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Quinta-feira, 05 de Novembro 2026
Ciência e Tecnologia

Estudo explica piora súbita de bebês com hérnia diafragmática e faz alerta sobre tratamento

Trabalho brasileiro rompe paradigma ao mostrar que a pressão alta no pulmão é, nesse caso, um mecanismo protetor. Medicamentos usados nas UTIs para alterar a circulação podem anular essa proteção

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Estudo explica piora súbita de bebês com hérnia diafragmática e faz alerta sobre tratamento
Médica acompanha recém-nascido em UTI neonatal de maternidade pública na cidade de Ilhéus, na Bahia (foto: Shutterstock)
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Luciana Constantino | Agência FAPESP – Uma pesquisa brasileira publicada na revista Scientific Reports lança luz sobre o agravamento rápido e frequentemente fatal do estado de saúde de recém-nascidos com hérnia diafragmática congênita (HDC). Além de desvendar o mecanismo biológico por trás dessa piora súbita, o estudo acende um alerta sobre os tratamentos atualmente aplicados nas unidades de terapia intensiva neonatais.

Considerada uma condição incomum, a hérnia diafragmática congênita ocorre quando, durante a formação do embrião, o diafragma (músculo que separa o peito da barriga) não se forma completamente, deixando uma abertura. Por esse “buraco”, órgãos do abdome – como estômago, intestino e fígado – podem se deslocar para o tórax e ocupar o espaço dos pulmões, comprimindo-os e impedindo seu desenvolvimento normal. As causas ainda não são conhecidas.

Os bebês nascem com dificuldades respiratórias e baixos níveis de oxigênio no sangue. Também podem apresentar pressão arterial elevada nos pulmões, o que sobrecarrega o coração. Por isso, demandam cuidados intensivos para estabilizar o quadro clínico. A correção é feita por cirurgia, que pode recuperar casos leves e aumentar a sobrevida dos graves.

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Ao investigar a doença, os pesquisadores descobriram que nos pulmões comprimidos desses recém-nascidos se proliferam capilares "não funcionais" – pequenos vasos sanguíneos que não participam da troca de oxigênio. O estudo revela que a pressão alta nos pulmões (hipertensão pulmonar), antes vista apenas como um problema, atua na verdade como um escudo temporário para evitar que o sangue inunde e sobrecarregue essa rede de vasos não funcionais. Essa descoberta indica que as equipes médicas devem ter extrema cautela ao usar medicamentos vasodilatadores, que podem anular esse mecanismo de proteção e levar à congestão pulmonar fatal.

Com financiamento da FAPESP, a pesquisa esclarece os fatores biológicos que levam ao fim da chamada “lua de mel”, uma breve fase de estabilidade inicial do bebê com HDC que costuma ser seguida por uma rápida piora clínica. Os achados rompem com a antiga crença da literatura médica de que essa trégua respiratória acaba justamente porque a pressão no pulmão sobe de forma excessiva.

Com base em modelos animais e humanos, os resultados indicam que a hipertensão pulmonar já está presente na “lua de mel”, sendo um reflexo da proliferação dos capilares não funcionais, e não a causa primária. Assim, esse período acaba quando há mudanças nas camadas mais externas da rede de vasos sanguíneos do pulmão, com perda de elasticidade e dilatação de artérias pulmonares.

Esse processo pode resultar em congestão do órgão (acúmulo de sangue) e piora da oxigenação, levando à perda de grandes quantidades de sangue, plasma e líquidos do organismo, com consequente redução da capacidade do coração de bombear sangue para os tecidos (choque hipovolêmico refratário). O desfecho é potencialmente fatal.

“O aspecto mais importante desse trabalho é trazer novos subsídios para compreender a fisiopatologia do que se acreditava até então: que o pulmão comprimido por outros órgãos gerava hipertensão pulmonar, dificultando a passagem sanguínea. Com isso, o funcionamento do órgão ficaria prejudicado. O que detectamos, além da hipertensão pulmonar, foi a proliferação dos capilares não funcionais e mostramos que o aumento de pressão pode ser um mecanismo protetor para evitar que o pulmão encha de sangue”, resume à Agência FAPESP o médico patologista Alexandre Todorovic Fabro, autor correspondente do artigo ao lado de Lourenço Sbragia Neto, ambos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

“Com esses resultados, acabamos sendo pioneiros na quantificação desses capilares. Ainda não conseguimos saber como tratar, mas abrimos uma porta importante na compreensão dos mecanismos envolvidos”, completa Sbragia Neto, considerado um dos principais pesquisadores brasileiros em cirurgia fetal e hérnia diafragmática congênita.

