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Quarta-feira, 13 de Maio 2026
Economia

O uso do crédito e o consumo impulsionam o endividamento no Brasil

Especialistas alertam que a facilidade de parcelamento, aliada à ansiedade de consumo, tem levado muitos brasileiros a transformar o cartão e o cheque especial em armadilhas financeiras, elevando a inadimplência.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
O uso do crédito e o consumo impulsionam o endividamento no Brasil
© Joédson Alves/Agência Brasil
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O aumento do endividamento entre os brasileiros é impulsionado pelo uso indiscriminado do crédito para despesas cotidianas e pela crescente ansiedade de consumo. Em cenários rotineiros, como supermercados, postos de gasolina ou farmácias, a oferta de parcelamento sem juros tem levado muitos consumidores a optar pelo crédito a prazo, mesmo para compras que antes eram pagas à vista, uma prática que especialistas veem com preocupação.

Essa dinâmica tem se tornado uma constante na vida financeira dos brasileiros, conforme aponta a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Ela destaca que um número expressivo de indivíduos está recorrendo ao crediário para cobrir despesas básicas do orçamento mensal.

O grande perigo dessa abordagem reside na desorganização das finanças pessoais e na percepção equivocada de que o crédito pode atuar como um complemento salarial.

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Na verdade, sua função ideal seria financiar bens duráveis e de maior valor, com utilidade prolongada.

Adriana Marcolino reitera a importância do crédito como ferramenta para aquisição de bens de consumo duráveis e itens de alto custo. Seu trabalho no Dieese foca na defesa de políticas públicas e estratégias financeiras que visem aprimorar o poder de compra do trabalhador.

A armadilha da ansiedade de consumo

A facilidade de acesso ao crédito pode intensificar a chamada “ansiedade de consumo”, conforme adverte a economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria. Ela descreve esse comportamento como uma busca incessante por antecipar ao máximo a capacidade de consumo.

Esse padrão de comportamento, segundo Hennings, transcende faixas de renda e não se limita à compra de itens essenciais. A decisão de adquirir produtos é frequentemente influenciada por estímulos publicitários, tanto em mídias tradicionais quanto nas recomendações de influenciadores digitais.

A economista explica que "há uma profusão de apelos ao consumo, e o acesso facilitado ao crédito permite que as pessoas antecipem suas compras". Contudo, em meio a tantas ofertas, há uma lacuna na compreensão dos impactos da ansiedade de comprar.

"A etapa crucial e menos atraente de calcular os custos não está sendo devidamente realizada", lamenta.

As parcelas realmente se encaixam no orçamento?

A negligência em planejar financeiramente resulta em compromissos que ultrapassam a capacidade de pagamento, forçando os consumidores a recorrer a modalidades de financiamento com os juros mais elevados do mercado.

Entre elas estão o cheque especial, o parcelamento direto com a operadora do cartão de crédito ou o rotativo do cartão, acionado quando apenas uma parte da fatura é quitada.

Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), enfatiza a necessidade de o consumidor avaliar meticulosamente os custos associados a essas dívidas antes de qualquer aquisição. É fundamental calcular os juros que incidirão sobre as compras parceladas.

Bentes observa que, enquanto o brasileiro demonstra habilidade em pesquisar e comparar preços de produtos como vestuário, eletrodomésticos ou eletrônicos, essa diligência não se replica na análise de financiamentos.

"Na hora de tomar o financiamento, há o costume de apenas verificar se a prestação se encaixa no orçamento, sem aprofundar na análise dos custos totais", explica.

Crédito: um recurso, não uma renda extra

A economista Isabela Tavares, que monitora crédito e endividamento na Consultoria Tendências, aponta outro equívoco comum: a percepção de que o limite do cheque especial ou do cartão de crédito representa uma extensão da renda pessoal.

"É crucial compreender que o limite do cartão de crédito não constitui uma renda adicional", alerta Tavares. Ela reforça que o pagamento da fatura deve ser feito com o salário mensal.

"Alguém que recebe R$ 5 mil e possui um limite de cartão de R$ 5 mil não dispõe de uma renda total de R$ 10 mil", exemplifica a economista.

A importância da educação financeira

Isabela Tavares, Fabio Bentes e Katherine Hennings convergem na visão de que é imperativa uma maior educação financeira para a população. Essa formação capacitaria os indivíduos a tomar decisões mais conscientes sobre o quê, quando e como gastar.

Este é o foco do planejador financeiro Carlos Castro, criador da plataforma online de educação financeira SuperRico. Ele também colabora com a associação Planejar, responsável pela formação de profissionais que oferecem orientação personalizada.

Carlos Castro desenvolveu uma cartilha e uma calculadora interativa para auxiliar os cidadãos a decidir sobre a adesão ao Desenrola 2 e a avaliar a viabilidade de utilizar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o refinanciamento oferecido pelo programa governamental.

Embora reconheça o programa como uma "medida de curto prazo" e de caráter emergencial, Castro argumenta que a solução para o problema do endividamento é fundamentalmente estrutural. Seu objetivo é "evitar que o brasileiro retorne ao ciclo de endividamento e permaneça nos patamares atuais".

A alarmante marca de 81,7 milhões de inadimplentes

Dados do Banco Central revelam que, em março, a inadimplência das famílias no Sistema Financeiro Nacional alcançou R$ 238,5 bilhões, representando 5,3% do montante total de crédito concedido (R$ 4,5 trilhões).

É importante notar que este valor não inclui todos os credores, como o comércio e os prestadores de serviço.

Embora o percentual do volume de pagamentos de empréstimos em atraso possa parecer modesto em termos proporcionais, a análise da quantidade de pessoas com dívidas não quitadas revela números muito mais expressivos e preocupantes.

A Serasa Experian informa que 81,7 milhões de brasileiros encontram-se inadimplentes. A empresa detalha que a maior parcela dessas dívidas em atraso, 47,1%, é com bancos e instituições financeiras.

Um dado alarmante é que, a cada 100 devedores, 78 pertencem à faixa de renda de até dois salários mínimos.

Indivíduos com rendimentos mais baixos demonstram maior vulnerabilidade, seja para contrair novos empréstimos ou para acumular dívidas com custos mais elevados.

Isabel Tavares, da Consultoria Tendências, esclarece que essas são "pessoas com scores de crédito mais baixos, que, por não possuírem um emprego formal, não têm acesso a modalidades como o crédito consignado, que oferece juros menores por ser descontado diretamente em folha".

Consequentemente, elas são forçadas a recorrer a empréstimos não consignados, ao cheque especial ou ao rotativo do cartão, que possuem taxas bem mais altas.

Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, ressalta que o impacto dessas escolhas de crédito é "drenar uma porção significativa da renda do trabalho para o sistema financeiro". Ela conclui que "quanto maiores os juros, maior a fatia que será destinada aos bancos".

Serviço:

Para mais informações sobre o Desenrola 2, acesse a cartilha e a calculadora disponíveis para consulta.

FONTE/CRÉDITOS: Gilberto Costa - Repórter da Agência Brasil

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