros outrora diverso na América do Norte. Hoje, apenas o antílope-americano (Antilocapra americana) permanece.
O declínio dos antilocaprídeos se deu em dois momentos distintos:
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A subfamília Merycodontinae desapareceu com a chegada de elefantes e mudanças nos ambientes florestais.
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A subfamília Antilocaprinae entrou em declínio com o aumento da diversidade de predadores, como o guepardo-americano, adaptado para perseguições em alta velocidade.
Essas pressões podem ter contribuído para a atual velocidade do antílope-americano, como forma de escapar de predadores.
Interações predador-presa moldam a macroevolução
Os estudos reforçam a teoria de que interações entre predadores e presas influenciam padrões evolutivos em larga escala. Segundo o professor Mathias Pires, orientador do trabalho, isso abre novas perspectivas sobre como a biodiversidade se moldou ao longo de milhões de anos.
Com base em vastos bancos de dados de fósseis da América do Norte e Eurásia, os pesquisadores conseguiram traçar linhas do tempo para diversas espécies e estimar quando coexistiram. O resultado revela uma dinâmica ecológica complexa, na qual o aumento de predadores pode levar à redução de presas — e vice-versa — num ciclo com impactos evolutivos profundos.
Impactos atuais e um alerta sobre o futuro
A conclusão dos cientistas é clara: assim como no passado, a perda de espécies hoje pode gerar efeitos em cadeia no futuro. A extinção de uma presa afeta o predador. A perda de um predador desequilibra a cadeia alimentar. E esses efeitos podem perdurar por milhões de anos.
“Estamos mostrando como o aumento de predadores pode reduzir a disponibilidade de presas, o que por sua vez reduz a abundância de predadores. É um alerta sobre como podemos estar alterando o futuro com as extinções que provocamos agora”, conclui Pires.
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