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Sábado, 06 de Junho 2026
Saúde

Pesquisa aponta dificuldades de autistas no Brasil para acessar diagnóstico e terapias

Apenas 15,5% dos autistas e seus responsáveis relatam realizar terapias via rede pública; mais de 60% utilizam planos de saúde ou pagam por conta própria.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Pesquisa aponta dificuldades de autistas no Brasil para acessar diagnóstico e terapias
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
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Um novo estudo, o Mapa Autismo Brasil (MAB), a primeira pesquisa nacional sobre o perfil sociodemográfico de pessoas autistas, divulgado nesta quinta-feira (9), indica que o acesso ao diagnóstico e a tratamentos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil ainda é restrito.

A pesquisa, realizada pelo Instituto Autismos, entrevistou autistas e seus cuidadores em todo o território nacional. O objetivo foi traçar um panorama do autista brasileiro e dos serviços de saúde aos quais ele tem acesso.

O levantamento contou com 23.632 entrevistas online, coletadas entre 29 de março e 20 de julho de 2025. Participaram da pesquisa 16.807 responsáveis por pessoas autistas, 4.604 adultos autistas e 2.221 indivíduos que se identificaram tanto como autistas quanto como responsáveis.

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Os resultados revelam que, embora aproximadamente 25% da população brasileira possua planos de saúde, somente 20,4% dos entrevistados confirmaram ter recebido o diagnóstico de TEA através do Sistema Único de Saúde (SUS).

O estudo também aponta que apenas 15,5% dos participantes realizam terapias por meio do sistema público de saúde. Em contrapartida, mais de 60% informaram utilizar planos de saúde privados ou arcar com os custos particulares para ter acesso a esses tratamentos.

O Instituto Autismos avalia que os desafios são ainda maiores.

“Os dados do Mapa Autismo Brasil também mostram que 56,5% dos entrevistados, considerando tanto usuários do SUS quanto da rede privada, relataram que a pessoa autista em questão (o próprio respondente ou alguém sob sua responsabilidade) recebe até duas horas semanais de terapia. Este número contrasta com as recomendações internacionais, que preconizam terapias multidisciplinares com uma carga horária semanal elevada.”

Análise do cenário

Em maio de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados inéditos do Censo Demográfico 2022, que identificaram 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil, representando 1,2% da população.

“Ao contrário do Censo, o Mapa Autismo Brasil foca na análise socioeconômica e no acesso a serviços para autistas e seus cuidadores. A pesquisa contribui para uma avaliação do cenário atual e destaca a necessidade de aprimoramento das políticas públicas”, ressaltou o Instituto Autismos.

Perfil do autista brasileiro

As 23.632 entrevistas realizadas permitiram a construção do seguinte perfil do autista no Brasil:

  • 60,8% se autodeclararam brancos, 32% pardos, 5,2% pretos, 1,1% amarelos e 0,25% indígenas.
  • 65,3% são homens e 34,2% são mulheres.
  • 72,1% estão na faixa etária de até 17 anos, enquanto 27,9% têm entre 18 e 76 anos.
  • 28,6% possuem renda familiar de até R$ 2.862; 37,9% ganham entre R$ 2.862 e R$ 9.540; e 20,33% recebem acima de R$ 9.540.
  • 53,7% apresentam nível 1 de suporte (o menor grau de necessidade de auxílio); 33,7% estão no nível 2; e 12,6% no nível 3 (que exige maior assistência diária).
  • Entre as comorbidades mais comuns estão: transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) em 51,5%, transtorno de ansiedade em 41,1%, transtornos do sono em 27,9%, distúrbios gastrointestinais em 23,2%, transtorno do desenvolvimento da linguagem em 19,3%, altas habilidades/superdotação em 19,1%, transtorno depressivo em 17,5%, deficiência intelectual em 16,4% e transtornos específicos da aprendizagem em 12,1%.
  • Quanto à comunicação, 55,5% expressam-se por meio de frases completas e extensas; 29,5% utilizam ecolalias (repetição de palavras e frases); 28,1% falam poucas palavras ou frases; 7,65% não falam e não utilizam comunicação aumentativa e alternativa (CAA) ou escrita; 4,15% falam pouco e recorrem à CAA; 3,51% não falam, mas utilizam CAA; e 0,59% empregam a língua brasileira de sinais (Libras).

Entre os respondentes que são responsáveis por pessoas autistas, 96% eram pais ou mães, sendo 92,4% mães.

No grupo de cuidadores, 55,2% possuem ensino superior completo ou pós-graduação. Contudo, 30,47% declararam não ter renda ou estarem desempregados. Uma parcela significativa está no mercado formal, especialmente como servidores públicos (21,9%) e empregados com carteira assinada (CLT) (16%), além de trabalhos informais e autônomos.

“A alta porcentagem de cuidadores fora do mercado de trabalho sugere que as responsabilidades de cuidado impactam diretamente suas carreiras profissionais, aumentando vulnerabilidades econômicas e a dependência de políticas de assistência social”, observou o Instituto Autismos.

Do total de entrevistados, 76,6% afirmaram utilizar algum tipo de benefício. A maioria, no entanto, está relacionada à identificação e acesso: 36,7% utilizam o cartão de identificação da pessoa com TEA, 30% se beneficiam do atendimento preferencial em serviços e 20,7% usam vagas de estacionamento reservadas para pessoas com deficiência.

Apenas 16,6% informaram ter acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), 12,9% utilizam passe livre para pessoas com deficiência e 7,7% obtiveram isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Dificuldades no diagnóstico

O Mapa Autismo Brasil evidencia os desafios no acesso ao diagnóstico de TEA pelo SUS, bem como os atrasos nesse processo, o que prejudica a implementação de intervenções precoces.

Os resultados indicam que a maioria dos diagnósticos ocorre na faixa etária de até 4 anos (51,7%), seguida pela faixa de 5 a 9 anos (17,1%) e de 10 a 14 anos (6,1%).

“A discrepância entre a mediana (4 anos) e a média (11 anos) demonstra que, apesar de a maioria dos diagnósticos ser realizada em idade precoce, ainda existe um número considerável de diagnósticos feitos em idades mais avançadas, o que eleva a média geral da amostra”, alertou o Instituto Autismos.

A pesquisa identificou que os primeiros sinais de TEA são geralmente notados por familiares próximos (55,9%) ou pela própria pessoa autista (11,4%). Médicos e professores, por outro lado, alertaram sobre esses sinais em apenas 7,3% e 9,4% dos casos, respectivamente.

O estudo também revelou que neurologistas ou neuropediatras foram os responsáveis pelo diagnóstico em 67% dos casos, seguidos por psiquiatras (22,9%). Para o Instituto Autismos, isso reforça a necessidade de acesso a especialistas, que nem sempre estão disponíveis nas redes públicas ou mesmo privadas em todas as regiões.

Os dados mostram que 55,2% dos diagnósticos foram realizados na rede particular, 23% por planos de saúde e apenas 20,4% pelo SUS. Essas proporções variam regionalmente, com uma dependência maior do SUS para diagnósticos nas regiões Norte e Nordeste.

Acesso a terapias

Entre as terapias mais frequentemente utilizadas, destacam-se a psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e terapia ABA (29,8%).

Em menor escala, foram relatadas fisioterapia (12,5%), nutrição (10,2%), musicoterapia (11,0%), psicomotricidade (15,0%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%).

Observou-se também que 16,4% dos participantes não realizam nenhum tipo de terapia.

Quando questionados sobre a rede de atendimento para terapias, 15,5% mencionaram o SUS, enquanto 35,3% informaram usar plano de saúde, 28,5% recorreram à rede particular e 7,93% utilizaram serviços de associações, como as APAEs (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Entre os usuários do SUS, apenas 33,8% realizam terapia ocupacional, em comparação com 64,5% dos usuários de planos de saúde. Usuários do SUS também relataram acesso significativamente menor a sessões de psicoterapia, fonoaudiologia, terapia comportamental ABA, psicomotricidade e musicoterapia quando comparados aos que utilizam planos de saúde.

Os resultados do MAB indicam que os gastos mensais com terapias concentram-se nas faixas de R$ 501 a R$ 1 mil (24,8%), de R$ 1.001 a R$ 3 mil (22,2%) e de R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Segundo os dados, 5,7% têm um investimento mensal de até R$ 100.

Entre os respondentes, 4,3% relataram despesas mensais superiores a R$ 5 mil e 4,2% não souberam informar o valor.

Considerando tanto os que utilizam a rede pública quanto a privada, a carga horária semanal de terapias, conforme avaliação do Instituto Autismos, é baixa. A maioria realiza uma hora (25,90%), nenhuma (18,13%) e duas horas (12,44%) semanais de terapia, enquanto apenas 1,54% alcança 40 horas ou mais.

“A concentração em poucas horas semanais sugere limitações de acesso, custo e disponibilidade de serviços, indicando que grande parte das pessoas autistas recebe suporte terapêutico aquém do ideal para necessidades mais intensivas”, destacou o instituto.

Educação e vida adulta

Os resultados também apresentam um panorama sobre o acesso à educação. Do total, 83,7% informaram frequentar uma instituição de ensino, sendo 52,26% em escolas públicas e 31% em estabelecimentos particulares, enquanto 16% declararam não frequentar nenhuma instituição.

Em relação a recursos de acessibilidade e inclusão, 39,9% relataram não receber qualquer tipo de apoio. Entre os suportes mais comuns estão: educador social, monitor ou tutor (23,8%), acompanhamento especializado, como mediador escolar ou acompanhante terapêutico (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).

“Os dados demonstram que a frequência escolar não garante, por si só, a inclusão efetiva. A alta proporção de estudantes sem apoios básicos sugere fragilidade na implementação das políticas de educação inclusiva e desigualdade no acesso aos recursos educacionais previstos em lei”, avaliou o Instituto Autismos.

Na faixa etária de 18 a 76 anos, 29,9% dos autistas respondentes afirmaram estar desempregados ou sem renda, o que, segundo o instituto, evidencia um desafio estrutural de inclusão no mercado de trabalho.

Entre aqueles que se declararam empregados, 21,1% atuam como servidores públicos, 20% possuem emprego formal com carteira assinada, 8,1% trabalham de forma autônoma, 6,7% atuam como pessoa jurídica e 5,9% exercem atividades sem carteira assinada.

Há ainda 4,1% que dependem de auxílio governamental, 3,5% que recebem aposentadoria ou pensão e 0,35% que integram a carreira militar.

FONTE/CRÉDITOS: Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil

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