O objeto escolhido para esta semana na websérie “A peça da Semana” é o livro intitulado El Licenciado, publicado em 1888 pelo escritor espanhol Ramón Campoamor (1817-1901). A partir desta segunda-feira, dia 10, poderão ser conferidas várias fotos no perfil do Instagram do Museu Mariano Procópio da obra que conta com a tradução do Imperador brasileiro D. Pedro II.
O livro faz parte da seção de obras especiais da Biblioteca do Museu e teve um grande sucesso no final do século XIX e início do XX. O historiador Sérgio Vicente revela que eles optaram por lançar o foco sobre o exemplar devido à sua importância, “tendo em vista as marcas de proveniência que o individualizam e contribuem para conectar as trajetórias de vida a vários personagens históricos”.
O historiador revela ainda que o livro em questão tem pequenas dimensões e encontra-se encadernado com capa dura, embora esteja desfalcado em algumas dezenas de folhas. Possui, no entanto, uma minúscula etiqueta que comprova o seu pertencimento à coleção do fundador da instituição, Alfredo Ferreira Lage. A obra conta, ainda, com muitas anotações e, dentre elas uma assinada por Eduardo de Menezes, em 3 de novembro de 1917, afirmando que as anotações a lápis, que podem ser vistas entre as linhas de texto, são de traduções feitas pelo Imperador brasileiro D. Pedro II.
A obra acompanhou o Imperador enquanto ele estava a bordo do navio Alagoas, durante a sua viagem de exílio para Europa após o golpe civil-militar que o tirou do poder em 15 de novembro de 1889. Concluída a tradução, o monarca doou o livro ao Conde de Motta Maia, médico de sua confiança, que o acompanhou durante toda a viagem. Tempos depois, o exemplar chegou às mãos de Eduardo de Menezes, um parente de Motta Maia que se incumbiu de conservar a volume para a posteridade.
Como é sabido, o Imperador D. Pedro II se dedicou desde cedo à leitura e aos estudos dos idiomas, como o grego, latim, inglês, francês, italiano, provençal, alemão, hebraico, sânscrito e tupi-guarani. Como parte de sua rotina diária, costumava traduzir várias obras clássicas - o que continuou fazendo mesmo já idoso em sua viagem de exílio. Sérgio Vicente conta que, nesse momento da vida, e já com problemas de vista, ele já precisava contar com a ajuda do Conde da Motta Maia para ler a obra em voz alta, e a partir daí é que ele ia ditando a tradução.
O historiador ressalta ainda que, em 1921, Alfredo Lage se destacava com a inauguração do Museu Mariano Procópio e “arrogava para si o papel de guardião da memória da monarquia brasileira em tempos de transição para o regime republicano”. A partir de então, ele foi reunindo diversos objetos relacionados à monarquia, inclusive, com a ajuda de amigos. O livro em questão, portanto, se mostra coerente com a prática colecionista do fundador do museu, que foi historicamente atrelada a um esforço coletivo de perpetuação da memória monárquica brasileira.
Interessados podem conferir o texto escrito pelo historiador Sérgio Vicente, integrante da equipe técnica do Museu, na revista Trama.
Foto: Livro "El Licenciado Torralba", com traduções a lápis feitas por D. Pedro II. Acervo da Biblioteca do Museu Mariano Procópio.
FONTE/CRÉDITOS: pjf