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Novos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ampliaram os questionamentos sobre a relação mantida por ele com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Uma análise publicada nesta sexta-feira (6) pelo UOL identificou 316 registros de interação entre Vorcaro e Moraes entre 17 de setembro e 17 de novembro de 2025, período que termina no dia da prisão do banqueiro.
Os registros incluem mensagens de texto, imagens, chamadas, ligações perdidas e avisos automáticos do WhatsApp. Do total, 187 correspondem a mensagens enviadas por Vorcaro. Os demais 129 registros estão associados a mensagens atribuídas a Moraes e a notificações do próprio aplicativo.
A descoberta acrescenta novas informações a um material que já vinha sendo analisado pela Polícia Federal e pelo Supremo. Até então, o foco estava em 52 mensagens que Vorcaro teria enviado ao ministro por meio de capturas de tela de textos escritos no bloco de notas do celular.
O novo levantamento conseguiu recuperar ainda 17 mensagens que não apareciam no relatório inicial da PF, além de outros registros que indicam uma frequência de contato maior do que se conhecia anteriormente.
Mensagens temporárias dificultaram recuperação
Grande parte do conteúdo das conversas não está mais disponível de forma direta.
Segundo a apuração, Vorcaro e Moraes utilizavam a função de mensagens temporárias do WhatsApp, configurada para apagar o conteúdo depois de 24 horas. Além disso, o banqueiro teria apagado toda a conversa com o ministro em setembro de 2025, antes de retomá-la no dia 17 daquele mês.
O UOL conseguiu reconstruir parte das interações a partir de bancos de dados secundários do aplicativo e do próprio iPhone.
Um desses sistemas registra quais contatos são acionados com maior frequência e guarda informações sobre o envio de mensagens. Outro funciona como um índice interno de busca do WhatsApp e pode manter fragmentos de textos mesmo depois que a mensagem original desaparece.
Por isso, os 316 registros não equivalem a 316 mensagens de texto integralmente recuperadas.
Parte dos dados indica apenas que houve uma interação naquele momento, sem permitir saber exatamente qual era o conteúdo.
Conversa atribuída a Moraes chama atenção
Entre as mensagens recuperadas está uma atribuída a Alexandre de Moraes, datada de 24 de outubro de 2025.
O ministro teria escrito a Vorcaro:
“Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs.”
A frase acompanhava uma imagem que não pôde ser recuperada.
Outros trechos encontrados apontam conversas informais entre os dois, com referências a família e rotina pessoal. Em 12 de novembro, por exemplo, Moraes teria escrito que “não basta ser pai, tem de participar”, ao que Vorcaro respondeu chamando o ministro de “paizão”.
Os registros também mostram mensagens combinando movimentações e possíveis encontros.
No dia 14 de novembro, três dias antes da prisão do banqueiro, Moraes teria enviado mensagens perguntando se Vorcaro já havia pousado e dizendo que estava “a caminho”. Vorcaro havia viajado naquele dia de São Paulo para Brasília em seu jato particular.
O material reforça a hipótese de que os dois se encontraram naquele dia, embora a realização do encontro não tenha sido comprovada apenas pelas mensagens.
Vorcaro buscava ajuda diante de investigações
O contexto ganha mais peso porque outras mensagens já analisadas pela Polícia Federal mostram Vorcaro preocupado com medidas que poderiam ser tomadas contra ele pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
Segundo relatório da PF, o banqueiro escreveu ao ministro pedindo ajuda para tentar “reverter” a situação junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Em outra mensagem, Vorcaro sugeriu que uma eventual medida policial fosse adiada por alguns dias para evitar o colapso do banco.
Também perguntou a Moraes se deveria deixar o país e se acreditava que poderia haver alguma ação da PF já na manhã seguinte.
Essas mensagens não demonstram, por si só, que Moraes tenha atendido aos pedidos.
O ponto central da investigação é justamente entender se houve resposta, interferência ou troca de informações sigilosas, algo que ainda está sendo analisado.
Técnica usada nas mensagens chamou atenção da PF
A Polícia Federal identificou um método pouco comum utilizado por Vorcaro para se comunicar.
Em vez de escrever diretamente no WhatsApp, ele digitava mensagens no aplicativo de notas do iPhone, fazia uma captura da tela e enviava a imagem como arquivo de visualização única.
Depois que a imagem era aberta pelo destinatário, desaparecia.
A PF conseguiu associar as 52 capturas de tela à conversa com Moraes cruzando o horário em que os prints eram feitos com os registros de abertura do WhatsApp e da conversa com o ministro.
O UOL afirma ter repetido essa metodologia e identificado o mesmo conjunto de mensagens.
O mesmo procedimento teria sido utilizado por Vorcaro para se comunicar com outras autoridades e políticos.
