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Sábado, 06 de Junho 2026
Saúde

Avanço na vacinação contra HPV coexiste com preocupações sobre mortalidade

Cobertura vacinal desigual e falhas no monitoramento dificultam a prevenção do câncer de colo de útero, causado pelo HPV.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Avanço na vacinação contra HPV coexiste com preocupações sobre mortalidade
© Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Embora a vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) esteja progredindo na América Latina, a região ainda enfrenta um desafio significativo com mortes decorrentes do câncer de colo de útero, uma condição que poderia ser amplamente evitada. Essa constatação emerge de uma pesquisa publicada em fevereiro na renomada revista científica The Lancet, que examinou dados de 35 nações e territórios na América Latina e no Caribe.

O HPV é o agente causador da infecção sexualmente transmissível mais prevalente globalmente, afetando a pele e as membranas mucosas. Apesar da existência de vacinas eficazes, a adesão vacinal permanece heterogênea entre os países. Na América Latina, os índices variam consideravelmente, de 45% a 97%, enquanto no Caribe, a faixa é de 2% a 82%. Esses números estão aquém da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que visa vacinar 90% das meninas até os 15 anos de idade.

No Brasil, em 2024, a cobertura vacinal atingiu 82,83% entre as meninas e 67,26% entre os meninos na faixa etária de 9 a 14 anos. Para 2025, o Ministério da Saúde intensificou as campanhas de imunização, implementando a dose única e expandindo o público-alvo para incluir jovens de 15 a 19 anos que ainda não foram vacinados.

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Monitoramento da doença

De acordo com Flavia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, a América Latina demonstra resultados superiores aos do Caribe tanto em termos de vacinação quanto de rastreamento. Contudo, o principal obstáculo reside no modelo predominante em muitos países: o monitoramento oportunístico.

Este sistema implica a realização do exame apenas quando a mulher busca atendimento médico por outras razões ou solicita o procedimento ativamente. "Sabemos que este modelo de rastreamento oportunístico é consideravelmente menos eficaz do que um rastreamento organizado, que segue diretrizes específicas e abrange toda a população", explicou a médica em entrevista à Agência Brasil.

Especialistas apontam que essa abordagem contribui para diagnósticos em estágios avançados e, consequentemente, para um aumento na taxa de mortalidade. Em contrapartida, o rastreamento organizado envolve a identificação clara da população-alvo — mulheres entre 25 e 64 anos —, o convite ativo para a realização dos exames e o acompanhamento das ausentes, além de sistemas integrados para a gestão dos casos.

"Não adianta realizar o rastreamento sem assegurar o diagnóstico e o tratamento adequados", ressaltou a médica.

Flavia Corrêa enfatizou que a maior fragilidade reside no método de rastreamento, que permanece oportunístico na maioria desses 35 países, e na ausência de garantias de disponibilidade de todos os procedimentos necessários, por não se tratar de um rastreamento organizado.

Estratégias de prevenção

Na América Latina, apenas a Venezuela ainda não incorporou a vacinação contra o HPV em seus programas de saúde pública. No Brasil, o imunizante foi integrado ao Calendário Nacional de Vacinação em 2014, com distribuição totalmente gratuita.

"Estamos nos aproximando da meta global de 90% de meninas vacinadas até os 15 anos, que é a recomendação da OMS para a eliminação do câncer do colo de útero, e acredito que alcançaremos esse objetivo".

Flavia destacou a importância da vacinação também para os meninos, visando protegê-los contra diversos tipos de câncer associados ao HPV, como os de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais.

Teste molecular de DNA-HPV

Em janeiro, a Fundação do Câncer divulgou a atualização do Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, recomendando a substituição progressiva do exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV.

Ainda assim, a citologia cervical continua sendo o método principal na maior parte dos países analisados. O teste molecular já foi implementado em nações como Argentina, Brasil, Chile e México, além de alguns países caribenhos.

No Brasil, observa-se um progresso na adoção do novo exame e na estrutura de atendimento, com um fluxo de encaminhamento da atenção primária para os níveis secundário e terciário de saúde.

A paciente realiza o rastreamento na atenção primária e, caso o resultado seja positivo, é encaminhada para a atenção secundária para investigação diagnóstica. Após a conclusão dessa etapa, a paciente é direcionada ao nível terciário.

Flávia Miranda Corrêa ressalta a necessidade de comunicação entre os diferentes níveis de atenção, pois cada um possui sistemas de informação distintos. Essa interação é crucial para evitar que a paciente se perca no percurso de cuidado. "Se não houver interoperabilidade entre esses sistemas, corremos o risco de perder o acompanhamento da paciente e ela não concluir o tratamento, o que representa um grande problema no Brasil".

Sintomas e prevenção

A especialista esclarece que as lesões precursoras do câncer de colo do útero podem levar de 10 a 20 anos para se desenvolver, o que amplia a janela para o diagnóstico precoce. Quando detectado nessa fase inicial, o tratamento apresenta elevadas taxas de sucesso.

Os sintomas da doença incluem sangramentos anormais fora do período menstrual, após relações sexuais ou na pós-menopausa, além de corrimento vaginal persistente. Em estágios mais avançados, podem surgir alterações no funcionamento urinário ou intestinal.

Abordagem global

Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer, defende a transição para programas de rastreamento organizados, com convites ativos e acompanhamento sistemático das pacientes. Esse modelo tem sido fundamental para a redução da incidência da doença em países como Austrália, Canadá, Escócia e Dinamarca.

Conforme o estudo da The Lancet, a integração eficaz entre vacinação, rastreamento e tratamento é indispensável para alcançar a meta global: 90% de meninas vacinadas, 70% das mulheres rastreadas e 90% dos casos tratados.

Com a implementação dessa cobertura abrangente, a Organização Mundial da Saúde estima que a incidência do câncer de colo do útero poderá ser reduzida a níveis residuais nas próximas décadas.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

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