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Domingo, 07 de Junho 2026
Saúde

Há cinco anos, o Brasil iniciava a imunização contra a covid-19

A campanha de vacinação reduziu drasticamente as fatalidades, mas a demora na aquisição de imunizantes no país impediu a salvação de mais vidas.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Há cinco anos, o Brasil iniciava a imunização contra a covid-19
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Em um marco histórico, há cinco anos, o Brasil começava a trilhar o caminho para superar a pandemia de covid-19. Em 17 de janeiro de 2021, após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) conceder o aval para o uso emergencial de dois imunizantes no país, a enfermeira paulista Mônica Calazans foi a primeira brasileira a receber a vacina.

A escolha de Mônica para esse instante memorável se deu por sua participação nos testes clínicos da vacina Coronavac, conduzidos no final de 2020 para verificar a segurança e a eficácia do imunizante. Àquela altura, ela atuava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, uma unidade hospitalar renomada em doenças infecciosas e centro de referência para a covid-19, que prestou atendimento a mais de 40 mil pacientes ao longo da crise sanitária.

A enfermeira relata que estava em seu turno de trabalho naquele domingo quando foi informada pela supervisora para comparecer ao local da cerimônia. Ali, diversas autoridades aguardavam a deliberação da Anvisa para iniciar a campanha de vacinação. Ao saber que seria a primeira a ser imunizada, Mônica não conseguiu conter a emoção:

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"Eu chorei copiosamente, de verdade! Estávamos vivenciando um período traumatizante, e meu irmão, inclusive, estava com covid-19 na ocasião. Minhas lágrimas também eram de emoção e alegria, pois a ciência dava um passo crucial para pôr fim àquela tragédia que assolava o planeta", expressou.

"No momento em que recebi a vacina, senti que estava levando esperança às pessoas. Meu punho cerrado simbolizava uma mensagem de otimismo e triunfo, a certeza de que superaríamos aquela fase tão terrível", complementou.

A imunização no restante do território nacional teve início no dia seguinte, 18 de janeiro, após a distribuição de um lote inicial de 6 milhões de doses da vacina produzidas na China e importadas pelo Instituto Butantan. Posteriormente, o Butantan começou a processar o imunizante no Brasil, utilizando o ingrediente farmacêutico ativo (IFA) fornecido pela empresa Sinovac.

Poucos dias mais tarde, em 23 de janeiro, a campanha foi fortalecida com a chegada das primeiras 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, inicialmente importadas da Índia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A Fiocruz, por sua vez, assimilou progressivamente a tecnologia, passando a fabricar o imunizante em território brasileiro.

A estratégia de vacinação priorizou os grupos mais suscetíveis, começando pelos profissionais de saúde da linha de frente, idosos e pessoas com deficiência residentes em instituições, além da população indígena. Naquele período, o Brasil enfrentava o auge da variante Gama do coronavírus, que se revelou mais agressiva e letal em comparação com as cepas anteriores.

Devido à quantidade restrita de doses disponíveis, a imunização progrediu de forma gradual até atingir outros segmentos igualmente vulneráveis, como os idosos em geral. No Rio de Janeiro, por exemplo, indivíduos com idades entre 60 e 70 anos somente tiveram acesso ao imunizante nos meses de março e abril de 2021.

Apesar dos desafios, os efeitos benéficos da vacinação foram rapidamente perceptíveis. Conforme dados do Observatório Covid-19 Brasil, a partir de abril, as taxas de hospitalização e óbitos entre a população idosa registraram uma queda acentuada.

Especialistas estimam que, somente nos sete primeiros meses da campanha, 165 mil internações e 58 mil mortes de idosos foram prevenidas.

Nos meses subsequentes, tanto o Instituto Butantan quanto a Fiocruz começaram a realizar as etapas finais de formulação e envase das vacinas em território nacional. Esse avanço, somado à aquisição de imunizantes de empresas privadas, permitiu um aumento significativo na disponibilidade de doses.

Em um período de um ano, foram administradas 339 milhões de doses, alcançando 84% da população brasileira. Cálculos de especialistas indicam que essa cobertura vacinal preveniu 74% dos casos graves e 82% das mortes projetadas no Brasil, resultando na preservação de mais de 300 mil vidas.

Atrasos na campanha

Contudo, o mesmo levantamento do Observatório Covid-19 Brasil que quantificou as vidas preservadas pela vacinação também apontou que "um adicional de 104.000 hospitalizações poderia ter sido evitado se a vacinação tivesse sido iniciada mais cedo" e que "outras 47 mil vidas poderiam ter sido salvas caso o governo brasileiro tivesse antecipado o programa de imunização", apenas no grupo de idosos.

Paola Falceta, vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), presume que sua mãe, que faleceu em janeiro de 2021, integra essas estatísticas. Para ela, é inegável que houve um retardo no começo da vacinação no Brasil, atribuindo essa falha à negligência da gestão federal daquele período.

"Obviamente, não seria possível salvar a todos, pois a vacinação depende da decisão individual, e haveria sempre um grupo que optaria por não se vacinar", ponderou.

"No entanto, a grande maioria da população desejava ter acesso à vacina, e muitos dos que perderam a vida eram pessoas que poderiam ter sido imunizadas mais cedo, mas não tiveram essa chance. Essa carência foi imposta pela própria administração, que optou por não adquirir nem negociar todos os tipos de imunizantes disponíveis", criticou Falceta.

A análise de Paola é reforçada por uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo conclui que, se a vacinação no Brasil tivesse sido antecipada em 40 dias, coincidindo com o início no Reino Unido, com maior disponibilidade de doses e aliada a estratégias de isolamento e proteção, o país poderia ter evitado 400 mil óbitos. Esse número representa mais da metade das aproximadamente 700 mil mortes causadas pela doença no território nacional.

Por trás dessas estatísticas, existem narrativas pessoais, como as de Paola e de Ana Lucia Lopes, que perdeu seu companheiro em maio de 2021.

"Um mês após o falecimento de Cláudio, eu recebi a vacina. Tínhamos a mesma idade, o que significa que ele seria imunizado na mesma época. É profundamente revoltante refletir que ele não teve essa chance. Imagine quantas pessoas poderiam ter sido vacinadas e ter tido a oportunidade de sobreviver", lamentou Ana Lucia.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, instaurada em 2021, também determinou que o governo federal provocou uma "escassez" deliberada de doses vacinais. Essa medida foi crucial para o crescimento do número de infecções e óbitos, além de favorecer a proliferação de novas variantes. Entre as evidências apresentadas, destacam-se as propostas de venda da farmacêutica Pfizer, feitas em agosto de 2020, que ofereciam 1,5 milhão de doses para entrega ainda no primeiro ano da pandemia, e que não obtiveram resposta do governo brasileiro.

"A compra de imunizantes deveria ter sido a ação primordial no esforço de conter a disseminação do novo coronavírus e, por conseguinte, de salvaguardar a saúde pública. Contudo, lamentavelmente, essa providência foi negligenciada. Além disso, as negociações e a formalização dos acordos por parte do governo federal sofreram um atraso injustificável e intencional, impactando diretamente a aquisição das vacinas e o cronograma de imunização da população brasileira", afirma o relatório conclusivo da CPI.

A comissão parlamentar também recomendou o indiciamento de 68 indivíduos, entre eles o ex-presidente Jair Bolsonaro e os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga. No entanto, a solicitação foi arquivada em julho de 2022, por iniciativa do então procurador-geral da República, Augusto Aras.

No ano anterior, contudo, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a instauração de um inquérito na Polícia Federal para investigar as alegações apresentadas pela CPI.

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - repórter da Agência Brasil

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