Um estudo liderado por Sbragia Neto e publicado em 2022 é usado até hoje como referência para contextualizar a prevalência de casos de HDC no estado de São Paulo – um registro da má-formação a cada 6 mil nascimentos. O dado pode ser extrapolado para o Brasil e fica próximo ao de países desenvolvidos, como Canadá, Estados Unidos e os integrantes da Comunidade Europeia, com variação de um caso em 3 mil nascimentos a um em 6 mil nascidos vivos.

No entanto, o médico reforça que a estrutura de atendimento varia de acordo com a região do Brasil. O diagnóstico de hérnia diafragmática congênita é feito no pré-natal, por meio de exames de ultrassonografia. Em alguns casos, o tratamento pode ser realizado antes do nascimento, usando a técnica FETO (sigla em inglês para oclusão traqueal endoluminal fetoscópica). Consiste em uma cirurgia para inserir um balão na traqueia do feto. Isso bloqueia a saída de líquido, criando uma pressão e estimulando o crescimento dos pulmões durante a gestação.

Após o nascimento, a criança pode ser submetida à ventilação mecânica ou passar pela técnica de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) – ainda pouco realizada no Brasil pelo alto custo –, que utiliza uma máquina para “filtrar” o sangue, possibilitando que o coração e os pulmões descansem e se recuperem.

O papel dos vasos

Ao contrário do que o nome pode fazer parecer, os vasos capilares não funcionais não estão danificados – eles são chamados assim porque não realizam a função biológica principal, que é a troca de oxigênio por gás carbônico.

Em pulmões saudáveis, o ar percorre as vias respiratórias até chegar aos alvéolos (pequenas bolsas envolvidas por uma rede de vasos sanguíneos finos, os “capilares”). Nesse local ocorre a troca gasosa – o oxigênio passa para o sangue, enquanto o gás carbônico produzido pelo organismo é eliminado na expiração.

Ao mesmo tempo, os vasos pulmonares funcionais permanecem dilatados para que o sangue, ao circular com pouca resistência, seja oxigenado e retorne ao coração para redistribuição ao corpo todo. Nesse caso, os capilares não funcionais formam uma espécie de “banco de reserva”, se necessário. Ou seja, normalmente recebem pouco ou nenhum sangue, mas, quando o fluxo aumenta, podem ser “recrutados”, ampliando a área de troca gasosa e ajudando a circulação sanguínea sem grande elevação da pressão pulmonar.

Já os bebês com HDC têm um ou ambos os pulmões reduzidos, com menos alvéolos e vasos sanguíneos, o que diminui a área para a entrada de oxigênio no sangue. Além disso, os vasos pulmonares são mais estreitos, com passagem prejudicada até os alvéolos, comprometendo a oxigenação e sobrecarregando o coração.

Tema pouco estudado

Sbragia Neto conta que o grupo passou a investigar o papel dos capilares não funcionais em casos de hérnia diafragmática congênita depois que Fabro notou essa relação em análises patológicas, tema praticamente não abordado na literatura científica.

“Quando cheguei a Ribeirão Preto, quase não era feita biópsia pulmonar. Depois, com o tempo, começamos a ter um aumento. A morfologia do pulmão precisa ser contextualizada com a radiologia e com a parte clínica do paciente. O Brasil não tinha tradição em patologia pulmonar”, diz Fabro, que atualmente é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu.

Usando modelos de ratos e coelhos com a má-formação induzida e amostras humanas provenientes de autópsias, os pesquisadores fizeram análises morfométricas que consistem, por exemplo, em medir os capilares e as artérias para compará-los com grupos-controle.

Descobriram que a proliferação dos capilares não funcionais, além de desempenhar importante papel no desenvolvimento da HDC, está associada à mortalidade mais tardia. Paralelamente, o remodelamento vascular anormal está relacionado à manutenção da hipertensão pulmonar durante o período de “lua de mel”.

De acordo com o observado no estudo, as artérias pulmonares perdem progressivamente a retração elástica, ficando dilatadas. Essa mudança prejudica o controle do fluxo de sangue nos pulmões, com piora gradual da oxigenação. O sangue, então, se acumula, causando congestão pulmonar. Quando os mecanismos de compensação se esgotam, surgem falta de oxigênio resistente ao tratamento e risco de morte, mesmo com o uso de medicamentos vasoativos.

Agora, os pesquisadores pretendem continuar os trabalhos para investigar mecanismos envolvidos no aumento dos vasos. Para isso, devem adotar um modelo de camundongos que reproduz as alterações pulmonares características da HDC. O artigo que descreve o modelo, que tem entre os autores Sbragia Neto, pode ser lido no Journal of Surgical Research.

A pesquisa sobre HDC recebeu financiamento da FAPESP por meio de cinco projetos (22/02821-0, 23/10186-6, 23/04199-8, 21/09024-6 e 22/12021-1).

O artigo Non-functional capillary modulates the honeymoon period in congenital diaphragmatic hernia pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-65584-4.
 

FONTE/CRÉDITOS: Luciana Constantino | Agência FAPESP

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