Poucas vezes na história recente da literatura nacional uma obra conseguiu unir com tanta força a aclamação unânime da crítica, o sucesso estrondoso de vendas e um compromisso político inegociável com as populações marginalizadas.
Esse fenômeno tem nome, rosto e uma sólida trajetória enraizada no chão do Brasil profundo: o escritor baiano Itamar Vieira Junior.
A relevância de sua narrativa extrapola as fronteiras acadêmicas e reverbera com intensidade nos debates culturais, rodas de leitura e salas de aula do Brasil
Nascido em Salvador, em 1979, Itamar não é um observador distante ou um teórico de gabinete. Sua literatura nasce da poeira das estradas de terra e do contato direto com os homens e mulheres que sustentam a memória ancestral e o sustento alimentar do país em meio à violência do latifúndio.
Origens, formação e atuação profissional
Geógrafo e servidor público: Graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Itamar ingressou em 2006, por concurso público, no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Durante mais de 15 anos de atuação de campo, percorreu comunidades rurais, assentamentos e territórios remanescentes de quilombos na Bahia e em outras regiões do Nordeste.
Doutorado em Estudos Étnicos: O trabalho técnico de titulação territorial e mediação de conflitos fundiários foi a base de sua pesquisa de doutorado em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA), na qual investigou a formação histórica, a territorialidade e as disputas fundiárias da comunidade quilombola de Iúna, na Chapada Diamantina.
Trajetória literária e as principais obras
A Oração do Carrasco (2017): Coletânea de contos lançada por editora independente (Mondrongo), que já revelava a maturidade de sua prosa ao abordar personagens submetidos à opressão institucional, às margens sociais e aos dilemas morais da violência. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti.
Torto Arado (2019): Livro que transformou o panorama editorial brasileiro contemporâneo. Vencedor do prestigiado Prêmio LeYa de 2018 em Portugal, e posteriormente dos prêmios Jabuti e Oceanos no Brasil, o romance acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia no sertão da Chapada Diamantina.
A história parte de um acidente trágico na infância com uma faca herdada da avó para descortinar o trabalho análogo à escravidão que perdurou décadas após a abolição formal de 1888, entrelaçado à religiosidade do Jarê e à organização política quilombola contra o poder dos fazendeiros.
Doramar ou a Odisseia (2021): Livro de contos que reúne narrativas antigas e inéditas, expandindo seu universo temático para os dramas urbanos, a ancestralidade indígena, o racismo estrutural e a resistência de corpos historicamente silenciados.
Salvar o Fogo (2023): Segundo romance de seu projeto literário focado na posse da terra. Ambientado na fictícia comunidade ribeirinha de Povoamento, às margens do rio Paraguaçu (BA), o enredo acompanha a trajetória de Luzia e seus irmãos, dissecando o domínio secular exercido pela Igreja Católica sobre a posse dos solos e sobre os corpos dos camponeses, o trauma familiar e as disputas por dignidade.
Ativismo político e engajamento social
Voz ativa contra o latifúndio: Itamar utiliza sua projeção pública em artigos, entrevistas e conferências internacionais para denunciar o avanço predatório da grilagem, a devastação socioambiental provocada pelo agronegócio predatório e a lentidão estatal na demarcação de terras indígenas e quilombolas.
Enfrentamento a ameaças: Por conta de sua atuação firme como fiscal e defensor dos laudos de demarcação no interior baiano, já enfrentou hostilidades e ameaças de morte por parte de setores contrários à reforma agrária, mantendo sua postura em defesa dos direitos humanos fundamentais.
Letramento racial e soberania popular: O autor defende que a verdadeira democracia brasileira só será alcançada mediante a reparação histórica da escravidão, colocando o acesso à terra e o direito à moradia como bases indispensáveis para a cidadania plena.
Curiosidades dos bastidores
O manuscrito guardado: A primeira versão embrionária do que viria a ser Torto Arado foi escrita à mão por Itamar quando ele tinha apenas 16 anos, ficando guardada em cadernos por mais de duas décadas até que suas vivências no Incra trouxessem a densidade final que o livro exigia.
Escrita nas madrugadas: Durante anos, para conciliar as longas viagens de inspeção territorial pelo Incra com a produção literária, o autor mantinha a disciplina de acordar por volta das 4h da manhã para escrever ficção antes do início do expediente de servidor público.
Impacto global e adaptações: Com direitos de tradução vendidos para mais de 25 países, incluindo edições aclamadas nos Estados Unidos, França, Itália e Alemanha, Torto Arado expandiu seus horizontes para o teatro musical e teve seus direitos adquiridos para adaptação audiovisual em formato de série, consolidando a internacionalização da luta camponesa brasileira.

RCWTV
Comentários: