A casa própria segue sendo um dos maiores sonhos do brasileiro. E, em meio a juros elevados no crédito imobiliário tradicional, o uso do FGTS como instrumento de financiamento ganhou força nos últimos anos. Dados da Caixa Econômica Federal mostram que o uso do fundo para aquisição da casa própria cresceu 33% entre janeiro e maio de 2025 em comparação com o mesmo período de 2024. No total, mais de R$ 21 bilhões do Fundo de Garantia foram movimentados em operações habitacionais no primeiro semestre deste ano.
Esse avanço está diretamente relacionado à popularização do modelo que permite o uso do saldo do FGTS para reduzir o valor das prestações ou compor parte do valor de entrada no financiamento. Além disso, desde a criação da modalidade Empréstimo FGTS, com base no saque-aniversário, o fundo também passou a funcionar como uma espécie de garantia para antecipação de valores, o que amplia as possibilidades de organização financeira para quem planeja comprar um imóvel.
Acesso à casa própria: FGTS como aliado
O aumento na utilização do fundo também acompanha os esforços do governo para estimular o crédito habitacional, especialmente para a população de baixa renda. Segundo o Ministério das Cidades, mais de 68% dos financiamentos do programa Minha Casa, Minha Vida realizados em 2025 contaram com o uso do FGTS. O subsídio federal aliado ao fundo permite que o comprador reduza significativamente o valor da entrada e, em muitos casos, consiga manter as parcelas dentro do teto de 30% da renda familiar.
A própria Caixa Econômica Federal, que detém cerca de 70% do mercado de crédito imobiliário no país, destaca o papel do FGTS como um dos motores da habitação popular. Só em maio de 2025, foram liberados R$ 4,6 bilhões em recursos do fundo para operações habitacionais, número que representa um dos maiores volumes dos últimos anos.
Além da aquisição de imóveis novos ou usados, o fundo pode ser utilizado também para amortização ou quitação de saldo devedor, inclusive mais de uma vez ao ano, desde que respeitado o intervalo mínimo de dois anos entre as operações. Isso tem sido vantajoso principalmente para famílias que já possuem um financiamento em andamento e desejam reduzir seu comprometimento mensal.
Alternativa a juros altos
Em um cenário onde a taxa básica de juros, a Selic, ainda se mantém em dois dígitos (10,75% ao ano, segundo o Comitê de Política Monetária em julho de 2025), o crédito tradicional segue caro para a maioria dos brasileiros. Por isso, o FGTS surge como alternativa segura e menos onerosa.
Enquanto linhas convencionais de financiamento imobiliário cobram juros médios acima de 11% ao ano, o uso do FGTS permite operar com taxas reduzidas — entre 4,25% e 8,16% ao ano, dependendo da faixa de renda e do programa habitacional envolvido. Isso significa economia expressiva ao longo de 20 ou 30 anos de contrato.
Em um exemplo prático, uma família com renda de R$ 4.000 mensais e saldo de R$ 15 mil no FGTS pode usar esse valor como entrada em um imóvel de R$ 200 mil, financiando o restante com taxas reduzidas e mantendo o valor das parcelas dentro da capacidade de pagamento familiar.
Além disso, a educação financeira tem ganhado força nas iniciativas públicas e privadas. Empresas do setor financeiro, fintechs e plataformas de crédito passaram a incluir o uso do FGTS em seus simuladores e consultorias de planejamento, tornando a operação mais compreensível para o público leigo.
Riscos e cuidados
Apesar das vantagens, especialistas alertam que o uso do fundo deve ser feito com planejamento. Isso porque o FGTS funciona como uma reserva para situações de desemprego ou emergências. Ao comprometer o saldo total em uma única operação, o trabalhador pode abrir mão de uma segurança importante em momentos de instabilidade no mercado de trabalho.
Outro ponto de atenção são os golpes e falsas promessas de saque integral do FGTS para compra de imóveis, prática que não é permitida fora das condições previstas em lei. A orientação é sempre procurar canais oficiais ou instituições financeiras credenciadas para realizar a operação.
Perspectivas para o segundo semestre
Com a expectativa de manutenção das taxas de juros em patamares elevados e o déficit habitacional ainda acima de 5,8 milhões de moradias no Brasil, segundo a Fundação João Pinheiro, o uso do FGTS como instrumento de financiamento deve seguir em alta. Programas habitacionais continuam priorizando o fundo como fonte de subsídio e aporte, enquanto novos formatos de operação ganham espaço entre trabalhadores formais.