Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Durante a campanha de vacinação contra a COVID-19 no Brasil, quando várias marcas de imunizantes estavam disponíveis e a vacina chinesa era a mais comum, um fenômeno inédito ocorreu. Não era raro ver pessoas cruzando bairros ou até cidades atrás de postos que aplicassem uma determinada marca de imunizante. Nas redes sociais, fotos com a “agulhada” eram publicadas e acompanhadas de hashtags orgulhosas do sistema de saúde nacional, como "Viva o SUS”, ou que ostentavam rótulos: “Foi Pfizer”, “Tomei AstraZeneca”, ou “Fui sortuda, peguei a Janssen”.
No México, país com histórico de baixa hesitação vacinal, o imunizante russo foi rejeitado. Na Índia e no Irã houve preferência por vacinas locais contra a COVID-19. Os norte-americanos também demonstraram clara preferência por vacinas nacionais, mesmo quando comparadas a formulações de países com padrões de qualidade semelhantes, como o Reino Unido e a Alemanha.
“Foi um fenômeno global. Pela primeira vez, foi demonstrada uma preocupação com a origem dos imunizantes. Antes da pandemia, ninguém nem sabia onde elas eram fabricadas. Inclusive não há nenhum relato ou estudo sobre o efeito do país de origem para imunizantes, um conceito já bem documentado no marketing e que se refere ao impacto que a origem de um produto tem nas decisões e avaliações dos consumidores”, afirma João Lucas Hana Frade, doutor em administração de organizações pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP-USP).
Frade realizou um estudo de revisão, apoiado pela FAPESP, que analisou 52 trabalhos publicados sobre o tema e que abrangeu a questão das vacinas em 48 países. “O curioso é que, depois da pandemia, o fenômeno também não foi mais reportado. Mesmo assim, é importante entender essas preferências para formular políticas públicas eficazes, investigando o papel de políticos, da mídia e de personalidades influentes no endosso das vacinas”, diz.
Um país ou um produto?
O efeito do país de origem costuma ser observado em produtos caros ou ligados a status, como vinhos e carros, por exemplo. Já as vacinas são itens geralmente gratuitos, produzidos para proteger toda a sociedade, não apenas quem as recebe.
“Quando o consumidor não tem conhecimento técnico suficiente para escolher um produto, ele opta por utilizar características do país de origem para inferir a qualidade do produto. Isso faz com que um carro alemão agrade, não exatamente pela potência do motor ou segurança, mas por corresponder aos padrões de qualidade e status dos produtos do país. Aparentemente, a forma como as vacinas foram divulgadas gerou inseguranças semelhantes, o que fez com que ocorresse o efeito do país de origem nas campanhas de vacinação”, explica Janaina de Moura Engracia Giraldi, professora da FEA-RP-USP e orientadora do estudo publicado na revista Management Review Quarterly.
Dessa forma, vacinas de países como Estados Unidos, Reino Unido, Rússia e China passaram a ser julgadas por sua procedência, alimentando preocupações sobre qualidade. “O fenômeno transcendeu a saúde pública, envolvendo também aspectos de marketing e psicologia, impulsionado pelo ativismo antivacina”, conta a professora.
No estudo, os pesquisadores identificaram padrões semelhantes em diferentes países, como a preferência por vacinas nacionais (desenvolvidas nos próprios países). “O viés nacional apareceu inclusive em países que não desenvolveram vacinas nos estágios iniciais da pandemia, como Brasil, Japão e Gana”, conta Frade. Houve também uma clara preferência por vacinas ocidentais – especialmente aquelas desenvolvidas na Alemanha, EUA e Reino Unido – em detrimento das opções russas ou chinesas. Isso foi observado em diversas regiões, incluindo Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia.
“Com a pandemia de COVID-19, a origem dos imunizantes se tornou um fator crucial para a aceitação das vacinas. Embora já houvesse estudos prévios sobre o efeito do país de origem em medicamentos, eles não previram a complexa relação entre o efeito do país de origem e a hesitação vacinal observada no contexto pandêmico”, diz o pesquisador.
Com os resultados, os pesquisadores defendem que o efeito do país de origem deve ser considerado em campanhas de vacinação de futuras pandemias. “Compreender o efeito do país de origem é essencial para comunicações de saúde eficazes. Além disso, as empresas produtoras de vacinas podem enfatizar ou minimizar estrategicamente seu país de origem, dependendo dos benefícios ou riscos percebidos associados a ele”, afirma Frade.
O artigo The country of origin effect on vaccination: a systematic literature review and research agenda pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11301-025-00508-6.
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