Moradores da Avenida Inês Garcia, no Bairro Benfica, Zona Norte de Juiz de Fora, convivem com a preocupação provocada pelas condições de uma tubulação de água instalada junto ao Córrego Três Pontes. A estrutura apresenta deformação visível e fica em uma área onde as margens do curso d'água sofreram processos de erosão, situação que ganhou ainda mais atenção após as fortes chuvas que atingiram o município em fevereiro deste ano.
Entre os moradores está o aposentado Francisco Fonseca, de 64 anos. Ele relata que acompanha com preocupação as condições da adutora e das estruturas que a sustentam. O receio aumenta nos períodos chuvosos, quando o nível do córrego sobe e a correnteza exerce maior pressão sobre as margens.
Para quem vive na região, a preocupação não está apenas em uma eventual interrupção no abastecimento. Os moradores temem que uma falha estrutural da tubulação, combinada com novos danos às margens do córrego, possa agravar a situação da Avenida Inês Garcia e dos imóveis próximos.
Procurada pela reportagem, a Prefeitura informou que uma equipe da Companhia de Saneamento Municipal (Cesama) realizou vistoria técnica no trecho. Segundo o município, a tubulação permanece estabilizada e, no momento, não existe risco iminente de rompimento nem de comprometimento do abastecimento da região.
A administração municipal também afirmou que a área continua sendo monitorada e que medidas poderão ser adotadas para ampliar a segurança da estrutura.
A resposta, entretanto, não informou quantas pessoas dependem diretamente daquela tubulação, não detalhou quais intervenções serão realizadas na adutora e tampouco apresentou prazo para eventuais obras.
Prefeitura abriu contratação emergencial para conter Avenida Inês Garcia
Documentos públicos consultados pela reportagem mostram que a situação da avenida já havia levado o município a iniciar um procedimento emergencial meses antes.
Em 21 de agosto de 2026, a Prefeitura publicou a Dispensa Eletrônica nº 085/2026 para a contratação emergencial de uma empresa especializada na execução de obras de contenção em gabião na Avenida Inês Garcia.
O valor de referência do serviço foi fixado em R$ 139.001,80. O processo administrativo é o nº 10.086/2026 e a contratação foi vinculada ao contexto de calamidade pública.
O gabião é uma estrutura formada normalmente por pedras confinadas em gaiolas metálicas, utilizada para estabilizar terrenos e margens de cursos d'água, além de combater processos erosivos.
A documentação disponível no Portal de Compras Públicas inclui termo de referência, anteprojeto, planilha e uma matriz de riscos específica para a obra da Avenida Inês Garcia.
Apesar do caráter emergencial, o procedimento ainda apresentava pendências administrativas semanas depois da abertura.
O portal registra que a Remar Construtora apresentou o melhor lance e passou pela etapa de análise documental. Em setembro, a Prefeitura solicitou diversas diligências técnicas e informou no próprio processo que, diante da urgência da contratação, havia prorrogado prazos para apresentação de documentos. Na última movimentação pública localizada pela reportagem, de 22 de setembro, uma nova diligência havia sido anexada ao processo e o item continuava identificado como “analisando documentação”.
Os registros públicos consultados não permitem afirmar que essa obra tenha sido iniciada ou concluída.
Também não é possível concluir, apenas pelos documentos disponíveis, se a contenção prevista no processo emergencial resolverá especificamente a situação da adutora apontada pelos moradores. Trata-se, porém, de uma intervenção contratada justamente para a Avenida Inês Garcia, no contexto de estabilização da área.
Chuvas de fevereiro deixaram marcas na infraestrutura da cidade
A preocupação dos moradores ocorre poucos meses depois do desastre provocado pelas chuvas de fevereiro em Juiz de Fora.
O município chegou a decretar estado de calamidade pública após temporais provocarem deslizamentos, alagamentos, interdições e danos à infraestrutura urbana. O próprio portal emergencial da Prefeitura continua registrando o impacto do episódio e mantém orientações específicas para áreas próximas a rios, encostas e terrenos instáveis.
Publicação da Secretaria Municipal de Educação também registra que a chuva excepcional de fevereiro provocou deslizamentos e danos à infraestrutura, deixou famílias desalojadas e desabrigadas e afetou diferentes regiões do município.
A Defesa Civil mantém inclusive um mapeamento específico de risco hidrológico produzido após os eventos de fevereiro de 2026.
Na Avenida Inês Garcia, os efeitos da erosão continuam visíveis nas margens do Córrego Três Pontes, justamente no trecho que preocupa os moradores.
Problemas no Córrego Três Pontes não começaram em 2026
O histórico do Córrego Três Pontes mostra que demandas relacionadas à drenagem, fiscalização e manutenção da área existem há décadas.
Em 2007, uma proposta de ação legislativa apresentada à Assembleia Legislativa de Minas Gerais por iniciativa popular já solicitava maior fiscalização ambiental e uma vistoria do Córrego Três Pontes, em Benfica. A proposição foi aprovada.
Anos depois, em 2020, moradores da região voltaram a cobrar providências relacionadas ao curso d'água. Documento oficial da Câmara Municipal registra preocupações com material acumulado no córrego e informa que a fiscalização ambiental municipal faria uma vistoria no local. A Secretaria de Obras também recebeu demandas relativas à limpeza e à infraestrutura da área.
O próprio histórico de Benfica é marcado por episódios de cheia do Três Pontes. Registros históricos relatam que uma grande enchente em 1966 fez o córrego transbordar e atingir diversas ruas do bairro, episódio que antecedeu intervenções de canalização realizadas posteriormente.
Calçada termina e problemas continuam
Além da condição das margens e da tubulação, moradores chamam atenção para outros problemas no trecho da Avenida Inês Garcia acima da Rua Bartolomeu Bueno.
Parte da avenida não possui passeio adequado, há pontos em que o pavimento apresenta sinais de deterioração e a vegetação cresce junto às margens. Segundo os relatos recebidos pela reportagem, o mato alto também favorece a presença de caramujos africanos.
A Prefeitura informou que a Defesa Civil acompanha a situação e que, de acordo com as avaliações realizadas até agora, não há risco para o tráfego nem para os moradores.
O Executivo acrescentou que engenheiros trabalham na elaboração de um projeto de recuperação da área, que deverá ser apresentado à Defesa Civil Nacional. Não foi informado prazo para a conclusão do projeto ou para o início das intervenções.
Moradores cobram solução antes do período mais chuvoso
Apesar da avaliação técnica de que a adutora não apresenta risco iminente de rompimento, os moradores continuam pedindo uma solução definitiva para o trecho.
A principal preocupação é que novos períodos de chuva ampliem a erosão das margens do Córrego Três Pontes e aumentem a pressão sobre uma área onde já existem sinais visíveis de desgaste.
A própria Defesa Civil orienta que desmoronamento de terra nas margens, erosão provocada pela água e movimentações do terreno são sinais que exigem acompanhamento técnico.
Para os moradores, portanto, o objetivo é evitar que a resposta venha somente depois de um eventual agravamento. Enquanto a Cesama mantém o monitoramento da tubulação e a Prefeitura trabalha nos projetos para recuperação do trecho, a comunidade aguarda informações mais concretas sobre quando a contenção será executada, qual será a extensão da intervenção e se as obras também contemplarão a segurança da adutora.

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