A literatura brasileira contemporânea vive um de seus momentos mais fecundos e necessários quando desloca os olhos do eixo tradicional Centro-Sul e encontra nas margens uma força expressiva capaz de desconstruir certezas.
No Norte do país, longe de qualquer visão ingênua ou folclorizada da floresta, emergem duas escritoras fundamentais do Pará: Monique Malcher e Paloma Franca Amorim. Com raízes amazônicas, trajetórias marcadas pelo engajamento político e uma prosa que expõe as fraturas sociais do país, as duas autoras têm conquistado leitores atentos e reverência crítica no Brasil.
Ao transformarem dor, afeto, marginalidade e resistência em matéria de alta voltagem estética, Monique e Paloma provam que a escrita paraense não pede licença: é universal, urgente e radicalmente humana.
Monique Malcher: a navalha da memória e a denúncia da opressão de classe
Origens e formação: Nascida em Santarém, no oeste do Pará, Monique Malcher construiu sua trajetória artística em Belém antes de ganhar projeção nacional. Escritora, jornalista, artista plástica e doutora em Estudos de Gênero, ela entrelaça antropologia visual e literatura em uma pesquisa contínua sobre a ancestralidade feminina e as feridas abertas do cotidiano.
Ativismo e visão crítica: Monique atua ativamente na defesa dos direitos das mulheres, no combate ao racismo estrutural e na denúncia da exploração predatória sobre a Amazônia. Sua bandeira é clara: combater a redução da cultura nortista a um mero produto exótico para consumo das elites do Sudeste, afirmando a soberania da mulher trabalhadora sobre a própria voz e território.
Trajetória editorial e obras: Estreou com repercussão histórica com o livro de contos Flor de Gume (2020), que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2021. Participou de coletâneas marcantes como Trama das Águas (2020) e Antes que Eu Me Esqueça (2021). Mais recentemente, expandiu seu fôlego narrativo com o romance Degola (2025, Companhia das Letras).
Resumo da obra mais marcante (Flor de Gume): Vencedor do Jabuti, o livro é composto por contos curtos, densos e cortantes como lâminas. A obra percorre três gerações de mulheres marcadas por abusos domésticos, abandonos paternos, silenciamentos e solidão. Com lirismo visceral, o livro não trata a violência com complacência, mas como uma cicatriz coletiva, na qual o corpo feminino aprende a resistir pelas mãos e pelos saberes das avós e mães que sobrevivem à margem dos rios e das periferias urbanas.
Paloma Franca Amorim: as fissuras urbanas de Belém e a resistência dissidente
Origens e vivência comunitária: Nascida e criada em Belém, Paloma Franca Amorim transita entre a escrita, a dramaturgia cênica, a educação popular e as artes visuais. Sua matéria-prima são as esquinas da capital paraense, o calor sufocante da cidade, as marés dos igarapés e as tensões invisíveis que separam a burguesia das periferias da Amazônia.
Engajamento político e confronto ao conservadorismo: Como articulista de publicações da imprensa independente e de esquerda (com textos em veículos como o Opera Mundi), Paloma constrói uma produção abertamente antifascista e anticapitalista. Sua militância confronta o moralismo burguês, o racismo institucional e a violência contra corpos LGBTQIA+ e dissidências periféricas, reivindicando espaços de convivência e liberdade que as classes dominantes tentam constantemente sufocar.
Trajetória de publicações: Consolidou-se na ficção com a coletânea Eu Preferia Ter Perdido um Olho (2017). Em seguida, publicou o celebrado romance O Oito (2020) e o ensaio cênico-político Economia da Tragédia. Recentemente, lançou Um Búfalo na Areia (2026, Editora Incompleta), livro de contos que revisita infâncias amazônicas diante das perdas ambientais e do amadurecimento coletivo.
Resumo da obra mais marcante (O Oito): O romance tem como epicentro um bar real e emblemático de Belém chamado "O Oito", que se transformou em ponto de resistência para artistas, intelectuais independentes e jovens dissidentes que buscavam respirar em meio a uma cidade asfixiada pelo preconceito. A narrativa funciona como um quebra-cabeça de afetos e confrontos, expondo os ataques da elite local ao estabelecimento e celebrando a solidariedade entre os que ousam viver e amar fora das normas impostas.
Para conhecer mais de perto a trajetória e as reflexões sobre criação literária no Norte do país, confira a entrevista em vídeo no
RCWTV
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