Um levantamento recente aponta que 71,7% dos gestores de escolas públicas brasileiras enfrentam dificuldades consideráveis ao abordar temas como bullying, racismo e capacitismo no ambiente educacional. A pesquisa, realizada em 105 instituições de ensino, destaca o enfrentamento à violência como um dos maiores desafios na gestão escolar atual.
O estudo, conduzido pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em colaboração com o Ministério da Educação (MEC), ouviu 136 gestores de escolas municipais e estaduais. Os resultados foram divulgados nesta quarta-feira (6) e servirão de base para a elaboração do novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras, iniciativa do governo federal com lançamento previsto para quinta-feira (7).
Combate à violência no ambiente escolar
Adriano Moro, coordenador da pesquisa e pesquisador da FCC, ressalta que lidar com as diversas formas de violência no contexto escolar é uma tarefa complexa que demanda preparo, suporte e estratégias bem definidas.
Um dos obstáculos identificados é a tendência à naturalização da violência, onde atos agressivos são, por vezes, minimizados como meras "brincadeiras" por adultos da comunidade escolar. Essa percepção equivocada pode levar à inação, justamente em momentos cruciais em que os estudantes necessitam de intervenção e amparo.
Moro também contextualiza que muitas escolas operam em realidades sociais marcadas por altos índices de violência externa. A dificuldade em engajar famílias e a comunidade local agrava a pressão sobre as instituições de ensino, que muitas vezes se veem sobrecarregadas para gerenciar esses problemas isoladamente.
O desafio do bullying e outras violências
O pesquisador aponta ainda para a problemática do uso generalizado do termo "bullying", que pode obscurecer outras formas de violência específicas. Embora o bullying seja um fenômeno grave que exige atenção, a falta de nomeação precisa de outras violências, como racismo, capacitismo, xenofobia ou discriminação de gênero, dificulta intervenções mais eficazes.
O bullying, originário da língua inglesa, descreve um padrão de agressão física ou psicológica repetida, com potencial para causar danos significativos às vítimas. Ele se manifesta através de insultos, apelidos pejorativos e outras táticas de intimidação e humilhação.
Segundo a FCC, um clima escolar positivo é fundamental para o enfrentamento dessas violências, pois fomenta um ambiente onde a escola pode atuar de forma mais proativa e preventiva, em vez de meramente reativa.
A confiança mútua, o respeito e a escuta ativa entre alunos e educadores são pilares para a identificação precoce de problemas, a correta classificação das violências e a implementação de ações mais justas e responsáveis.
Outras constatações da pesquisa
O levantamento também investigou a gestão do clima escolar em relação a alunos, professores e pais, revelando outros pontos de atenção:
- 67,9% dos gestores apontam desafios na articulação entre escola, famílias e comunidade.
- 64,1% enfrentam obstáculos na promoção de relacionamentos saudáveis entre os estudantes.
- 60,3% identificam dificuldades em cultivar o sentimento de pertencimento entre os alunos.
- 60,3% reconhecem entraves na relação entre estudantes e professores.
- 49% lidam com desafios na garantia de um ambiente escolar seguro para os alunos.
A pesquisa indicou que mais da metade das escolas participantes (54,8%) nunca realizaram um diagnóstico estruturado sobre o clima escolar, uma etapa considerada crucial para o desenvolvimento de políticas eficazes de convivência e aprendizado.
Por outro lado, mais de dois terços das instituições (67,6%) contam com equipes dedicadas a ações de melhoria do clima escolar, enquanto nas demais (32,4%), essa responsabilidade recai diretamente sobre a gestão.
Adriano Moro destaca a sobrecarga de trabalho dos profissionais de educação, que frequentemente precisam gerenciar múltiplas urgências, o que desvia o foco de ações preventivas e planejadas para a resolução de problemas imediatos.
Impacto do clima escolar na aprendizagem
O pesquisador enfatiza a forte correlação entre um clima escolar positivo e o desempenho acadêmico. Um ambiente acolhedor, respeitoso e seguro é essencial para o bem-estar dos estudantes e para a eficácia do processo de ensino-aprendizagem.
"Para que a aprendizagem aconteça com qualidade e equidade, é fundamental que os estudantes se sintam acolhidos", afirma Moro. Ele complementa que, quando os alunos se sentem respeitados e livres para errar, seu aprendizado se aprofunda e o desenvolvimento de suas habilidades ocorre com maior confiança.
Grupo de trabalho interministerial
A pesquisa da FCC, realizada entre março e julho de 2025 em dez estados brasileiros, coincide com a recente recriação, pelo governo federal, de um grupo de trabalho (GT) focado no combate ao bullying e ao preconceito no ambiente educacional.
Este GT, composto por áreas técnicas do MEC, terá um prazo inicial de 120 dias para apresentar um relatório com propostas e conclusões que subsidiarão futuras políticas públicas na área.
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