Elton Alisson, de Niterói | Agência FAPESP – Na atmosfera terrestre, uma rede complexa de corredores invisíveis a olho nu transporta diariamente calor e umidade das regiões tropicais para os confins da Antártica, alterando drasticamente o clima do continente gelado. Conhecidos como “rios atmosféricos”, esses sistemas estão sendo apontados por pesquisadores brasileiros como um dos principais motores do degelo no setor oeste do continente e na Península Antártica.
A aceleração desse processo pode causar uma significativa elevação do nível global dos oceanos e impactar diretamente o Brasil. O país está entre os mais vulneráveis a esse cenário: das 136 cidades portuárias no mundo com população acima de 1 milhão de pessoas expostas à subida do mar, dez estão em território brasileiro.
O alerta foi feito por Heitor Evangelista da Silva, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador de um projeto de monitoramento de rios atmosféricos da Antártica. O pesquisador apresentou os dados em palestra durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, o evento acontece até o próximo sábado (01/08) no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.
De acordo com Silva, que também coordena o Criosfera 1 – o primeiro laboratório científico remoto e autônomo do Brasil no continente antártico, instalado em 2012 –, a ação dos rios atmosféricos ultrapassa as bordas do continente e penetra profundamente no interior da Antártica. “Cerca de 90% de toda a umidade que é transportada dos trópicos para as áreas polares é decorrente da ação dos rios atmosféricos”, afirmou.
Localizada na latitude 84 Sul, a 1.200 metros de altitude, a estação avançada Criosfera 1 tem permitido monitorar o alcance desses eventos. Segundo dados coletados pelo laboratório e calibrados com modelos climáticos, a frequência de ondas de calor associadas aos rios atmosféricos no interior antártico disparou nas últimas décadas. Se no início do monitoramento esses eventos representavam 25% dos episódios de aquecimento, hoje quase 80% das ondas de calor detectadas no centro da Antártica estão diretamente atreladas a essas correntes aéreas.
Em 2022, na estação Concórdia, um desses eventos causou um aumento súbito de temperatura de 43 °C em relação ao esperado para a época. “Esse fenômeno de aumento súbito de temperatura nesses níveis nunca tinha sido observado em nenhum registro histórico meteorológico da Antártica. Foi uma coisa absolutamente inédita”, afirmou o professor.
Embora os efeitos sejam mais visíveis na borda do continente, os pesquisadores constataram que os rios atmosféricos estão avançando cada vez mais fundo. Já foram observadas, na latitude 84 Sul, temperaturas de até -3 °C – muito próximas ao ponto em que o gelo começa a derreter (-1 °C naquela região). “Se esses eventos se tornarem mais frequentes no verão, haverá derretimento de gelo superficial em áreas extremamente remotas da Antártica”, avaliou Silva.

Heitor Evangelista da Silva é professor da Uerj e coordenador do laboratório Criosfera 1 (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)
Ameaças às âncoras do gelo continental
O impacto mais dramático dessa dinâmica recai sobre o setor oeste da Antártica, considerado um dos pontos de inflexão (tipping points, ou "pontos de não retorno") mais sensíveis do sistema climático global. Regiões como as geleiras Thwaites e Pine Island apresentam fluxos incomuns de umidade e superfícies altamente vulneráveis ao derretimento. Essas massas de gelo funcionam como verdadeiras "âncoras" que seguram todo o gelo do interior do continente. "A perda dessas geleiras frontais pode ser muito crítica para a perda do gelo continental que viria logo depois", alertou Silva.
O processo de degradação nessas geleiras tem ocorrido de forma silenciosa e "de baixo para cima": a água oceânica mais quente transportada para a região acaba minando a estrutura de sustentação das geleiras a partir de sua base. Estima-se que o colapso apenas da geleira Thwaites poderia elevar o nível do mar global em 63 centímetros, chegando a 1 metro se somado ao derretimento da geleira Pine Island.
As conclusões do projeto apontam para uma mudança estrutural na Antártica, similar à que já ocorre no Ártico. O pesquisador ressalta que, desde 2015, o gelo marinho ao redor do continente entrou em uma fase de queda brutal. “Essa diminuição de gelo marinho equivale a duas vezes a área da Groenlândia em perda de massa. É uma coisa que não aparece prevista em nenhum modelo numérico”, afirma.
O degelo causado por esses sistemas altera o chamado "albedo" – a capacidade que a superfície branca do gelo tem de refletir a luz solar de volta para o espaço. Com a perda do gelo marinho, a água escura do oceano fica exposta e absorve muito mais calor da radiação solar. Isso cria um ciclo vicioso de aquecimento acelerado, indicando o início de uma nova e preocupante fase climática conhecida como Amplificação Antártica (Antarctica Amplification).
Monitoramento único
O monitoramento contínuo realizado pelo Brasil é considerado único, pois o Criosfera 1 é a única estação geofísica automática operando bem no centro do continente gelado. Esses dados são fundamentais para calibrar e corrigir modelos climáticos globais – como o ERA-5 –, que, segundo as observações em campo feitas pelos cientistas brasileiros, ainda tendem a subestimar as temperaturas extremas na região.
Para avançar no entendimento dessas fronteiras climáticas, os próximos passos do projeto liderado pela Uerj – com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) da Criosfera, e do Centro Espacial Goddard da Nasa – envolvem a expansão tecnológica e o monitoramento contínuo no coração da Antártica. Com o uso de sistemas de transmissão de dados em tempo real via satélite, a equipe busca aprimorar o registro de aerossóis (partículas microscópicas suspensas no ar), gases de efeito estufa e o acúmulo de neve.
Além disso, a próxima missão do Criosfera 1 prevê a instalação inédita de um telescópio brasileiro na Antártica.

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