Um poema redigido a mão pelo escritor cearense Antônio Sales foi escolhido pela equipe da Fundação Museu Mariano Procópio (Mapro) para a websérie “A Peça da Semana” desta segunda-feira, 16. Datada de 5 de agosto de 1900, o manuscrito pertencente à coleção do casal Visconde e Viscondessa de Cavalcanti, e pode ser conferido no Instragram (@museumarianoprocopio) e no Facebook (museu.marianoprocopio). Também é possível acessar informações mais detalhadas sobre o tema no artigo do historiador Sérgio Augusto Vicente, publicado na revista “Trama: Arte, Cultura e Criatividade”.
Sérgio, que integra a equipe da Mapro, explica que o poema selecionado - “Dois noivos / Hoje, estava comprando / Os preparos do nosso casamento / Quando vi pelo azul do firmamento / Passar ligeiro pássaro levando / No bico um ramo para fazer seu ninho. // Sorri ao passarinho, / E ele, esse meu sorriso compreendendo, / Mandou um gorjeio prazenteiro, / Como a dizer-me – salve, companheiro, / Que andas também o ninho teu fazendo!” - compõe uma série de versos autografados, de diferentes escritores, do acervo do Visconde e da Viscondessa de Cavalcanti. A coleção inclui assinaturas de Machado de Assis, José Veríssimo, Arthur Azevedo, Afonso Celso, João Ribeiro, Lúcio de Mendonça, Carlos Magalhães Azeredo, Barão de Paranapiacaba, Domício da Gama, Angelo de Amaral, M. Gonçalves da Rocha e Juan Valera.
Conforme o historiador, a escolha do poema de Antônio Sales se deve a dois motivos: o fato de o escritor ser, hoje, pouco conhecido; e o seu relevante papel na carreira literária de dois destacados escritores de Juiz de Fora: Belmiro Braga (1872-1937) e Pedro Nava (1903-1984). “Nascido no Ceará em 1868, Sales mudou-se com a esposa, Alice Nava, para o Rio de Janeiro, em 1896. Sua chegada à capital da jovem república não se deu no anonimato, uma vez que o escritor já era bastante conhecido na imprensa da região Sudeste por conta do ousado projeto da academia literária que ajudou a fundar em seu estado natal, em 1892, a Padaria Espiritual, cuja proposta consistia na valorização e na busca de uma literatura que fosse reconhecidamente brasileira e capaz de expressar a realidade e as múltiplas facetas do amplo universo cultural do país.”
Em janeiro de 1900 – ou seja, alguns meses antes de assinar o poema –, Sales desloca-se do Rio de Janeiro para uma fazenda do interior mineiro, a fim de se recuperar de um problema de saúde. “Era a Fazenda do Bom Jesus, pertencente ao casal Joaquim Nogueira Jaguaribe e Maria Luísa (viúva de Henrique Halfeld). Hospedado nas imediações da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, em Cotegipe (então distrito de Juiz de Fora), o cearense, nessa ocasião, conhece o poeta Belmiro Braga, que trabalhava em um armazém próximo à referida estação. A partir desse contato, Sales, inserido numa densa rede de sociabilidade na capital federal e colaborando com diversos periódicos, torna-se um dos propagadores da produção literária belmiriana”.
Ainda de acordo com Sérgio, em 1902, o cunhado de Sales, José Nava, casa-se com uma das filhas dos proprietários da fazenda em que ficara hospedado em Cotegipe. Dessa união, nasceu, em 1903, Pedro Nava, que, futuramente, teria destacada atuação na medicina e na literatura como memorialista. Falecendo em 1911, José Nava deixa Pedro Nava órfão de pai, fato que o aproxima ainda mais dos tios cearenses, com os quais chegou a morar no Rio de Janeiro, para dar continuidade à sua formação escolar.
Tanto nos registros memorialísticos de Belmiro Braga quanto nos de Pedro Nava, Antônio Sales se faz muito presente. “As pesquisas, de fato, demonstram que o cearense exerceu importante papel nas carreiras literárias de ambos os escritores, seja através de influências direta e indiretamente exercidas em suas formações intelectuais, como também na ampliação de suas redes de sociabilidade literária no Rio de Janeiro, então considerado verdadeiro polo irradiador de culturas provenientes de diferentes regiões do país”.
Antônio Sales deixou uma produção predominantemente em versos, muitos dos quais não exclusivamente marcados pelo lirismo presente no poema apresentado na websérie. O escritor também ficou muito conhecido pelas críticas mordazes que fazia aos problemas políticos e sociais que assolavam o país, sendo, inclusive, perseguido por uma das oligarquias dominantes em sua terra natal. Além das crônicas e dos textos críticos publicados em diferentes periódicos, deixou também um romance regionalista, intitulado “Aves de Arribação”, publicado em folhetim, em 1903, e, posteriormente, em livro, por diversas editoras. Curiosamente, um dos personagens desse livro, o poderoso e rico aristocrata Florêncio, recebeu o sobrenome “Cavalcanti de Albuquerque”, suposta referência à família do Visconde de Cavalcanti, no Nordeste.
