André Julião | Agência FAPESP – A dispersão de sementes por meio do vento, da água ou de animais é um processo crucial para a renovação de florestas e a preservação da biodiversidade. No caso da Mata Atlântica, um novo estudo mostrou que a quantidade de floresta na paisagem ao redor de uma área e o volume de chuvas são os principais fatores para garantir a riqueza e a diversidade dessas sementes. Na prática, a pesquisa revelou que um pequeno pedaço de mata que possui outras áreas verdes na vizinhança tem mais capacidade de se regenerar do que um fragmento enorme, porém totalmente isolado no meio do desmatamento.
Os autores avaliaram esse processo de dispersão – conhecido como “chuva de sementes” – em 52 fragmentos de Mata Atlântica distribuídos por toda a extensão do bioma, do Nordeste ao Sul do Brasil. Os resultados foram publicados em maio no Journal of Ecology.
Os fragmentos incluíam desde áreas pequenas, com cerca de 4 hectares, até outras bastante extensas, com milhares de hectares contínuos (um hectare tem 10 mil metros quadrados; aproximadamente a área de um campo de futebol). O número de espécies de sementes – ou seja, a riqueza – aumentou conforme cresciam a cobertura florestal e a precipitação, independentemente do tamanho dos fragmentos.
“A cobertura florestal se mostrou uma métrica-chave para avaliar a composição da paisagem, ou seja, a quantidade de hábitat. É ela que mais influencia os parâmetros da chuva de sementes em florestas tropicais”, explica Luís Felipe Daibes, primeiro autor do estudo. A investigação foi realizada com apoio da FAPESP durante seu pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro.
Segundo o pesquisador, ao compreender os padrões da chuva de sementes na paisagem, é possível direcionar melhor as estratégias de conservação, priorizando ecossistemas mais conectados. Além disso, os resultados permitem melhorar a capacidade de prever como as comunidades de espécies podem funcionar diante de cenários como a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas.
Áreas remanescentes
Atualmente, restam entre 23% e 24% da cobertura original da Mata Atlântica, a maior parte dela distribuída em fragmentos florestais pequenos e isolados entre si. O trabalho conseguiu mostrar que a contribuição desses fragmentos para a biodiversidade é maior à medida que aumenta a cobertura florestal em torno deles e a precipitação, não necessariamente o tamanho do fragmento.
“O curioso é que áreas muito fragmentadas podem até produzir uma quantidade maior de sementes. No entanto, essas paisagens tendem a ser dominadas por algumas poucas espécies generalistas [altamente adaptáveis e pouco exigentes] com muitas sementes pequenas”, conta Daibes, que realizou parte do trabalho durante estágio com bolsa FAPESP na universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos, e atualmente é pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
O estudo contou também com apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático. A Fundação concedeu ainda uma série de auxílios a partir dos anos 2000 que permitiram a realização dos trabalhos que produziram os dados necessários para o estudo.
As informações foram extraídas de diversos trabalhos acadêmicos realizados entre 1987 e 2021, em diversos pontos do bioma, numa colaboração que contou com mais de 60 autores de diferentes instituições.
O estudo compilou e analisou um banco de dados de 1.905 recipientes coletores de sementes em 52 fragmentos de Mata Atlântica. No total, foram amostrados 1,3 milhão de sementes, com 1.029 grupos de plantas identificados pelo menos quanto à família botânica a que pertencem.
Os coletores são como peneiras ou redes de malha suspensas no chão da floresta ou amarradas em galhos, com diâmetro entre 20 centímetros e um metro, que acumulam folhas, frutos e sementes. Eles permitem verificar a quantidade e a diversidade de espécies de sementes que são dispersadas num determinado local.

Pesquisa compilou dados de coletores de sementes de 52 fragmentos de Mata Atlântica pelo Brasil (foto: Luis Felipe Daibes/Jardim Botânico do Rio de Janeiro)
Por conta das dificuldades logísticas, estudos desse tipo são geralmente realizados em apenas um local, normalmente por um ano. Coletores de sementes são postos no chamado sub-bosque, abaixo da copa das árvores, e a cada mês os pesquisadores coletam essas sementes e as identificam.
“Nunca havia sido feito um trabalho tomando toda a dimensão do bioma, do Nordeste ao Sul do país. Isso dá bastante robustez aos nossos resultados”, afirma o pesquisador.
Dispersão por animais
As sementes podem ser dispersadas por animais (zoocóricas), pelo vento, rios ou simplesmente caindo no chão. Os pesquisadores confirmaram que áreas com maior pluviosidade possuem mais sementes zoocóricas. Estas são provenientes de árvores que produzem frutos suculentos que atraem aves e mamíferos, que por sua vez podem dispersá-las longe da árvore-mãe, inclusive para outros fragmentos de floresta.
Uma das consequências do desmatamento é justamente a perda de espécies com sementes grandes, uma vez que animais de grande porte que comem frutos são os primeiros a serem extintos localmente pela perda de hábitat (leia mais em: agencia.fapesp.br/58565).
No estudo, verificou-se pela chuva de sementes que fragmentos com baixa cobertura florestal, principalmente em locais mais secos, tendem a ter a dominância de um conjunto limitado de espécies pioneiras.
“As espécies pioneiras, de crescimento rápido e que não necessariamente dependem da fauna para se dispersar, são importantes na regeneração da floresta, dando sombra para espécies de crescimento lento. No entanto, apenas com elas não se constrói um ecossistema funcional”, destaca Daibes.
Em muitas áreas, o histórico de desmatamento e fragmentação alterou o padrão da chuva de sementes. Fragmentos dominados por poucas espécies generalistas e cercados de monocultura, como a cana-de-açúcar, são comuns. Esses trechos isolados não recebem sementes de outros fragmentos nem podem fornecê-las, uma vez que não há para onde dispersá-las além da própria área.
“Se só for possível conservar um fragmento numa área agrícola, é importante que a região tenha alguma cobertura florestal no entorno. Se houver vários outros fragmentos num raio de cinco quilômetros com mais de 60% de cobertura florestal, há mais chances de haver sementes trocadas entre eles, mantendo a diversidade”, exemplifica o pesquisador.
Nesse contexto, completa, a escolha de áreas de reserva legal nas propriedades rurais e áreas públicas de conservação poderia priorizar trechos com maior cobertura florestal e que tenham áreas adjacentes que possam se conectar entre si.
O artigo Landscape features predict broad-scale seed rain patterns across fragments of the Brazilian Atlantic Forest pode ser lido em: https://besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2745.70328.

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