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Terça-feira, 26 de Maio 2026
Saúde

Fiocruz revela panorama da saúde de idosos no Brasil com pesquisa inédita

Estudo longitudinal Elsi-Brasil detalha desafios como medo de quedas em áreas urbanas, insegurança e prevalência de hipertensão.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Fiocruz revela panorama da saúde de idosos no Brasil com pesquisa inédita
© Marcello Casal JrAgência Brasil
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A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgou nesta terça-feira (26) os resultados da terceira fase do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil). Considerada a mais completa investigação nacional sobre o envelhecimento no país, a pesquisa lança uma plataforma online com cerca de 100 indicadores sobre a saúde de pessoas com 60 anos ou mais, abordando desde condições de vida e funcionalidade até aspectos sociais e acesso a políticas públicas.

Os dados apontam que fatores urbanos, sociais e estruturais impactam significativamente a qualidade de vida da população idosa, indicando que o envelhecimento no Brasil transcende a mera ausência de doenças. Um dos aspectos destacados é a percepção do ambiente urbano: 42,7% dos idosos em áreas urbanas expressam receio de cair devido a imperfeições em calçadas ou vias próximas às suas residências. Essa estatística evidencia um problema estrutural que compromete a mobilidade, a autonomia e a participação social dos idosos.

A incidência desse medo é maior entre as mulheres idosas, atingindo 50,5%, comparado a 31,9% entre os homens. A preocupação também se intensifica com a idade, registrando 35,2% entre 60 e 69 anos, 47,1% entre 70 e 79 anos, e 63,1% para aqueles com 80 anos ou mais.

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“Esses resultados sublinham a necessidade urgente de políticas públicas focadas na adaptação das cidades para uma população que envelhece cada vez mais. Isso inclui aprimorar a acessibilidade, a segurança viária, a mobilidade e o planejamento urbano inclusivo”, comentou a coordenadora do Elsi-Brasil, pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa.

Insegurança urbana

A pesquisa também identificou que 12,1% dos idosos brasileiros percebem suas vizinhanças como muito inseguras devido à violência e criminalidade, o que representa aproximadamente 3,8 milhões de pessoas vivendo em ambientes de medo e vulnerabilidade social. Essa percepção é relativamente uniforme entre gêneros e faixas etárias, sugerindo que a violência urbana é um problema transversal com impacto direto na qualidade de vida e saúde mental dessa população.

Hipertensão arterial

A hipertensão arterial sistêmica permanece como uma condição de saúde primordial entre os idosos. A pesquisa, que realizou medições domiciliares da pressão arterial, revelou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão (pressão de 14 por 9 ou superior). Este dado corresponde a cerca de 11 milhões de idosos que necessitam de acompanhamento clínico e tratamento para evitar complicações graves como infarto, AVC, insuficiência renal e demência vascular.

A prevalência da hipertensão aumenta com a idade, passando de 31,9% entre 60 e 69 anos para 40,1% entre indivíduos com 80 anos ou mais. Não foram observadas diferenças significativas entre homens e mulheres, reforçando o caráter generalizado da condição. Dada a natureza frequentemente assintomática da hipertensão, os pesquisadores enfatizam a importância do rastreamento regular e do fortalecimento da atenção primária para prevenir subdiagnóstico e complicações.

Perda de funcionalidade

A perda da capacidade funcional emergiu como outro ponto central do estudo, com 20,4% dos idosos brasileiros relatando dificuldades em realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como vestir-se, tomar banho ou alimentar-se.

Segundo a pesquisadora, isso significa que aproximadamente 6,5 milhões de pessoas convivem com alguma limitação funcional, afetando sua autonomia, suas famílias, cuidadores e os sistemas de saúde e assistência social.

Maria Fernanda Lima-Costa observou que a diferença de gênero se manifesta novamente: 23,1% das mulheres apresentam limitações funcionais, contra 17% dos homens. A progressão por idade é ainda mais acentuada, com a prevalência subindo de 13,9% entre 60 a 69 anos para 44,2% entre aqueles com 80 anos ou mais.

Fragilidades na rede de apoio

Os dados também expõem fragilidades na rede de apoio. Dentre os idosos com dificuldades em atividades diárias, apenas 37,9% recebem auxílio, com essa proporção aumentando com a idade (de 24,1% para 38,1% e 55,4% nas faixas etárias de 60-69, 70-79 e 80 anos ou mais, respectivamente).

A falta de treinamento para cuidadores é outro ponto crítico: apenas 5,8% relataram ter recebido algum tipo de capacitação, indicando a carência de políticas estruturadas para a formação e o suporte de cuidadores familiares ou informais. Este cenário aponta para a necessidade urgente de políticas integradas de cuidado de longa duração, apoio domiciliar e qualificação profissional.

Os resultados reiteram o papel fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) como principal provedor de cuidados para idosos no Brasil, sendo a única fonte de atenção à saúde para cerca de dois terços dessa população. A cobertura do SUS é similar entre homens e mulheres e sofre apenas uma leve redução nas faixas etárias mais avançadas.

A Estratégia Saúde da Família (ESF), componente chave da atenção primária do SUS, também se destaca, com 69,2% dos idosos brasileiros vinculados a essa iniciativa, o que representa aproximadamente 22,2 milhões de pessoas.

“Os dados reforçam a evidência de que o SUS e a ESF são estruturas essenciais para a promoção do envelhecimento saudável, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais e econômicas”, destacou a coordenadora do Elsi-Brasil.

Painel interativo

O painel de indicadores sobre envelhecimento, acessível na plataforma do Elsi-Brasil e lançado juntamente com os resultados da terceira onda, oferece acesso público ampliado a informações sobre múltiplas dimensões do envelhecimento no país. A ferramenta visa auxiliar pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde e a sociedade civil no monitoramento contínuo das condições de vida e das necessidades da população idosa brasileira.

Em consonância com a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) da Organização das Nações Unidas (ONU), o painel adota uma perspectiva abrangente, que vai além da ausência de doenças e inclui autonomia, capacidade funcional, segurança e condições ambientais como pilares essenciais para o bem-estar na terceira idade. A plataforma é considerada um instrumento crucial para enfrentar, de forma rápida e integrada, os desafios impostos pelo envelhecimento populacional no Brasil.

O Elsi-Brasil realizou sua primeira pesquisa em 2015-2016, seguida pela segunda em 2019-2021, e a mais recente em 2023-2024. Com metodologia harmonizada internacionalmente, o estudo se insere entre as principais pesquisas globais sobre envelhecimento, consolidando o Brasil como referência na produção de conhecimento científico sobre o tema.

FONTE/CRÉDITOS: Agência Brasil

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