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Segunda-feira, 03 de Agosto 2026
Ciência e Tecnologia

Dieta rica em açúcar pode agravar a asma já no curto prazo

Em estudo com camundongos, o alto consumo de leite condensado induziu uma resposta inflamatória rápida na gordura abdominal que se estendeu aos pulmões

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Dieta rica em açúcar pode agravar a asma já no curto prazo
"O açúcar não é apenas uma caloria vazia, é um agente inflamatório ativo", diz o pesquisador Mateus Casaro (Imagem de fabrikasimf/Magnific)
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Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – O consumo de açúcar está associado a uma maior incidência de cáries, ao ganho de peso e, no longo prazo, pode contribuir para o surgimento de resistência à insulina ou diabetes. Mas, para quem sofre de asma, o impacto pode ser ainda maior. Estudo com camundongos publicado na revista Nutrients mostrou que a ingestão de altas doses de açúcar piora severamente a inflamação pulmonar em curto prazo, agravando o risco de crises alérgicas.

No trabalho, financiado pela FAPESP, os camundongos receberam a quantidade regular de ração e, além disso, tiveram o consumo de leite condensado liberado. Em apenas duas semanas – período que em humanos equivaleria a aproximadamente dois anos – os efeitos negativos já começaram a surgir nos animais.

De acordo com os autores, este é o primeiro estudo com um modelo experimental de asma a mostrar a rapidez com que o açúcar pode agravar quadros inflamatórios.

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“Quando uma criança consome muito açúcar, pensamos em consequências como cárie ou obesidade. Mas raramente consideramos que, em um período tão curto, uma alergia preexistente possa ser agravada. Os resultados, portanto, têm um impacto importante tanto na prática clínica quanto na formulação de políticas públicas”, comenta Caroline Marcantonio Ferreira, professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC (UFABC), que coordenou o estudo enquanto ainda trabalhava na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Na avaliação da cientista, o achado reforça a necessidade de iniciativas voltadas à redução do açúcar, especialmente entre populações vulneráveis, como crianças e pessoas com doenças respiratórias crônicas.

Fator de risco

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que afeta aproximadamente 300 milhões de pessoas em todo o mundo e cuja prevalência tem aumentado nas últimas décadas. A doença é caracterizada por uma série de alterações no sistema respiratório decorrentes da resposta inflamatória.

Nos pulmões, ocorre o aumento da espessura dos brônquios – os tubos que conduzem o ar até o órgão. Além desse estreitamento, há um incremento na produção de muco, que se acumula e dificulta ainda mais a respiração.

De forma sistêmica, o organismo ativa uma resposta imunológica típica de casos de alergia, com liberação de moléculas pró-inflamatórias (por exemplo, as citocinas IL‑4, IL‑33 e TNF‑α) e produção de anticorpos específicos (imunoglobulina E). Todo esse processo causa sintomas como dificuldade para respirar, chiado no peito e tosse persistente.

Com base nos achados do artigo, os autores alertam que pessoas com asma devem controlar a ingestão de açúcar assim como controlam no ambiente a presença de mofo, poeira e poluição – outros fatores que sabidamente podem desencadear crises asmáticas.

“O açúcar não é apenas uma caloria vazia, é um agente inflamatório ativo, capaz de alterar o equilíbrio imunológico muito antes de qualquer ganho de peso visível. E é preciso lembrar que a adequação da dieta é uma estratégia barata, acessível e extremamente eficiente, que deve ser implementada com o tratamento medicamentoso de pacientes com asma”, afirma Mateus Casaro, bolsista de doutorado da FAPESP no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Unifesp e coautor do estudo.

A origem da inflamação

Por meio dos experimentos realizados com camundongos, os pesquisadores demonstraram que o açúcar causa uma inflamação sistêmica que começa na gordura armazenada no abdômen, envolvendo órgãos vitais como fígado, pâncreas e intestinos. Esse tecido adiposo visceral passa a produzir substâncias inflamatórias (como o hormônio leptina e as citocinas), que viajam pelo corpo e intensificam a resposta alérgica nos pulmões. As análises também indicam que células de defesa em estado inflamatório (macrófagos do tipo M1) podem migrar da gordura abdominal para os pulmões.

“Essa é a principal hipótese para explicar por que o açúcar piora a inflamação da asma. Observamos que o açúcar provoca inflamação no tecido adiposo mesmo em animais que não têm asma. Nos que consomem açúcar, mas não são alérgicos, o pulmão permanece normal, mas a gordura fica inflamada. Isso sugere que o processo começa na gordura e que substâncias liberadas ali acabam migrando para o pulmão, onde intensificam uma resposta alérgica já existente”, explica Ferreira.

Embora o estudo tenha sido realizado especificamente com um modelo experimental de asma, diz a pesquisadora, é bem provável que o alto consumo de açúcar também agrave inflamações preexistentes em outros órgãos. “Realizamos um estudo parecido sobre dermatite. Os resultados também mostraram uma exacerbação da inflamação na pele, em um curto período”, afirma.

Como ressaltam os pesquisadores, a dieta rica em açúcar sozinha não é capaz de causar asma, mas atua como um potente amplificador da inflamação. “Nenhum animal sem asma induzida apresentou a doença após consumir grandes quantidades de leite condensado. Já nos animais que possuíam a sensibilidade alérgica, o açúcar aumentou drasticamente o muco nas vias aéreas e o recrutamento de células inflamatórias”, comenta Ferreira.

O artigo A short-term high-sugar diet induces glucose intolerance, visceral adipose tissue inflammation, and exacerbates experimental allergic asthma pode ser lido em: www.mdpi.com/2072-6643/18/9/1475.
 

FONTE/CRÉDITOS: Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

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