Aguarde, carregando...

Quinta-feira, 30 de Julho 2026
Ciência e Tecnologia

Desinformação disfarçada de ciência gera lucro financeiro nas plataformas digitais

Grupos usam linguagem científica para legitimar teses falsas e faturar nas redes, apontam pesquisadores na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Desinformação disfarçada de ciência gera lucro financeiro nas plataformas digitais
Durante a pandemia de COVID-19, integrantes de grupos antivacina citavam artigos científicos para embasar suas opiniões, relatam pesquisadores (foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Elton Alisson, de Niterói | Agência FAPESP – Ao iniciar um estudo sobre como grupos antivacina se articulavam no WhatsApp durante a pandemia de COVID-19, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) identificaram um padrão incomum: embora se opusesse claramente à vacinação, a maioria das mensagens citava artigos científicos para embasar suas opiniões.

“Alguns desses artigos foram publicados em revistas de baixíssima qualidade, chamadas predatórias, mas outros não, e tinham entre os autores cientistas respeitados em suas áreas”, disse Marcelo Alves dos Santos Júnior, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e um dos coordenadores do trabalho, durante uma mesa-redonda sobre a economia da desinformação científica promovida nesta terça-feira (28/07), durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói (RJ).

A constatação levou o pesquisador e seus colaboradores no Brasil e em outros países a investigar uma nova forma de instrumentalização da desinformação científica, que tem se tornado cada vez mais comum nas plataformas digitais. Nesse novo estratagema, a ciência não é rejeitada de forma absoluta, mas distorcida de maneira seletiva e estratégica para legitimar pontos de vista e embasar crenças antivacina, por exemplo, além de teorias da conspiração.

Publicidade

Leia Também:

Em vez da simples negação grosseira dos fatos, a desinformação científica agora não nega a ciência, mas se veste com o "jaleco" da autoridade, apropria-se do vocabulário especializado e utiliza a própria estrutura da comunicação científica para validar mentiras e obter ganhos políticos e econômicos, dizem os pesquisadores. Compreender esse processo, segundo eles, é fundamental para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de comunicação científica e de combate à desinformação.

“Antes se partia do princípio de que pessoas contrárias às vacinas, por exemplo, são negacionistas, mas temos constatado que as noções de negacionismo ou anticiência são insuficientes para abranger esse fenômeno. É preciso outros conceitos para dar conta desse tipo de prática e para tentarmos compreender a forma como esses grupos constroem suas visões de mundo, que não negam a ciência, mas que passam, em boa medida, pela apropriação e instrumentalização do discurso científico”, avaliou Santos Júnior.

A “fábrica de incertezas”

A eficácia dessa nova faceta da desinformação reside na manipulação de processos que são, ironicamente, fundamentais na ciência, segundo Thaiane Moreira de Oliveira, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do INCT-CPCT, que também participou da mesa-redonda. Na avaliação dela, um dos principais métodos empregados hoje para difundir informações falsas nas plataformas digitais é a exploração da dúvida para criar uma "fábrica de incertezas".

“Uma das estratégias empregadas hoje para fazer com que a desinformação científica circule é utilizar elementos que são da própria natureza científica, como a controvérsia”, explicou Oliveira. Essa tática permite que grupos organizados produzam “especialistas alternativos” e financiem falsas polêmicas para atrasar regulações ou promover produtos sem eficácia – com promessas falsas de cura do câncer, por exemplo –, transformando o debate científico em uma ferramenta de confusão pública.

Na avaliação de Oliveira, esse fenômeno não é resultado de uma crise de confiança na ciência, uma vez que a população brasileira é uma das que mais confia na ciência em todo o mundo, segundo os resultados de pesquisas sobre percepção pública da ciência conduzidas por instituições como o próprio INCT-CPCT. O instituto é apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e sediado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Em vez disso, na avaliação dela, trata-se de uma crise de legitimidade de quem faz e fala sobre ciência no país. Nesse vácuo, surgem falsos “especialistas” para legitimar mentiras.

"A desinformação científica não só produz crenças, mas também mercados, e tem uma série de atores e interesses envolvidos", ponderou a pesquisadora.


Participaram da mesa-redonda o pesquisador da USP Glaucius Oliva; Marcelo Aves dos Santos Júnior, da PUC-RJ; Nina Fernandes dos Santos da UFBA;

Thaiane Moreira de Oliveira, da UFF; e Bernardo Costa, jornalista do Estadão Verifica (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)

Fraude da "síndrome pós-spike"

O jornalista Bernardo Costa, do Estadão Verifica, apresentou um caso concreto de como a distorção da ciência gera lucro. Ele investigou médicos e grupos antivacina que criaram a inexistente "síndrome pós-spike" – uma condição falsa e sem comprovação científica. Segundo essas pessoas, as vacinas de RNA mensageiro (mRNA) contra a COVID-19 fariam o corpo humano produzir a proteína spike do vírus transmissor da doença por tempo indeterminado, gerando uma suposta "intoxicação" no organismo, com sequelas de longo prazo.

