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Sábado, 06 de Junho 2026
Saúde

Fatores sociais influenciam consumo de ultraprocessados por famílias, aponta pesquisa

Embora 84% dos entrevistados demonstrem grande preocupação com a saúde alimentar de suas famílias, em metade dos lares os ultraprocessados já fazem parte do lanche das crianças.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Fatores sociais influenciam consumo de ultraprocessados por famílias, aponta pesquisa
© Agência Brasil
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Um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado nesta terça-feira (31), aponta que a sobrecarga das mães, o custo acessível e até mesmo laços afetivos são elementos sociais que contribuem para a ingestão de alimentos ultraprocessados por crianças em áreas urbanas de diversas cidades brasileiras.

A pesquisa ouviu aproximadamente 600 famílias residentes em três comunidades urbanas do Brasil: Guamá, em Belém (PA); Ibura, em Recife (PE); e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ).

Apesar de uma expressiva maioria, 84% dos participantes, declarar-se bastante preocupada em proporcionar uma dieta saudável aos seus familiares, constatou-se que em 50% dos domicílios os ultraprocessados eram presença constante nos lanches infantis. Adicionalmente, em 25% das casas, esses itens já faziam parte do café da manhã.

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Entre os ultraprocessados mais consumidos e encontrados nos lares, destacam-se iogurtes saborizados, embutidos, biscoitos recheados, refrigerantes e macarrão instantâneo.

O que são ultraprocessados?

Ultraprocessados são alimentos desenvolvidos industrialmente, que combinam ingredientes naturais com uma variedade de aditivos químicos, como corantes, aromatizantes e emulsificantes. Essa formulação possibilita a produção de itens com baixo custo, extensa validade e paladares marcantes, que tendem a criar dependência gustativa.

Pesquisas científicas demonstram que a ingestão desses produtos eleva a probabilidade de desenvolver enfermidades como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, depressão e certos tipos de câncer.

Sobrecarga materna

Entre os núcleos familiares participantes do estudo, 87% das mães eram as encarregadas de adquirir e servir os alimentos às crianças, e 82% delas também se responsabilizavam pelo preparo.

Em contraste, no grupo dos pais, somente 40% realizavam a compra de alimentos, 27% se dedicavam ao cozimento e 31% ofereciam as refeições aos filhos.

Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, enfatiza a desproporcional carga de trabalho que recai sobre as mulheres no que tange à alimentação familiar.

“Muitas mães executam essas tarefas sozinhas, além de terem jornadas de trabalho externas. Essa sobrecarga intensifica a atratividade da praticidade oferecida pelos alimentos ultraprocessados”, comenta a especialista.

Desconhecimento

A pesquisa também evidencia a falta de informação acerca dos ultraprocessados. Uma parcela considerável dos entrevistados classificou erroneamente como saudáveis diversos produtos dessa categoria, como iogurtes com sabor e nuggets de frango preparados na airfryer.

Ainda que a nova rotulagem frontal dos produtos, com seus alertas sobre altas concentrações de sódio, açúcar e gorduras saturadas, tenha sido implementada, ela não atinge sua eficácia plena: 26% dos participantes admitiram desconhecer o significado desses avisos.

Adicionalmente, 55% dos entrevistados nunca verificam os alertas de alto teor nos rótulos, e 62% confessam que nunca desistiram de comprar um item em função dessas informações.

Preço baixo

A percepção de custo também desempenha um papel na decisão de consumo. A maior parte das famílias (67%) julga sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes como produtos de baixo valor.

Em contrapartida, legumes e verduras são tidos como caros por 68% dessas famílias, percentual que se eleva para 76% quando se trata de frutas e alcança 94% para carnes.

Os pesquisadores conduziram também entrevistas aprofundadas com certas famílias, revelando a existência de um componente afetivo no consumo.

“Muitas dessas pessoas, na infância, não possuíam recursos para adquirir os alimentos que desejavam. Atualmente, sentem satisfação em poder comprar o que seus filhos querem comer. Assim, ultraprocessados, especialmente aqueles com personagens e ilustrações, são associados a uma ideia de infância feliz”, detalha Stephanie Amaral.

A representante do Unicef também salienta a dificuldade em moderar o consumo de ultraprocessados, visto que seus impactos negativos na saúde são progressivos e não instantâneos. Contudo, ela defende que as instituições de ensino podem ter um papel crucial:

“As famílias demonstram grande confiança na alimentação oferecida nas escolas, o que evidencia a relevância dessas instituições não apenas em fornecer refeições saudáveis, mas também em disseminar esses hábitos para os lares”, conclui.

Recomendações do estudo

Fortalecer a regulamentação de ultraprocessados: Intensificar a fiscalização da publicidade direcionada a crianças, implementar impostos sobre esses produtos e incentivar a criação de ambientes escolares que promovam a saúde, visando diminuir a exposição e o consumo desses itens.

Expandir creches e escolas de período integral: Aumentar a oferta de educação infantil e estender a jornada escolar fortalece o suporte às famílias, alivia a sobrecarga, principalmente das mulheres, e colabora para a proteção e o fomento de práticas saudáveis.

Intensificar a orientação nutricional nos serviços de saúde: Expandir o aconselhamento sobre alimentação, iniciando ainda na gestação, para disseminar informações precisas, prevenir a introdução precoce de ultraprocessados e estimular a adoção de hábitos alimentares benéficos desde o nascimento.

Apoiar iniciativas e lideranças locais: Fortalecer projetos comunitários — como hortas urbanas, feiras de produtores, atividades físicas e redes de apoio — facilita o acesso a alimentos nutritivos e estimula a prática de exercícios nos bairros.

Melhorar a compreensão e o uso da rotulagem frontal: Desenvolver campanhas e ações educativas que esclareçam, de maneira didática, o propósito e a aplicação da rotulagem no cotidiano, além de monitorar a eficácia da rotulagem frontal, considerando seus parâmetros nutricionais e o formato dos avisos.

Investir em comunicação para a mudança de comportamento: Implementar estratégias de comunicação que levem em conta a realidade das famílias, empregando uma linguagem acessível e abordando questões práticas, como a identificação de produtos “falsamente saudáveis” e aprimoramento das técnicas de preparo.

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil

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