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Quinta-feira, 23 de Abril 2026
Ciência e Tecnologia

Descrito segundo ácaro parasita de aranhas do Brasil

Encontrado na coleção do Instituto Butantan parasitando aracnídeos juvenis, larvas do Araneothrombium brasiliensis foram coletadas no Estado do Rio de Janeiro e pertencem a gênero que só tinha uma espécie conhecida até então, na Costa Rica

Talia Santana
Por Talia Santana
Descrito segundo ácaro parasita de aranhas do Brasil
Araneothrombium brasiliensis fixada a aranha da família Sparassidae (foto: Ricardo Bassini-Silva/Instituto Butantan)
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André Julião | Agência FAPESP – Quando pesquisadores em aranhas e escorpiões do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan se depararam com uma aranha medindo alguns milímetros, mas portando algo parecido a um colar de pérolas, foram bater na porta de um colega, vizinho de prédio, especialista em outros aracnídeos: os ácaros.

Pesquisador e curador da Coleção Acarológica do mesmo laboratório, Ricardo Bassini-Silva logo identificou que o “colar”, na verdade, eram larvas de ácaros. Antes, só havia um registro de ácaros parasitas de aranhas no Brasil e, mesmo assim, de outra família.

O exame das características morfológicas do animal, que contou com técnicas de microscopia, de varredura e de luz, resultou na descrição do segundo ácaro parasita de aranhas do Brasil, o primeiro dessa família no país.

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O trabalho, apoiado pela FAPESP, foi publicado no International Journal of Acarology.

O estudo integra dois projetos apoiados pela FAPESP. Um deles coordenado por Bassini-Silva e outro por Fernando de Castro Jacinavicius, coautor do artigo e professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

O Araneothrombium brasiliensis, como foi batizado, pertence a um gênero descrito apenas em 2017, na Costa Rica. A descoberta no Brasil abre a possibilidade de o gênero estar presente em mais países neotropicais.

Os indivíduos têm cerca de 500 micrômetros, ou meio milímetro. As aranhas parasitadas têm alguns milímetros. Por enquanto, só se conhecem as larvas, que foram encontradas parasitando três famílias distintas de aranhas juvenis. Todos os exemplares estavam ingurgitados, ou seja, alimentados a ponto de aumentarem em muito o próprio tamanho.

“Para este grupo de ácaros, não é incomum conhecermos muitas espécies parasitas apenas pelas larvas, uma vez que na vida adulta elas passam a ser predadores de vida livre, vivendo no solo e se alimentando de pequenos insetos e mesmo de outros ácaros, o que torna muito difícil encontrá-los”, conta Bassini-Silva.

As aranhas que os ácaros da nova espécie estavam parasitando foram coletadas no município de Pinheiral, no Estado do Rio de Janeiro. O ambiente era próximo de cavernas e grutas, semelhante ao da primeira espécie brasileira de ácaro parasita de aranhas, a Charletonia rocciai.

Em um trabalho publicado em 2022, os pesquisadores redescreveram a espécie, primeiramente descrita em 1979, adicionando novas características morfológicas, dados biológicos, locais de ocorrência e hospedeiros, incluindo aranhas.


Nova espécie Araneothrombium brasiliensis fixada a aranhas das famílias Araneidae (esquerda) e Salticidae (direita) (imagens: Ricardo Bassini-Silva)

Colar de pérolas

Os ácaros de aranhas se alimentam da linfa, um líquido que circula pelo corpo de alguns artrópodes. Os parasitas sugam o fluido pelo pedicelo, a região entre o cefalotórax (onde ficam os olhos e a boca da aranha) e o abdômen.

“Esta é a região mais vulnerável da aranha, uma vez que outras partes têm bastante quitina, que forma um exoesqueleto difícil de ser penetrado pelas presas dos ácaros”, explica o pesquisador.

O fato de estarem em aranhas juvenis pode indicar um comportamento oportunista, considerando que os indivíduos jovens podem estar mais vulneráveis a parasitas e predadores. Além disso, em tese, a espécie poderia parasitar outros artrópodes, como insetos. É o caso da Charletonia rocciai, que parasita pelo menos duas ordens de insetos.

“Com mais de 3 mil espécies apenas de aranhas, o Brasil tem imenso potencial de descoberta de novos ácaros parasitas”, avalia Bassini-Silva.

O trabalho demonstra ainda a importância das coleções zoológicas para o estudo da biodiversidade. As aranhas estavam guardadas há anos e não se tinha visto até então que tinham ácaros.

Com parcerias com pesquisadores e empresas de consultoria ambiental que vão a campo, o pesquisador espera receber em breve mais ácaros associados a outros animais e descrever novas espécies no futuro.

O artigo First species description of Araneothrombium Mąkol, Felska and Król, 2017 (Trombidiformes: Microtrombidiidae) parasitizing spiders in Brazil pode ser lido em: tandfonline.com/doi/full/10.1080/01647954.2025.2566344.
 

 

 
 
 
 

 

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FONTE/CRÉDITOS: André Julião | Agência FAPESP

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