Os óxidos de ferro encontrados em solos de manguezais têm papel essencial no sequestro de carbono, segundo pesquisa publicada na Nature Communications. O estudo, liderado por cientistas da Esalq-USP com apoio da FAPESP, revela que esses minerais estabilizam o carbono orgânico do solo e evitam a liberação de gases de efeito estufa.
Como os minerais atuam
De acordo com os pesquisadores, minerais como ferri-hidrita e lepidocrocita – de baixa cristalinidade – protegem as frações mais instáveis da matéria orgânica do solo, conhecidas como lábeis. Isso impede sua decomposição e, consequentemente, a emissão de CO₂.
Contudo, o uso inadequado da terra, como a conversão de manguezais em áreas de pastagem ou tanques de camarão, altera a composição geoquímica do solo. Essa transformação reduz a eficiência dos óxidos de ferro, acelerando a liberação de carbono.
“Conseguimos demonstrar o mecanismo envolvido na proteção do carbono em solos alagados. É uma quebra de paradigma”, afirma o pesquisador Francisco Ruiz, autor do estudo.
Metodologia inovadora e impactos
A equipe combinou diferentes técnicas, como espectroscopia no infravermelho, análise térmica e extração química seletiva, para analisar amostras do estuário Mocajuba-Curuçá, no Pará. A abordagem permitiu identificar com precisão o papel do ferro nos processos de estabilização do carbono.
O professor Tiago Osório Ferreira, coautor e orientador do estudo, destaca que a pesquisa permite entender melhor quais usos da terra são mais nocivos ou benéficos para o solo dos manguezais.
“Esses resultados ajudam a construir estratégias de mitigação para os efeitos das mudanças climáticas”, explica.
Manguezais: florestas de carbono azul
Conhecidos como florestas de carbono azul, os manguezais são altamente eficientes no sequestro de carbono. Emissões provocadas pela perda de vegetação nesses ecossistemas podem ser até três vezes maiores do que em áreas equivalentes da Amazônia.
No Brasil, há cerca de 1,4 milhão de hectares de mangue, sendo a segunda maior área de manguezal do planeta. No entanto, estima-se que 25% desses ecossistemas já tenham sido destruídos, devido ao desmatamento, à urbanização e às mudanças climáticas.
Biodiversidade e populações locais
Além do papel climático, os manguezais sustentam a vida de aproximadamente 500 mil brasileiros que dependem diretamente desses ambientes – pescadores, marisqueiros e extrativistas.
“O problema não está no extrativismo, mas na ruptura do equilíbrio do solo provocada por remoções ou uso inadequado”, alerta Ferreira.
Com mais de 770 espécies de fauna e flora, os mangues também são berçários naturais para diversas espécies marinhas e importantes para a pesca artesanal.
Restauração exige mais que reflorestamento
O estudo também aponta que restaurar manguezais exige mais do que apenas plantar vegetação. É preciso recuperar o equilíbrio geoquímico do solo, o que pode levar tempo, especialmente em áreas já degradadas.
Segundo Ruiz, esse tipo de pesquisa ainda está começando no Brasil. Durante sua trajetória, o cientista trabalhou com tecnossolos – solos construídos para recuperar áreas degradadas – e foi reconhecido com o Prêmio Capes de Tese 2024.
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