Contrato de R$ 131 milhões amplia contexto da relação
A relação entre Vorcaro e Moraes já era alvo de atenção por causa de contratos firmados entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Um contrato assinado em janeiro de 2024 previa o pagamento de aproximadamente R$ 131 milhões ao escritório ao longo de três anos, por meio de parcelas mensais de R$ 3 milhões.
Uma análise da Polícia Federal sobre os metadados do documento identificou que um usuário registrado como “Ministro Alexandre de Moraes” apareceu como responsável pela última edição de versões da minuta antes da assinatura.
O escritório afirmou que o setor de compliance havia consultado Moraes apenas na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento legal à contratação.
O contrato foi posteriormente tornado público pelo STF.
O documento previa atuação jurídica e consultoria estratégica em diversas áreas, inclusive perante órgãos públicos e instituições como a Polícia Federal.
Segundo contrato previa aeronaves, mas não foi assinado
A investigação também encontrou uma segunda minuta de contrato, no valor de cerca de R$ 50 milhões.
Segundo a PF, o documento previa que parte do pagamento fosse feita com cotas de uso de um jatinho e de um helicóptero ligados a Vorcaro.
O escritório da família de Moraes afirmou que esse segundo acordo nunca foi formalizado e que apenas o contrato original, de aproximadamente R$ 130 milhões, chegou a ser assinado.
STF já analisa material ligado ao caso
As informações extraídas do celular de Vorcaro já chegaram formalmente ao Supremo.
Em março de 2026, o ministro André Mendonça determinou a abertura de uma investigação para apurar o vazamento de dados e mensagens obtidos a partir dos aparelhos do banqueiro. A decisão ocorreu após pedido apresentado pela própria defesa de Vorcaro.
Meses depois, um relatório da Polícia Federal relacionado a Moraes também chegou ao tribunal.
Em setembro, o plenário começou a discutir se duas petições relacionadas ao caso deveriam ser analisadas em conjunto. O julgamento foi interrompido depois de um pedido de vista do ministro Flávio Dino e, naquele momento, o mérito das acusações ainda não havia sido analisado.
O STF deve decidir se o material justifica a abertura ou continuidade de uma investigação específica sobre a atuação de Moraes.
Moraes nega conversas e fala em vingança
Alexandre de Moraes contesta as conclusões extraídas do aparelho.
Em manifestações apresentadas ao Supremo, o ministro afirmou que os supostos diálogos não existiram e destacou que o relatório inicial da PF não apresentava mensagens diretamente recuperadas de seu telefone.
Moraes também questiona a cadeia de custódia do aparelho de Vorcaro e acusa integrantes da investigação de produzirem um relatório motivado por vingança relacionada à atuação dele nos processos sobre a tentativa de golpe de Estado.
A defesa de Vorcaro também levanta dúvidas sobre a integridade dos dados e argumenta que houve falhas no controle e no manuseio do celular apreendido.
Esses questionamentos são relevantes porque a validade das provas digitais depende da demonstração de que o material não foi alterado desde sua apreensão.
Até o momento, não há decisão definitiva do STF sobre a autenticidade e a validade probatória de todos os dados recuperados.
Novos registros mudam discussão sobre existência das respostas
Uma das principais linhas de defesa de Moraes era que as mensagens conhecidas anteriormente mostravam apenas textos produzidos por Vorcaro, sem respostas diretamente atribuídas ao ministro.
O novo material muda parcialmente esse cenário.
Os bancos de dados secundários analisados agora indicam mensagens recebidas por Vorcaro e atribuídas ao contato de Moraes, além de registros de chamadas e outras interações.
Mesmo assim, parte considerável dessas mensagens permanece irrecuperável e algumas aparecem fragmentadas ou com palavras fora de ordem nos bancos internos do WhatsApp.
Isso significa que o novo material amplia os indícios de contato entre os dois, mas não resolve sozinho todas as questões sobre o conteúdo das conversas ou sobre eventual irregularidade.
Relação agora entra em nova fase de análise
A existência de contato entre um banqueiro e um ministro do Supremo não constitui crime por si só.
O que torna o caso relevante é o contexto em que as conversas ocorreram: Vorcaro estava sob pressão de órgãos reguladores e de investigação, mantinha contratos milionários com o escritório da esposa de Moraes e, segundo as mensagens analisadas pela PF, buscava informações e ajuda enquanto o Banco Master enfrentava dificuldades.
A apuração precisa agora determinar se houve algum tipo de intervenção do ministro, compartilhamento indevido de informações, conflito de interesses ou qualquer outra conduta irregular.
Também será necessário esclarecer a integridade do material digital e a cadeia de custódia do aparelho, pontos contestados tanto por Moraes quanto pela defesa de Vorcaro.
Por enquanto, os registros ampliam o quadro conhecido sobre a proximidade entre os dois, mas não equivalem a uma conclusão sobre responsabilidade criminal ou disciplinar.
O caso permanece sob análise do Supremo e deve continuar produzindo novos desdobramentos à medida que os dados do celular forem examinados e confrontados com outros documentos e depoimentos.

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