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‘Paisagem do medo’ faz macacos e elefantes restringirem rotas para evitar caçadores

Estudo internacional mostra que espécies em perigo de extinção abrem mão de explorar novos ambientes e adotam caminhos repetidos ao cruzar áreas com ameaça humana

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
‘Paisagem do medo’ faz macacos e elefantes restringirem rotas para evitar caçadores
Macaco-prego-do-peito-amarelo procura comida em Una, sul da Bahia: primatas evitam áreas perigosas, mesmo que rica em alimentos (foto: Patrícia Izar/IB-USP)
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André Julião | Agência FAPESP – Para escapar de caçadores e outros perigos humanos, mamíferos ameaçados de extinção estão mudando a forma como se locomovem na natureza. Um novo estudo revelou que, em vez de explorar novos caminhos, espécies como o macaco-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos) no Brasil e o elefante-africano (Loxodonta africana) no Zimbábue passam a usar rotas repetidas e familiares ao cruzar áreas de risco.

Ao transitar por esses trajetos habituais no “piloto automático”, os animais reduzem o esforço cognitivo da navegação, indica um estudo internacional publicado em junho na revista Scientific Reports. Segundo os autores, essa economia de energia mental permite que as espécies mantenham o foco voltado inteiramente para a vigilância do ambiente, garantindo a fuga rápida ao primeiro sinal de risco.

“Nossos estudos sugerem que algumas espécies optam por estratégias de navegação que demandam menos atenção ao caminho em si, a fim de poderem monitorar sinais de risco em locais de atividade humana, como a caça”, comenta Andrea Presotto, professora da East Carolina University, nos Estados Unidos, e primeira autora do artigo.

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Conhecida pelos cientistas como “paisagem do medo”, essa variação na percepção de risco molda o comportamento dos animais ao longo da vida. Segundo os pesquisadores, essas adaptações defensivas podem desencadear um efeito cascata no meio ambiente, resultando em graves consequências ecológicas e até mesmo na perda das culturas animais – termo usado para descrever comportamentos passados de geração em geração, desde ferramentas e técnicas para obter comida até dialetos próprios de vocalização (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/tradicoes-culturais-de-animais-podem-contribuir-com-estrategias-para-protege-los/).

“A paisagem do medo não é apenas um conjunto físico de lugares, como florestas, campos, rios ou trilhas, mas a percepção de risco associada a cada parte desses ambientes. Alguns locais são percebidos como mais seguros, enquanto outros são percebidos como perigosos, dadas as chances maiores de encontrar predadores ou caçadores”, explica Patricia Izar, professora do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e coautora do estudo.

O trabalho integra projeto financiado pela FAPESP. Atualmente, Izar coordena outros três projetos apoiados pela Fundação (25/26856-6, 25/13667-0 e 21/11269-7).


Elefantes-africanos com colar que transmite localização: ao privilegiar as mesmas áreas, manadas deixam de exercer papel ecológico em outras (foto: Andrea Presotto/ECU)

Macacos e elefantes

Os pesquisadores acompanharam dez elefantes-africanos com coleiras que transmitiam sua localização em Victoria Falls, no Zimbábue, e um grupo de macacos-prego-do-peito-amarelo, que variava entre 32 e 37 indivíduos, residentes na Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia. Os macacos-prego foram seguidos por dois anos pelos pesquisadores e tinham a localização georreferenciada por GPS.

Em um trabalho anterior com o mesmo grupo de primatas, os pesquisadores observaram que os animais passam menos tempo em áreas percebidas como mais perigosas, mesmo que mais ricas em biomassa vegetal e invertebrados dos quais podem se alimentar. O risco de predação, portanto, pesa mais na utilização dos espaços dentro das áreas de vida do que a disponibilidade de alimentos (leia mais em: agencia.fapesp.br/36188).

No estudo atual, os pesquisadores observaram que tanto elefantes quanto macacos-prego evitam mudar as rotas (ou seja, testar novos caminhos) em locais potencialmente mais perigosos, onde houve a ocorrência de eventos traumáticos no passado, no caso dos macacos-prego, e, no caso dos elefantes, onde a caça é permitida ou pode haver outros conflitos com humanos, como lavouras e cidades.

“Os macacos-prego são bastante barulhentos, mas ficam muito silenciosos nessas áreas de risco, como a cabruca, uma formação agroflorestal composta por antigas lavouras de cacau, dendê e jaca, que são alimentos importantes para eles, mas onde também há presença de caçadores”, diz Izar.

Enquanto os macacos podem evitar áreas potencialmente perigosas, mesmo que haja grande disponibilidade de alimento, os elefantes podem optar por rotas mais difíceis, como brejos e rios, em que o acesso de caçadores seja restrito.

“Criar uma rota em uma área alagada, por exemplo, é muito mais vantajoso para os elefantes, porque os humanos têm mais dificuldade de passar por lugares assim”, exemplifica Presotto.

O ambiente também perde

A concentração da fauna em apenas alguns ambientes, inclusive quando estão em movimento, pode levar à perda de serviços ecossistêmicos. No caso dos elefantes, todas as rotas que eles evitam ficam privadas das modificações causadas no solo pelo pisoteamento e do aporte de nutrientes e sementes pelas fezes.

Ao mesmo tempo, uma vez que os elefantes podem causar grande destruição à vegetação nos locais por onde passam, ao se concentrarem nas mesmas rotas, podem não dar tempo para essas áreas se regenerarem, causando uma alteração profunda na paisagem e em seus serviços ecossistêmicos.

Os macacos-prego-do-peito-amarelo, por sua vez, podem estar deixando de dispersar sementes das espécies que consomem nos locais que deixam de frequentar pelo medo de serem caçados, algo comprometedor para a viabilidade ecológica dessas áreas.

“Além de tudo, a transformação predatória do hábitat causa uma redução da diversidade de comportamentos e culturas animais. Os macacos-prego têm uma grande diversidade de culturas relacionadas a peculiaridades dos locais que ocupam. A antropização está uniformizando ambientes e essas culturas”, encerra Izar.

O trabalho teve apoio ainda por meio de bolsa de doutorado para Priscila Suscke Gouveia, coautora do estudo.

O artigo Hunting by humans affects the navigation of two endangered mammals in Zimbabwe and Brazil pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-56803-z.
 

FONTE/CRÉDITOS: André Julião | Agência FAPESP

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