Um grupo de pesquisadores da USP, liderado pela professora Suzana Chwarts, está explorando a figura da mulher e o feminino nas Bíblias hebraica, cristã e na Cabala. O objetivo é fazer uma análise literária dos textos bíblicos, distantes da interpretação religiosa tradicional, tratando-os como obras narrativas que foram moldadas ao longo dos séculos.
A professora ressalta que esse estudo não busca desrespeitar os textos sagrados. Pelo contrário, utiliza a crítica literária para investigar aspectos narrativos, personagens, simbolismos e contextos:
"Queremos aplicar critérios científicos, como o questionamento aberto, para construir um comentário crítico e interdisciplinar sobre as escrituras", afirma Suzana.
A diversidade na Bíblia hebraica
A Bíblia hebraica, chamada de Antigo Testamento no cristianismo, é formada por textos que foram editados ao longo de pelo menos nove séculos.
Esses escritos abarcam narrativas orais, leis, poemas e fábulas, refletindo diferentes perspectivas e estilos de escrita. Suzana destaca a riqueza interna da obra, onde livros como Deuteronômio, Êxodo e Levítico oferecem pontos de vista variados.
A crítica literária também leva em consideração as traduções do texto bíblico. A mais antiga delas, a Septuaginta, traduzida para o grego no século III a.E.C., ajudou a tornar a Bíblia um patrimônio cultural da humanidade, mas também trouxe desafios linguísticos e culturais.
Bíblia de estudo qual a melhor?
Bíblia de estudo qual a melhor?
Para análise de textos essenciais você pode utilizar qualquer bíblia para estudar as escrituras sagradas. No estudo de Suzana Chwarts nas escrituras bíblicas, ela estudou como o feminino frequentemente se associa à sexualidade e à família.
A professora explica que, em obras como o Cântico dos Cânticos, prevalecem interpretações teológicas que transformam um poema erótico em uma alegoria espiritual:
"A sexualidade feminina na Bíblia é um tema delicado, mas é essencial compreendê-lo para desafiar narrativas patriarcais e explorar outras visões, como as das matriarcas."
O grupo também investiga a simbologia dos adornos femininos na Bíblia. Em algumas passagens, eles celebram a noiva; em outras, há críticas, como as feitas pelo profeta Isaías.
Esses elementos, embora simples, ajudam a entender como as escrituras refletem e influenciam a visão de mundo.
Outro foco do grupo é a representação do feminino agora no estudo da Cabala, que faz uma interpretação mística da Torá. Suzana aponta que, na tradição cabalística, cada letra tem um significado divino. Para essa análise, os pesquisadores utilizam o Zohar, um texto essencial da Cabala escrito em aramaico no século XIII.
Abordagem interdisciplinar e novas perspectivas
Para enriquecer suas pesquisas, o grupo da USP conta com integrantes de diversas áreas e colaborações internacionais.
Os pesquisadores analisam as escrituras a partir do texto hebraico original e de traduções, como os Manuscritos do Mar Morto e versões modernas.
Os temas de estudo são variados. O mestrando André Kanasiro, por exemplo, está investigando a caracterização de YHWH (Deus) na narrativa de Balaão, enquanto Daniela Segre explora o feminino na exegese judaica.
Outras pesquisas abordam questões como as leis de divórcio e a representação da filha na literatura bíblica.
Suzana argumenta que entender as escrituras como um produto oriental, e não apenas ocidental, é fundamental para respeitar sua linguagem e contexto original.
O objetivo do grupo é criar um comentário crítico que resgate a pluralidade e as ambiguidades dos textos, permitindo que eles “falem por si mesmos”.
Com o apoio do Centro de Estudos Judaicos da USP e do Programa de Pós-Graduação em Letras da FFLCH, o projeto busca novas interpretações e ressignificações, promovendo uma visão contemporânea sobre esses textos milenares.
Fonte: jornal.usp.br/ciencias/grupo-da-usp-estuda-a-mulher-e-o-feminino-nas-biblias-hebraica-crista-e-na-cabala/