Os envolvidos no esquema, denunciados em reportagens feitas por Costa e outros jornalistas, chegaram a publicar um relato de caso em uma revista científica para validar a narrativa nas redes sociais, com o objetivo de promover cursos e consultas médicas. O estudo citado pelos médicos foi posteriormente retratado pela revista por falta de evidências.

“Como tem toda a cara de estudo científico, a população, especialmente os mais leigos, acha que esses médicos descobriram uma nova doença provocada pelas vacinas", relatou Costa. O objetivo final era simplesmente o lucro: consultas custavam R$ 3,6 mil, com filas de espera que chegavam a cinco meses, e eram promovidos cursos pagos on-line que prometiam revelar a "verdade oculta" por trás dos imunizantes. "Nesse caso, a desinformação está dando certo. Está dando lucro", lamentou Costa.

O algoritmo que lucra com a mentira

O modelo de negócios das plataformas digitais favorece o cenário da desinformação científica ao alterar profundamente o financiamento da informação, transferindo o controle econômico dos veículos de comunicação para as empresas de tecnologia que dominam o mercado digital global – as chamadas big techs –, avaliou Santos Júnior, da PUC-RJ.

No modelo tradicional de mídia de massa, havia uma relação institucionalizada entre o jornalismo e a publicidade, em que as marcas negociavam tabelas de preços diretamente com os veículos. Na era das plataformas, essa negociação foi substituída pela publicidade programática, controlada por algoritmos. “Hoje, quem define o preço para uma publicidade aparecer no jornalismo não é mais o veículo de comunicação, mas as big techs”, disse o pesquisador. Isso retira a autonomia do jornalismo profissional e promove uma migração quase que integral da receita publicitária para as empresas de tecnologia, avaliou.

Essa mudança transformou a publicidade de um modelo "simbólico", baseado na credibilidade do veículo jornalístico, para um modelo focado no comportamento do usuário, que é rastreado por cookies e pela vigilância comercial. Dessa forma, os sistemas de rastreamento permitem que anunciantes atinjam o público-alvo em qualquer lugar da rede, o que cria um incentivo perverso para conteúdos de baixo rigor.

Como o objetivo é atingir o usuário pelo menor preço, as plataformas identificam que podem impactar um mesmo indivíduo em um site de fofocas ou entretenimento de baixa qualidade, por exemplo, de forma mais barata do que quando ele está acessando o portal de um jornal. Isso cria um viés algorítmico em que a desinformação se torna o padrão de rentabilização, pois o que importa para o anunciante hoje é atingir o "alvo" (o consumidor), independentemente de onde ele esteja navegando, avaliou Santos Júnior.

“É muito mais barato para o algoritmo rentabilizar a informação de baixíssima qualidade do que a informação de um grande jornal. Isso faz com que a desinformação não seja um erro, mas o padrão a partir do qual o sistema foi desenvolvido para lucrar”, afirmou.

Efeito “clique zero”

O cenário torna-se ainda mais crítico com a introdução da inteligência artificial generativa nos buscadores, fenômeno que Santos Júnior denomina como “efeito clique zero” ou "Google Zero". Ao oferecer resumos das notícias na própria página de busca, as plataformas eliminam a necessidade de o usuário clicar no link original da reportagem. Isso impede o acesso direto ao site do jornal, resultando em quedas de tráfego que asfixiam ainda mais o modelo de negócio jornalístico baseado em visualizações de página (page views).

“Estamos observando uma queda de tráfego para sites jornalísticos de 40% a 60%, com projeções de chegar a zero em breve”. Para o especialista, esse esgotamento do tráfego coloca uma "pá de cal" no modelo de negócio que ainda permitia ao jornalismo de qualidade sobreviver digitalmente, criando um vácuo informacional que acaba preenchido por redes de desinformação mais ágeis e menos custosas.

A professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Nina Fernandes dos Santos apontou que a mudança das redes sociais para modelos baseados puramente em recomendações algorítmicas, e não mais em redes de sociabilidade, aumenta o controle das big techs sobre a realidade. "O poder de decidir quais informações serão ou não apresentadas e como serão apresentadas está ainda mais concentrado na mão dessas plataformas digitais", alertou.

Como solução, a pesquisadora defendeu que as plataformas digitais precisam passar a ser apropriadas de outras maneiras. “Temos um desafio de pensar outras apropriações, ocupações e formas de construir o território digital que não seja apenas essa forma que existe hoje", afirmou.
 

FONTE/CRÉDITOS: Elton Alisson, de Niterói | Agência FAPESP

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
Redação RCWTV

Publicado por:

Redação RCWTV

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp RCWTV
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR