Entre a notícia e aquilo que costuma passar despercebido no cotidiano, o jornalista e escritor Renan Ribeiro Ferreira encontrou na crônica um espaço para registrar personagens, caminhos e situações de Juiz de Fora que nem sempre cabem na rotina das redações.
Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Renan construiu sua trajetória profissional passando por diferentes áreas da comunicação. Começou na Assessoria de Comunicação da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa) e, depois, atuou em veículos como Diário Regional, Tribuna de Minas e Portal Acessa.com.
Na Tribuna, além do trabalho como jornalista, encontrou espaço para desenvolver uma produção mais autoral por meio da coluna “É Logo Ali”, publicada semanalmente.
Foi justamente dessa experiência que nasceu boa parte dos textos que, anos depois, formariam seu primeiro livro.
Do jornalismo para a crônica
A relação de Renan com a escrita literária começou a ganhar forma a partir da observação de situações comuns da cidade.
Em entrevista à Tribuna de Minas, ele contou que uma das primeiras crônicas surgiu depois de presenciar um homem tendo uma convulsão dentro de um ônibus, em janeiro de 2017. O episódio não se encaixava exatamente como notícia, mas provocou nele a necessidade de escrever.
A partir dali, as viagens de ônibus, as ruas, as diferenças entre regiões da cidade e as relações entre as pessoas passaram a alimentar a produção do cronista.
Para Renan, a crônica surgiu justamente como uma possibilidade de falar sobre aquilo que muitas vezes fica fora da estrutura tradicional do jornalismo.
O próprio escritor resume essa forma de observar a cidade ao defender que o cotidiano precisa ser visto com mais atenção e que até aquilo que parece óbvio pode revelar histórias quando observado de outro ponto de vista.
Livro reúne 138 crônicas diversas
Esse material foi reunido em “Falando ‘Sôzinho’ e outras crônicas”, primeiro livro do autor, publicado em 2023.
A obra foi financiada pelo Edital Murilão, integrante do Programa Cultural Murilo Mendes, mantido pela Prefeitura de Juiz de Fora e gerenciado pela Funalfa.
O livro reúne crônicas, a maioria publicada entre 2019 e 2022 na coluna “É Logo Ali”, além de textos inéditos e 24 ilustrações feitas pelo próprio autor, exceto a da capa, que é uma arte do artista plástico Guilherme Melich
A coletânea foi dividida em três partes: “O aqui e agora”, “Pandemia: hiato de mais de dois anos que divide dois mundos” e “Pelas ruas da cidade”.
Os textos transitam entre questões pessoais, efeitos provocados pela pandemia e, principalmente, a relação do autor com Juiz de Fora e seus diferentes territórios.
A cidade aparece não apenas como cenário, mas como personagem recorrente das crônicas.
Zona Norte também atravessa a obra
Nascido e criado na Zona Norte de Juiz de Fora, Renan levou para o livro experiências construídas ao longo dos trajetos pela cidade.
Segundo perfil publicado pelo Acessa.com, ele estudou em escolas públicas antes de ingressar na UFJF. Sua relação com os deslocamentos urbanos ajudou a construir parte do olhar presente nas crônicas.
O lançamento do livro também carregou esse significado.
Renan escolheu a Praça CEU, na Zona Norte, para apresentar a obra ao público.
À época, explicou que o espaço havia sido importante em sua retomada do convívio social depois do período mais crítico da pandemia.
A ligação do livro com a região continuou depois do lançamento. “Falando ‘Sôzinho’ e outras crônicas” também foi escolhido para o primeiro encontro de um clube do livro realizado na Zona Norte de Juiz de Fora.
Formação na UFJF
A trajetória acadêmica de Renan também passou pelo estudo do próprio jornalismo.
Seu Trabalho de Conclusão de Curso na UFJF, aprovado em 2013, analisou a relação entre humor e informação na cobertura política. O trabalho, intitulado: “Humor e informação na cobertura política: a relação entre as charges e as matérias de cobertura noticiosa das eleições municipais de 2012 feitas pelo jornal Tribuna de Minas em Juiz de Fora”, foi orientado pelo professor Paulo Roberto Figueira Leal.
A pesquisa já apontava para duas áreas que mais tarde se encontrariam em sua trajetória: o jornalismo e outras formas de narrativa capazes de interpretar o cotidiano.
Reconhecimento com a Medalha Pedro Nava
No fim de 2023, Renan foi agraciado com a Medalha Pedro Nava, reconhecimento concedido em Juiz de Fora a pessoas que se destacam nas áreas de produção literária, recuperação da memória e fomento à leitura.
A homenagem aproximou simbolicamente a trajetória do cronista de outro escritor profundamente ligado à memória de Juiz de Fora: Pedro Nava, um dos principais nomes da literatura memorialística brasileira.
A escrita continua
Atualmente, Renan trabalha em uma agência de marketing, mas segue mantendo a escrita literária em paralelo à atuação profissional.
Depois da experiência no jornal impresso, nos portais de notícias e da publicação do primeiro livro, voltou a divulgar textos inéditos em seu próprio espaço na internet, o blog “Falando "Sôzinho" Crônicas”.
O projeto retoma justamente o caminho iniciado anos atrás: observar acontecimentos aparentemente comuns e transformá-los em narrativa.
A relação entre jornalismo e literatura continua sendo uma das marcas de sua produção. Se na reportagem o objetivo é registrar o fato, na crônica Renan procura aquilo que normalmente permanece nas margens dele: os personagens, as pequenas situações, os trajetos e os detalhes que ajudam a contar uma cidade para além das manchetes.

RCWTV
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